Bye, bye, Brasil

Mercados de países vizinhos se tornam mais atrativos para estrangeiros

Captação de recursos/Reportagem/Edição 117 / 1 de maio de 2013
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Acreditou-se que o México seria a estrela da América Latina na primeira década do século 21. Mas, sem grande esforço, o Brasil assumiu o papel, ofuscando o resto da região com uma economia robusta e dinâmica. O País parecia reinar absoluto no sul do continente. No entanto, desde o fim de 2012, o trono está ameaçado. De acordo com dados da EPFR, empresa especializada em fluxos de investimento, o percentual do portfólio de fundos de ações de mercados emergentes aplicado no País caiu de 16,7%, no fim de 2009, para 11,6% em novembro do ano passado — patamar mais baixo desde 2005. De lá para cá, os números continuaram decepcionando. Os fundos de ações internacionais dedicados ao Brasil completaram, em 19 de abril, a oitava semana seguida de resgates, conforme a EPFR. “O Brasil desapontou”, resume Will Landers, diretor de fundos para América Latina da BlackRock.

O governo brasileiro é o alvo número um de críticas dos investidores. Em seu discurso, defende que é preciso melhorar o ambiente de investimentos, mas atitudes recentes da presidente Dilma Rousseff resultaram no oposto desse objetivo. Farida Khambata, estrategista global da Cartica Capital, cita o reajuste do preço da energia como um exemplo típico dessa contradição. Ao mesmo tempo em que as regras de renovação das concessões reduziram o custo da energia, com o intuito de tornar a indústria nacional mais competitiva, elas subtraíram US$ 20 bilhões em valor de mercado das companhias do setor elétrico, devido às abruptas alterações nas premissas que calçam as projeções dos analistas.

A perda afugentou os investidores do mercado acionário. Em setembro de 2012, mês em que o governo editou a MP 579, o saldo de investimentos estrangeiros na Bovespa ficou negativo em R$ 4,17 bilhões. Em abril deste ano, até o dia 22, o indicador estava negativo em R$ 1,04 bilhão. “Atualmente, os estrangeiros demandam um prêmio de risco maior sobre os investimentos em capital no Brasil do que exigiam há alguns anos”, observa Farida. A gestora tem uma visão pessimista sobre o futuro da economia brasileira. “O crescimento do PIB no curto prazo gerará inflação e estimulará uma alta na taxa Selic, desviando para os títulos públicos o dinheiro que poderia ir para a bolsa”, prevê. Com US$ 40 milhões investidos no País, a Cartica Capital decidiu não fazer, por enquanto, novas aplicações aqui.

A desaceleração da China também respinga sobre o Brasil. Principal comprador das nossas commodities, o gigante asiático registrou crescimento econômico de 7,8% em 2012, o menor em 13 anos. “O boom das commodities, que puxou a economia brasileira por um bom tempo, não está mais aí”, diz a estrategista da Cartica Capital. Com uma China mais tímida, o gigante sul-americano precisa arrumar meios de fortalecer sua economia interna. “Hoje, as empresas brasileiras estão longe de obter o ganho de produtividade necessário”, avalia Claudia Calich, diretora de renda fixa para mercados emergentes da gestora americana Invesco. Segundo ela, é preciso desatar os velhos nós que emperram o crescimento do País: carga tributária alta, infraestrutura deficiente e burocracia excessiva. “O México está lidando muito melhor com esses assuntos, enquanto o Brasil se torna mais protecionista e não faz as reformas necessárias”, acrescenta Farida.

A postura menos intervencionista de Colômbia, Peru, Chile e México aumenta o interesse dos estrangeiros

NA DIANTEIRA — A economia mexicana é forte candidata a assumir o lugar da brasileira como gigante da América Latina, daqui a alguns anos. O custo para produzir é menor por lá. Enquanto a nossa carga tributária está em torno de 36% do PIB, no México ela está em pouco menos de 20%. Em 2012, o PIB mexicano cresceu 3,9%, ao passo que a atividade econômica brasileira aumentou meros 0,9%. Outro país que tem roubado a atenção é o Chile, cuja carga tributária é a metade da nossa. A economia chilena avançou 5,9% em 2011 e 5,6% em 2012. O desemprego está por volta de 6% e, diferentemente daqui, a inflação está controlada. No ano passado, os preços ao consumidor subiram 2,2% no Chile, contra 5,6% no Brasil. O país andino é visto como uma economia madura, estável politicamente e aberta a investimentos estrangeiros e a novos negócios.

Para Landers, da Blackrock, a postura menos intervencionista dos governos de Colômbia, Peru, Chile e México aumenta o interesse dos estrangeiros pelo mercado desses países. “A eleição de Ollanta Humala, no Peru, foi uma boa surpresa”, afirma. Quando Humala tomou posse, havia a expectativa de que sua postura seria similar à do venezuelano Hugo Chávez, mas ele se revelou mais próximo de Lula e da chilena Michelle Bachelet, o que foi visto com alívio pelos investidores. Em 2011 e 2012, o Peru registrou taxas de crescimento invejáveis (6,9% e 6,3%, respectivamente); a inflação registra cerca de 3%. “O país está sob os holofotes”, ressalta Armando Armenta, economista da equipe de dívida em mercados emergentes da Invesco. A gestora não diminuiu seus investimentos no Brasil, mas confessa não estar ansiosa por aumentá-los.

Na visão dos investidores, os quatro países parecem estar tomando atitudes mais concretas para melhorar seus gargalos de infraestrutura. Um dos grandes problemas brasileiros é o mau estado das rodovias, dos portos e dos aeroportos, que acaba aumentando drasticamente o custo de produção. A presidente Dilma tem um discurso contundente no que diz respeito à redução do “custo Brasil” e à melhoria da infraestrutura local, mas os nossos vizinhos há muito tempo trabalham para resolver esses problemas. O México, por exemplo, começou esse processo em 1994, quando se tornou parte do Nafta, tratado de livre comércio entre países norte-americanos, e reestruturou seu ambiente de negócios. O Chile passou a adotar uma política aberta a investimentos na década de 1970 e, desde 2003, tem um tratado de livre comércio com os Estados Unidos. Peru e Colômbia também assinaram acordos semelhantes na década passada, ao passo que o Brasil tributa fortemente o comércio com os americanos.

É preciso considerar ainda que o custo Brasil tem o efeito de retroalimentar a sua própria deficiência. Quanto mais problemas um país tem, menos atrativo ele se torna para receber os investimentos que poderiam reduzi-los. Um ranking elaborado recentemente pela consultoria EC Harris avaliou o ambiente para investimento em infraestrutura de 40 países, e o Brasil ficou em 30o lugar. A Colômbia tirou a 29a colocação, enquanto o México ficou em 25o e o Chile, em 10o. O Peru não foi avaliado. Na comparação entre os Brics, o Brasil está à frente apenas da Rússia, que ocupa o 38o lugar (a China está em 18o, e a Índia, em 21o). Também decepcionamos no ranking de facilidade para fazer negócios elaborado pelo Banco Mundial. Estamos na 130a posição entre 185 países. Chile, Peru, Colômbia e México aparecem, respectivamente, em 37o, 43o, 45o e 48o. Quando se considera a proteção a investidores, o quarteto também sai na frente. Peru e Colômbia são, na América Latina, os dois países mais seguros. O Chile é o quinto, o México é o 12o e o Brasil, o 14o.

Peru e Colômbia são, na América Latina, os países considerados mais seguros para os investidores

BOLSA EM BAIXA — O desânimo com o País influenciou o preço das ações cotadas em bolsa, o que reforçou a saída de investidores. Na visão do gestor da BlackRock, os fundos passivos — como os ETFs — responderam por parte da debandada. Nos últimos 12 meses encerrados em 23 de abril, o fundo de índice iShares Ibovespa, o mais negociado na bolsa, caiu 11,4%. De fato, está mais difícil ganhar dinheiro no pregão brasileiro sem lançar mão de uma estratégia cuidadosa e seletiva de ações — conhecida como stock picking. As escolhas fáceis minguaram. Os papéis de companhias focadas no mercado interno estão caros, e os que recebiam a alcunha de defensivos, como o das elétricas, definharam diante das mudanças de regra impostas pelo Estado. O Latin American Fund, gerido por Landers, é um exemplo da redução da participação de Brasil nos portfólios: em janeiro de 2010, a exposição do fundo a ativos locais era de 74%; em fevereiro de 2013, esse percentual havia caído para 67%.

Dos países considerados mais atrativos que o Brasil atualmente, o México é o que apresenta os melhores resultados no mercado acionário. O Índice de Precios y Cotizaciones (IPyC) da Bolsa do México registrava, nos últimos 12 meses encerrados em 23 de abril, alta de 10,7%. Nesse mesmo período, os indicadores de desempenho das ações das bolsas chilena, colombiana e peruana desapontaram. Apresentaram desvalorização de, respectivamente, 2,9%, 10,2% e 22,5%. O Ibovespa caiu 10,8%.

O gestor da BlackRock recorda que o mau humor dos estrangeiros com o governo brasileiro vem desde a capitalização da Petrobras. A oferta, no valor de R$ 120,2 bilhões, diluiu os minoritários, provocando a fúria dos investidores. A punição veio no pregão. No começo de 2010, as ações da petroleira eram cotadas em torno de R$ 30; hoje, oscilam na casa dos R$ 20. Como resultado, companhias que podem sofrer intervenção política saíram do radar de muitos estrategistas.

OTIMISMO — Apesar de o País não estar sob os holofotes, há quem ainda o enxergue com entusiasmo. “Este ano o Brasil deve crescer mais e, em breve, voltar a atrair a atenção”, prevê Jan Dehn, diretor de pesquisa da Ashmore. Ele revela que a gestora tem uma estratégia de longo prazo por aqui; apesar da má fase, o mercado nacional continua interessante para os seus fundos. Nos últimos dois anos, a Ashmore aplicou, preponderantemente, em renda fixa no Brasil. “Deu para ganhar muito dinheiro com dívida pública nesse período”, conta. Como no começo de 2011 a taxa Selic estava em 11,25% e agora está em 7,5%, quem apostou na queda da taxa e investiu em títulos prefixados teve ótimos rendimentos.

Helga Jung, responsável por Península Ibérica e América Latina na Allianz, considera que o País foi vítima de sua própria atratividade. “Todo mundo queria estar representado no Brasil. Com isso, a moeda nacional se valorizou e as exportações sofreram, puxando o investimento para baixo”, analisa. Segundo ela, a Allianz continuará a ampliar sua presença por aqui, de olho na demanda reprimida de setores como saúde e educação. A Black-Rock também deve aproveitar o momento para adquirir “ativos baratos”, conforme Landers.

Um fator que pesa muito na decisão de permanecer no Brasil é o avanço institucional das companhias e dos reguladores locais. A governança das empresas brasileiras é elevada, na comparação com a de outros países emergentes. Mike Lubrano, diretor de governança corporativa da Cartica Capital, enfatiza que o nível alcançado pelo mercado financeiro nacional ajudou a evitar que tivéssemos um “voo de galinha” — crescimento súbito que rapidamente culmina com uma desastrosa queda.

Os gestores consultados pela reportagem, entretanto, são unânimes em dizer que só essas qualidades não bastam. Se os velhos problemas macroeconômicos e políticos não forem resolvidos, o País vai ficar para trás. E não adianta pensar que seremos salvos pelos investimentos trazidos pela Copa do Mundo ou pela Olimpíada. “O Brasil é grande demais para esses eventos afetarem a infraestrutura e a economia significativamente”, conclui Dehn. Sem soluções rápidas e milagrosas, o único jeito será partir para as reformas árduas.


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