Alibaba: Hong Kong perdeu IPO devido a padrões de governança

19/9/2014

Captação de recursos/Internacional / 19 de setembro de 2014
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Webabertura de capital do site de comércio eletrônico Alibaba, hoje na Nyse, revela números grandiosos, à altura das cifras comuns no país de origem da companhia: a China. Na maior listagem já realizada nos Estados Unidos, a empresa levantou US$ 21,8 bilhões, vendendo seus papéis a US$ 68 cada. Se o valor é alto, a desconfiança também. De acordo com o estatuto, o conselho da companhia, com nove cadeiras, terá 44% de seus membros indicados por um grupo de 27 sócios, composto pelo fundador Jack Ma e por outros executivos. Essa fatia pode subir para 55% no futuro, independentemente da participação econômica dos 27. A consultoria MSCI listou outros riscos, como o desafio imediato de integrar as operações das empresas adquiridas nos últimos 18 meses e, principalmente, o fraco controle de privacidade da companhia, que detém dados de 279 milhões de compradores.

Ainda assim, os investidores deram de ombros e resolveram não perder a festa. Quem ficou fora dela foi a Bolsa de Hong Kong (HKEx), em que a empresa comandada por Ma queria se listar a princípio. Em setembro de 2013, entretanto, desistiu do plano porque tanto a bolsa quanto a comissão de valores mobiliários local (a Securities and Futures Commission, ou SFC) concluíram que a regra estatutária que permitiria aos fundadores da companhia nomear a maioria dos conselheiros mesmo sem ter a maior parte do capital violava o princípio de uma ação, um voto. Decidiu pelos Estados Unidos, provocando uma disputa entre Nasdaq e Nyse para ver quem a receberia. Apesar de a primeira ser a preferida das empresas ponto com, a Alibaba preferiu a Nyse.

O mercado de Hong Kong e a HKEx vêm buscando capitalizar a perda do gigantesco IPO, propagandeando seu apego à boa governança. Com relativo sucesso: “Ter duas classes de ações é ruim. Hong Kong não o permite e preferiu não deixar o Alibaba se listar para manter essa regra importante”, comentou Mark Mobious, diretor de mercados emergentes da gestora Franklin Templeton, em entrevista concedida à CAPITAL ABERTO no mês de agosto.

A imagem de respeitadora de princípios, entretanto, merece relativização. Apesar de hoje manter uma postura altiva por ter respeitado as regras do jogo, na época Charles Li, diretor-executivo da HKEx, trabalhou intensamente nos bastidores para convencer o regulador local a adaptar as normas e, assim, receber o que seria o segundo maior IPO de todos os tempos (o maior foi do Industrial Commercial Bank of China, que se listou na HKEx e na bolsa de Shangai em 2006, captando US$ 21,9 bilhões).

Não era à toa que Li queria o Alibaba em seu pregão, apesar de todos os pesares. Mesmo sendo uma bolsa forte e atrativa, com 44 listagens no primeiro semestre de 2014 e mais um rol de companhias interessadas em abrir o capital nos próximos meses, ela tem perdido para os Estados Unidos no setor de tecnologia. Dos dez maiores IPOs (sem incluir o de hoje na conta) de empresas chinesas ligadas à internet, nove foram em em bolsas americanas. Perder essa oferta, foi, portanto, um preço considerável a ser pago pela manutenção de elevados padrões de governança corporativa.

Vale adicionar mais alguns números vistosos à oferta de ações do dia: a empresa emprega mais de 20 mil pessoas — mais funcionários que o Facebook e o Yahoo juntos.O Yahoo, aliás, é um de seus principais sócios: antes do IPO, detinha 22,4% do capital do Alibaba. Agora, vendeu uma fatia de 4,9% e embolsou quase US$ 8,3 bilhões com a operação. Esse foi, aliás, um excelente investimento, já que, há nove anos, a compra das ações lhe custara mísero US$ 1 bilhão.




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