- Capital Aberto - https://capitalaberto.com.br -

Adeus aos fundamentos

A percepção de que o mercado de ações norte–americano está quebrado vem se propagando. E não se trata de uma visão dos amadores que faliram devido à crise de 2008. Um artigo recente do jornal The New York Times diz que investidores profissionais acreditam que os novos instrumentos derivativos “transformaram o mercado em um cassino anabolizado”.

O que deu errado e quais as consequências? Para responder, devemos lembrar por que o mercado de ações existe. Ele se estabeleceu para que as empresas pudessem acessar o público e obter capital para aumentar a produção e a contratação de trabalhadores, construir redes de distribuição ao redor do mundo, etc. Esse mercado não existe mais. Como bem se sabe, o mercado de ações moderno é conduzido por day traders, hedge funds e outros investidores de curto prazo. Adicione a essa lista os exchange–traded funds (ETFs), cujo perigo é maior do que todos os anteriores somados.

Nos últimos 12 anos, vem diminuindo o número de companhias que optam por serem negociadas nos mercados de ações dos Estados Unidos, e a quantidade de papéis transacionados em bolsa caiu quase 30% — de 6,2 mil para 4,3 mil por dia. Durante o mesmo período, a soma de ETFs aumentou 11 vezes, de 95 para mais de 1,1 mil. Quando as ações passam a se comportar como se fossem ativos de uma cesta de ETFs, em que os fundamentos das empresas não são levados em consideração pelos investidores, os CEOs encontram mais uma objeção à abertura de capital.

O atual movimento de alta correlação não é novo. O que é novidade, entretanto, é a maneira como os ETFs estão diminuindo os benefícios da diversificação. Esse tipo de investimento faz com que ações de diferentes setores se movam na mesma direção, até quando não há pânico, porque elas são negociadas dentro de um só pacote.

Os reguladores deveriam se preocupar com o fato de que o mercado de capitais não está cumprindo sua principal função, que é alocar adequadamente o capital entre diferentes ativos de forma a disciplinar o risco e premiar sucessos. A equipe de derivativos do J.P. Morgan’s Delta One publicou um relatório em 2010 que mostra uma correlação sem precedentes do mercado acionário, denominada por eles como uma “bolha de correlação”, na qual as ações se movimentaram juntas 60% do tempo, enquanto o índice de volatilidade, uma medida de pânico, se manteve em níveis relativamente baixos.

Nos Estados Unidos, os ETFs possuem uma espécie de passe livre regulatório e não estão sujeitos às mesmas regras de um fundo mútuo. Essa diferença permite que os investidores norte–americanos evitem pagar certas taxas ao investir neles. Tal fator é uma das principais causas do crescimento do uso de ETFs.

Os reguladores têm sido lentos ao reagir a esse nicho que cresce tão rápido e pode pôr em risco a formação de capital das companhias. Os perigos são imensos. Recentemente, um negociador do banco UBS perdeu mais de US$ 2 bilhões em negócios com ETFs que não estavam devidamente garantidos. Esse caso, sozinho, já dá suficientes evidências do crescente potencial para falhas catastróficas de contrapartes que fazem e garantem as negociações. Junte–se a isso a maneira como os ETFs e outros instrumentos similares estão distorcendo o mercado, tornando–os menos adequados aos propósitos para os quais foram criados e sob os quais são regulados. Obviamente, legisladores e reguladores precisam desenvolver um regime melhor.