A turma acordou!

Com juro reduzido e inflação corroendo as aplicações, investidores começam a deslocar recursos para fundos mais sofisticados. O mercado de ações está pronto para receber essa poupança?

Captação de recursos/Reportagem/Edição 114 / 1 de fevereiro de 2013
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O ano de 2013 começou soando um alarme a todos os brasileiros que têm aplicações financeiras vinculadas aos juros pagos pelo governo federal: com a taxa Selic no patamar de 7,25% ao ano, inflação de 5,84%, pelo IPCA (e 8,1%, pelo Índice IGP-DI), e imposto de renda entre 22,5% e 15%, de acordo com o prazo da aplicação, os investimentos em fundos DI estão gerando retornos negativos ou muito próximos de zero. Líquidos da inflação e do imposto (à alíquota de 15%), renderam 1,53% ou -0,51%, considerando, respectivamente, os descontos de IPCA e IGP-DI. Para quem acredita que a inflação incidente sobre o custo de vida tenha ficado mais perto dos 8,1% que dos 5,84%, a conta é assustadora. O Brasil já estava acostumado a ver seu dinheiro render sem isso implicar muito risco. A boa notícia é que, aos poucos, a poupança dos cidadãos começa a migrar para fundos mais sofisticados.

A captação líquida (aplicações menos resgates) dos fundos de ações quase triplicou no segundo semestre do ano passado: passou de R$ 1,447 bilhão entre janeiro e junho para R$ 3,918 bilhões nos seis meses seguintes. Já os fundos DI, que haviam computado captação líquida positiva de R$ 20,2 bilhões no primeiro semestre, amargaram R$ 13,4 bilhões negativos no segundo. Nos fundos de renda fixa, o movimento também se inverteu: de R$ 22,4 bilhões positivos para R$ 13 bilhões negativos (veja infográfico ao lado). A parcela de cada produto no total das aplicações reflete as mudanças: os fundos DI, que representavam 12,1% da indústria em 2011, caíram a 11,6% no ano passado; os multimercados, que aplicam em ações, moedas e outros ativos, subiram de 19,7% para 20,1%.

A exceção foi a poupança. Cada vez menos atrativa, especialmente após a mudança das regras em maio de 2012, ela ainda é sucesso de público: sua captação líquida subiu de R$ 29 bilhões, no primeiro semestre, para R$ 47,2 bilhões, no segundo. A ausência de imposto e de taxa de administração pode ter deixado a impressão de que a aplicação seria vantajosa, mas os números, ao final, indicaram o contrário. Em 2012, o retorno da caderneta foi de 6,9% para as contas remuneradas pela regra antiga (6% TR) e 6,05% para as aplicações rentabilizadas conforme as normas que vigoram para os depósitos realizados a partir de maio de 2012 (70% da Selic TR). Assim, considerando-se a prática anterior, a rentabilidade da poupança alcançou 1,09% (descontado o IPCA) ou -1,2% (descontado o IGP-DI). Na regra nova, esses percentuais caem para decepcionantes 0,25% e -1,95%.

ESTAMOS PREPARADOS? — O sócio da Leblon Equities, Pedro Rudge, define o período atual como de transição. Fundos mais sofisticados, como os imobiliários, refletem esse movimento — captaram R$ 26,5 bilhões em 2012, ante R$ 9,17 bilhões em 2011. “O próximo passo será andar mais na curva de risco para o mercado de ações. É a tendência de um país ‘mais normal’, onde você não precisa ter todo seu patrimônio em renda fixa, com liquidez diária.”

A migração para os ativos de renda variável, no entanto, pode ter efeitos adversos. Na BM&FBovespa existem apenas 364 empresas listadas, das quais 206 negociam menos de R$ 1 milhão por dia. O risco de uma enxurrada de novos recursos é a supervalorização dos ativos existentes, podendo levar até a uma bolha de preços. Parte desse movimento começou a ser vista em 2012. Com a queda nas cotações das ações ligadas ao setor de commodities e estatais, como Petrobras e Eletrobras, a demanda por papéis de empresas voltadas ao mercado interno aumentou significativamente, inflando os preços.

Para o diretor-técnico da Apogeo Investimentos, Paulo Bittencourt, “o governo tem de criar rapidamente mecanismos” para levar empresas à Bolsa. Várias iniciativas, da Bolsa e de entidades do mercado, estão em curso para atrair novos emissores para o pregão, mas esse processo leva tempo.

Em contrapartida, assim como há estímulos para o investidor buscar mais riscos, existem incentivos para as empresas irem atrás de novas formas de capitalização. O nível dos aportes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) tende a arrefecer, conforme já sinalizado diversas vezes pelo Tesouro Nacional. Da mesma forma, o baixo número de IPOs desde a crise financeira de 2008 e, sobretudo, em 2012, quando houve apenas três ofertas públicas, no total de R$ 14,3 bilhões, criou uma demanda represada de emissores por novas aberturas de capital. “A tendência é a expansão no número de ativos e investidores”, afirma Antenor Fernandes, sócio da STK.

Enquanto novas empresas não vêm, os investidores vasculham oportunidades dentro do universo atual, e o segmento de companhias de baixa capitalização já sinaliza essa tendência: o Ibovespa teve alta de 7,5% em 2012, e o índice Small Caps registrou desempenho quase quatro vezes superior: 28,7%. “Muitas dessas empresas beneficiam-se do mercado doméstico, que ainda demonstra expansão interessante”, diz Rudge.

As aplicações em ativos no exterior seriam uma saída para o reduzido quadro de opções em renda variável no Brasil. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) autoriza, desde 2008, quando foi baixada a Instrução 465, os fundos de investimento voltados aos “superqualificados” — aqueles em que cada cotista tem uma aplicação mínima de R$ 1 milhão — a investir 100% dos recursos no exterior. No caso dos multimercados, é permitido alocar 20% do patrimônio líquido. No dos fundos de ações, 10%. A maioria das carteiras, porém, não atinge as cotas permitidas pela CVM.

Os gestores consideram que o maior entrave à remessa de dinheiro dos fundos é tributário. Eles têm de pagar imposto cada vez que realizam uma compra no exterior, e o dinheiro, ao ser repatriado, novamente é tributado, dessa vez como ganho de capital. A sugestão é que a CVM e a Receita Federal entrem em acordo para simplificar o recolhimento de impostos, permitindo ao investidor pagar pela tributação apenas uma vez e também poder operar com outra moeda que não o real.

O próximo boom do consumo

A fabulosa captação da poupança em 2012 denota que, embora os aplicadores estejam desgarrando aos poucos dos títulos públicos, a falta de consciência sobre a nova realidade de juros e inflação ainda é grande. Por essa razão, algumas casas de investimentos estão engajadas em alertar os investidores sobre a importância de escolher bem os produtos financeiros.

Em julho do ano passado, a XP lançou o Acorda Brasil, um site que motiva as pessoas a compararem as aplicações. Mediante uma inscrição, o internauta pode fazer a análise de seu perfil de investidor, conhecer os fundos que se encaixam nele e comparar rentabilidades. “As pessoas pesquisam quando vão viajar de avião ou comprar um seguro, mas não fazem isso quando adquirem um CDB ou um fundo multimercado”, ressalta Rossano Oltramari, sócio da XP. Em sua visão, já não há mais espaço para o amadorismo. As pessoas vão perder dinheiro se não dedicarem tempo à análise de seus investimentos. “Muitas só vão se dar conta depois. Nós queremos que elas acordem antes.”

Para Oltramari, o próximo boom da economia brasileira, em um ciclo iniciado com o advento do Plano Real, é o consumo de produtos financeiros. “O primeiro, com o fim da inflação, foi o do frango. Depois, o do iogurte, seguido da linha branca, da entrada na universidade, do automóvel e da casa própria. O próximo boom será o dos produtos financeiros. Isso faz parte do amadurecimento da economia brasileira.” (D.T.)


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Tags:  poupança Selic IPCA Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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