A queda de um presidente

Em 1972, uma ação ilegal da Fazenda derrubou Marcello Leite Barbosa, dirigente da Bolsa do Rio e da maior corretora do Brasil

Captação de recursos / Histórias / Edição 131 / 1 de julho de 2014
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Em julho de 1972, o regime militar encontrava-se no apogeu. A bolha especulativa que se desenvolvera nas bolsas no ano anterior desfazia-se lentamente com prejuízos gerais, contudo sem grandes traumas. A continuidade do movimento de queda, porém, trazia desconforto ao governo federal.

Marcello Leite Barbosa era o titular da maior corretora do Brasil à época e havia seis meses assumira, pela segunda vez, a presidência da Bolsa do Rio. A sede de sua empresa ocupava um edifício de 14 andares na Praça Pio X, em frente à Igreja da Candelária. A M. Marcello Leite Barbosa possuía 15 agências nas principais capitais do país e chegou a ter 1.400 empregados. Era uma potência financeira.

A casa veio a ser arruinada, no entanto, pelo aparato burocrático-militar que governava a nação. A ditadura perseguiu não apenas inimigos políticos como, também, aqueles considerados adversários na economia.

O presidente da Bolsa do Rio foi vítima de uma cilada. Convidado para um jantar com meia dúzia de empresários de alguma influência, embora decadentes, não percebeu que o encontro seria uma conspiração para a derrubada do poderoso ministro da Fazenda Delfim Netto. A reunião foi gravada por arapongas do famigerado Serviço Nacional de Informações (SNI) e chegou ao conhecimento do ministério.

A reação foi imediata. Decidiu-se por liquidar a corretora — não pelos caminhos legais, pois ela estava com seus compromissos rigorosamente em dia, mas pelo exercício de absurdo assédio moral e intensa pressão fiscal. Logo a seguir desembarcou na empresa uma equipe com mais de 12 inspetores de diversas instituições: Banco Central, Ministério do Trabalho, Receita Federal, etc. Os resultados foram autos de infração e o lançamento de multas que somavam US$ 33 milhões. A acusação era de desvio de recursos da pessoa jurídica e de operações irregulares em bolsa efetuadas pelos dirigentes.

Coagido, Marcello Leite Barbosa renunciou à presidência da Bolsa, ainda naquele mês de julho. A corretora perdeu clientes, amigos e grande fatia de mercado, amargando sensível encolhimento de atividades. As pessoas tinham receio da perseguição pelo ministro todo-poderoso, que ninguém queria contrariar.

Os processos perduraram 12 anos e todas as alegações do Fisco foram derrubadas pelos advogados José Luiz Bulhões Pedreira e Antônio Fernando de Bulhões Carvalho, que defenderam a causa. Finalmente, foi pago um valor pífio, apenas para que a União não se desse por totalmente vencida.

O toque burlesco fica por conta da queda simultânea do presidente da Bolsa de São Paulo, João Osório de Oliveira Germano, que nada tinha a ver com o caso. Passava a ideia, entretanto, de uma faxina nas bolsas, o que, àquela altura, interessava muito ao governo.

Montagem sobre reprodução e imagens retiradas de www.senado.gov.br e www.nucleomemoria.org.br.


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Tags:  CAPITAL ABERTO mercado de capitais Corretora Bolsa do Rio Ministério da Fazenda regime militar Delfim Netto 1972 bolha especulativa Marcello Leite Barbosa M. Marcello Leite Barbosa SNI conspiração Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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