Breve suspiro

Fundos de ações ganharam força em dezembro e janeiro, mas o movimento foi logo interrompido pela instabilidade na bolsa. Ainda assim, há quem aposte em um ano bom para a captação dessas carteiras, por conta dos juros menores

Captação de recursos/Edição 7/Reportagem/Temas / 1 de março de 2004
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Depois de dois anos de saques consecutivos, os fundos de ações voltaram a captar. Foram R$ 297 milhões de ingressos líquidos no patrimônio dessas carteiras em dezembro e outros R$ 485 milhões em janeiro, segundo cálculos da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid). Em fevereiro, por conta do cenário instável da bolsa e dos movimentos de realização, os saques voltaram a superar as captações e o resultado no mês, até o dia 18, acumulava um saldo negativo de R$ 646 milhões.

Ainda assim, há quem ainda aposte que a retomada dos fundos de ações não tenha parado por aí. Embora mais lenta que o esperado no início do ano, a queda das taxas de juros ainda está no cenário econômico desenhado por muitos investidores para 2004. E, junto com ela, a expectativa de transferência dos recursos aplicados em títulos de renda fixa para investimentos de maior risco.

A quantia aplicada nos fundos de ações, equivalente a 6,7% do total do mercado, ainda é pequena perto do movimentado pela indústria (ver tabela na página seguinte). “É preciso não se deter tanto ao volume e entender mais a tendência”, avalia Paulo Clini, responsável pela gestão de renda variável do Citigroup Asset Management. Noriko Yokota, gestora de renda variável do Sudameris/ABN Amro, prefere ser mais conservadora. “Ainda é cedo para afirmar se haverá mesmo uma retomada dos investimentos em ações”, afirma.

A euforia protagonizada pela bolsa no último trimestre de 2003 (impulsionada, principalmente, pela entrada de capital estrangeiro) serviu de estímulo para os investidores domésticos que estavam de fora – ou que tinham pequenas posições – no mercado acionário. Afinal, uma rentabilidade de 97,3% é de encher os olhos até dos mais conservadores. Mas a festa não durou muito tempo.

Já no fim de janeiro a bolsa passou a registrar quedas bruscas, terminando o mês com variação negativa de 1,7%. Em fevereiro, até o dia 25, registrava queda de 1,1%. Como é sabido, o investidor menos familiarizado com o mercado acionário costuma agir da maneira oposta à recomendada por qualquer cartilha de investimentos. Entra quando a bolsa está valorizada e sai no momento de crise, quando os títulos estão perdendo rentabilidade. Num cenário como este, é de praxe que ocorram novos resgates. E não deu outra.

Mas há quem veja o lado positivo da história. “É bom que essas oscilações ocorram justamente para mostrar ao investidor que a volatilidade existe”, explica José Alberto Tovar, sócio da ARX Capital. “O importante é registrar que, no médio prazo, escolhi dos os melhores papéis, o investimento em ações tende a ser mais rentável.”

QUEDA CONTINUADA DOS JUROS É ESSENCIAL – Mas para que o crescimento dos fundos de ações se torne consistente, é fundamental a queda da taxa de juro básica (Selic). Se a remuneração dos títulos públicos é alta, fica difícil para o mercado acionário competir. “Os fundos DI (pós-fixados) só perderão a hegemonia quando o investidor sair dessa zona de conforto”, afirma Alexandre Záquia, diretor de produtos do banco Itaú. “E isso só será realidade se o juro real cair mais fortemente.”

Nesse sentido, a decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) de manter pelo segundo mês consecutivo a taxa de juro em 16,5% foi um balde de água fria. Mas ainda que a velocidade de queda da taxa de juro não tenha sido a esperada pelo mercado, pelo menos a trajetória não mudou.

Por outro lado, a preocupação com uma possível pressão inflacionária indica a possibilidade de expansão mais acelerada da economia. “Independentemente do freio imposto pelo Banco Central, o PIB deverá aumentar em pelo menos 3,5%”, afirma Emanuel Pereira da Silva, diretor executivo da GAP Asset Management. “Por isso, mesmo que a taxa de juro permaneça em 16% ao ano, a bolsa vai continuar com um retorno atrativo”, completa. Trata-se, na verdade, de uma aposta na lógica que seria a mais coerente para funcionamento do mercado de capitais: o investidor de bolsa compra hoje uma expectativa de crescimento do lucro das empresas no futuro. A dúvida é se, em ambiente de inflação crescente, a política monetária acirrada deixará algum espaço para crescimento.

Mas se a tendência da taxa Selic for mesmo de queda, o cenário também é propício para os fundos de renda fixa pré-fixados, certo? “Não necessariamente”, responde Silva. Para ele, os ganhos com a curva de juro daqui para frente já não serão mais expressivos. “Quem quiser uma rentabilidade mais polpuda terá de assumir mais riscos”, diz. A aposta na renda variável como diferencial de rentabilidade pode ser comprovada pelo crescimento do patrimônio administrado pela GAP. Entre 2003 e 2004, os recursos triplicaram de tamanho, passando de R$ 500 milhões para pouco mais de R$ 1,5 bilhão.

Entre as ações com chances de boa performance este ano, Silva destaca as de companhias exportadoras de commodities como papel e celulose, aço e minério. O mercado internacional continua bastante líquido para esses produtos. No ambiente interno, a aposta recai sobre as operadoras de telefonia móvel. A expectativa é que o celular (cujo número já ultrapassou o de aparelhos fixos em serviço) continue a abocanhar mais nacos da telefonia convencional.

Transferência de recursos para ativos de maior risco ocorrerá em etapas

A retomada dos investimentos em produtos de maior risco é uma tendência, mas os fundos de ações não serão imediatamente beneficiados por ela. Tal processo vai ocorrer em pelo menos três etapas e os fundos de ações serão os últimos da fila a receber as aplicações de quem estiver disposto a apimentar seus investimentos.

A opinião é de Sergio Goldman, analista-chefe do Unibanco, que preparou um relatório em fevereiro para analisar a trajetória de retomada dos fluxos de recursos para os fundos de investimento. Sua expectativa é de que os investidores transfiram primeiro seus recursos para fundos de renda fixa de maior risco, como aqueles aplicados em dívida corporativa. Depois para os fundos mistos, que incorporam renda fixa, renda variável e ainda um pouco de derivativos, e só então para os fundos de ações.

Goldman acredita que a queda da bolsa em 1997, provocada pela fuga de recursos em meio à crise asiática, ainda deixa resquícios do trauma causado aos investidores. Sustentada em grande parte por fluxos voláteis de capital estrangeiro, a alta da bolsa naquele ano foi sucedida por uma violenta onda de saques de velocidade surpreendente até então desconhecida dos mercados recém-globalizados.

As seqüelas deixadas foram suficientes para que as mudanças do cenário econômico não fossem acompanhadas no mesmo ritmo por investimentos de maior risco. Goldman lembra que, no auge de 1997, a taxa real de juros era superior a 20% ao ano e os fundos de ações representavam 12% de toda a indústria. Cinco pontos percentuais acima do que existe hoje com uma taxa de juros real de 10% ao ano. “Por isso é razoável esperar que o percentual de recursos alocado aos fundos de ações seja superior ao daquela época”, avalia.

Com um investidor mais arredio, é imprescindível o cenário de queda nas taxas de juros. Para Goldman, é necessário um juro real abaixo de 10% ao ano, o que significa menos do que os 16,5% atuais considerando-se uma inflação de 6% ao ano.

Além de menores, as taxas de juros deverão ser estáveis nesse patamar. Períodos curtos de queda nos juros seguidos por novo aperto na política monetária fazem com que muitos investidores prefiram testar o risco dos fundos mistos ou outros produtos com exposição à renda fixa.

O analista acredita que será necessário também um esforço adicional dos gestores de fundos para criar produtos novos, que atendam mais plenamente à demanda dos investidores. Hoje, ainda há muitos fundos de ações que seguem de perto o desempenho dos principais índices do mercado de ações, como o Ibovespa e o IBX, e poucos com propostas diferenciadas, mais especializados ou focados em determinados setores da economia. Seria importante também um investimento maior dos administradores de fundos em campanhas publicitárias. “É preciso se falar em fundos de ações para que o público pense em comprar suas cotas. Temos tido muito pouca.

FUNDOS MULTIMERCADOS SEGUEM A TODO VAPOR – Caso o apetite para risco do investidor ainda não esteja tão apurado, ele tem à disposição uma outra alternativa atraente – os fundos mistos. Também chamados de multicarteiras (ou multimercados), eles aplicam em renda variável e ainda contam com a vantagem de manter uma boa margem de segurança alocando parte dos recursos em títulos de renda fixa. A categoria conta, hoje, com 28% de participação no mercado, quase dois pontos percentuais a mais que em 2002. Seu patrimônio líquido cresceu, no mesmo período, 52%, enquanto o dos fundos de ações registrou uma alta de 27,8%.

Vale lembrar, porém, que a rentabilidade dos multicarteira é diferenciada graças, sobretudo, às apostas desses fundos no mercado de ações. No fundo GAP Multiportfólio, por exemplo, cerca de 40% da rentabilidade de 2,84% apurada no mês de janeiro veio das operações em bolsa. Mais um indício de que, se bem administrados, os investimentos em renda variável permanecem uma boa pedida.


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