Um futuro para as corretoras?

Sem o respaldo de um mercado acionário que garanta a prosperidade dos negócios e a atração de clientes, os donos de corretoras de valores arcam com custos tecnológicos e regulatórios cada vez maiores. Frente ao aperto, algumas corretoras preferiram jogar a toalha. Com 87 anos de história, a Souza …

Antessala/Antessala/Bolsas e conjuntura/Edição 148
Por 


Um futuro para as corretoras?

 

Sem o respaldo de um mercado acionário que garanta a prosperidade dos negócios e a atração de clientes, os donos de corretoras de valores arcam com custos tecnológicos e regulatórios cada vez maiores. Frente ao aperto, algumas corretoras preferiram jogar a toalha. Com 87 anos de história, a Souza Barros decidiu fechar as portas no Brasil e concentrar-se na Souza Barros Securities, com sede nos Estados Unidos. Já a SLW transferiu a carteira de clientes pessoas físicas e institucionais para a Guide e manteve exclusivamente os serviços relacionados a câmbio, agente fiduciário e administração de clubes e fundos de investimento. Diante do cenário de incertezas, convidamos profissionais de corretoras e a BM&FBovespa para debater os prognósticos do setor. Confira a seguir os melhores trechos da conversa.

CAPITAL ABERTO: Quais motivos explicam a crise das corretoras?

Caio Villares: As corretoras estão inseridas num contexto macroeconômico muito desafiador. O nosso negócio depende do crescimento do mercado de capitais e, infelizmente, não temos visto isso nos últimos anos. Outro problema é o nível de taxa de juros, que deve continuar alto. Essa situação é muito prejudicial para as corretoras. Por mais que diversifiquem o negócio, ofertando renda fixa, como LCIs e LCAs, elas não conseguem, com a venda desses produtos, obter a mesma margem que teriam com ações. Então, vivemos uma espécie de wrap up — o mercado não cresce, o número de pessoas físicas é o mesmo desde 2009, e isso mostra claramente uma estagnação do apelo da bolsa. Ao mesmo tempo, as corretoras sofrem com custos crescentes, tanto por causa de tecnologia quanto para cumprir obrigações regulatórias e de autorregulação. É a famosa régua que só sobe.

Raymundo Magliano Neto: Meu pai [Raymundo Magliano Filho, ex-presidente da Bovespa] sempre fala: “Nós temos um mercado de terceiro mundo com uma regulamentação de primeiro mundo.” E isso é um problema grave, porque encarece muito os nossos custos. Os órgãos que regulam o setor — BSM [BM&FBovespa Supervisão de Mercado], Anbima, CVM e Banco Central — não se falam. A consequência dessa falta de diálogo é que as corretoras passam alguns meses por ano sendo auditadas por essas entidades e, às vezes, pela mesma coisa. Outra questão é como ganhar escala. Com o mercado do jeito que está, acho que há espaço para, no máximo, cinco corretoras independentes.

Luiz Felipe Paiva: Se compararmos a nossa regulação com as de outros países da América Latina, de fato a nossa régua é alta, tanto do ponto de vista de obrigações quanto de controles. E isso, a meu ver, não vai mudar. O crescimento da regulação é uma tendência mundo afora, estimulada pelo pós-crise de 2008. É verdade que as auditorias e os trabalhos realizados em campo por Bolsa, Ancord, Anbima e Cetip geram um custo para as corretoras, mas nós já estamos trabalhando para tentar criar uma auditoria única.

CAPITAL ABERTO: Além da questão regulatória, quais outros problemas afligem as corretoras?

Norberto Giangrande: A carga tributária é um deles. Eu tenho um sócio que diz que nós, como instituição financeira, compramos um convite da festa da Vogue por R$ 5 mil para ver modelos, mas acabamos na festa do bar da esquina, com um monte de bêbados. E por que ele faz essa comparação? Porque a tributação paga pelas corretoras é a mesma de um banco, com a diferença de que nós não temos o mesmo mercado. Para você ter uma ideia, hoje, de largada, nós pagamos uma alíquota de 10% sobre a receita bruta. Depois, incidem outros impostos. Com isso, a carga tributária para as corretoras com lucro pode chegar a 65%, 70%.

Caio Villares: Com uma tributação desse tamanho, não há como as corretoras montarem um programa de partnership eficiente, o que prejudica a atração de talentos. Por isso, um dos pleitos da Ancord é a otimização tributária. Em todos os segmentos do setor privado no Brasil a tributação considera o porte da empresa, menos no financeiro. Com receita bruta de até R$ 78 milhões, a maioria das empresas pode optar pelo regime de lucro presumido. Se você olha essa linha do balanço das corretoras independentes, quase 90% tem um nível de receita abaixo desse valor. Porém, como instituições financeiras, somos obrigados a optar pelo regime de lucro real. O Ministério da Fazenda não pode ver o setor financeiro como uma coisa só. Nós, da Ancord, já estivemos duas ou três vezes em Brasília e tentamos mostrar de forma bastante detalhada e técnica as diferenças entre corretoras e bancos.

CAPITAL ABERTO: Enquanto esses problemas não são solucionados, o que as corretoras podem fazer para garantir a perenidade de seus negócios?

Roberto Lee: Empreender no Brasil é coisa de maluco. E como todo bom maluco, os donos de corretoras precisam olhar os caminhos do futuro. Qual é a estrada das pedras douradas? Na minha opinião, ela passa pela diversificação e captura de novos mercados. De 2005 para frente, vários eventos ocorreram: a internet ficou muito mais comercial, a Bolsa iniciou os protocolos internacionais, o Ibovespa bateu 70 mil pontos e tivemos o boom dos IPOs. Tudo isso fez com que a indústria de equity se desbancarizasse. As pessoas deixaram de investir em ações por meio dos bancos e foram procurar as corretoras independentes. Isso deu um impulso muito forte para nós. O que ocorre hoje é a mesma coisa, mas para outros ativos. Temos um ambiente em que a poupança apanha violentamente da inflação, o que abre espaço para as corretoras oferecerem outros produtos, com rentabilidades mais atrativas. A nosso favor também temos uma indústria de hedge funds muito mais preparada para receber tíquetes menores. Diante desse cenário, cada vez mais as pessoas vão começar a deixar de investir com os bancos para guardar ativos nas casas independentes. Quem souber capturar esse movimento vai ter um futuro promissor. A nossa função é fazer a boa guarda do dinheiro do cliente. E a diversidade de produtos nos fornece uma arma muito relevante para isso.

CAPITAL ABERTO: Roberto, você falou em diversificação, mas a Clear, corretora que você fundou, optou pelo caminho oposto, a especialização.

Roberto Lee: Há dois jeitos opostos de encarar a crise. Um é seguir o exemplo da XP, que diversificou a gama de produtos e serviços para conquistar novos mercados. Outro é o da Clear, que se fechou completamente no universo de ações, mas em uma escala menor e com foco em trading. Na minha visão, muito mais difícil que investir é desinvestir, então, na Clear, nunca caímos na armadilha de querer ganhar escala. Fizemos um negócio voltado a eficiência e automação, para reduzir custos.

Norberto Giangrande: Eu acredito muito em nicho. Não dá para você querer fazer tudo sem ter escala. Na Link [Giangrande foi um dos fundadores da corretora], nós tínhamos um DNA de cliente institucional. Porém, em 2001, decidimos abrir o primeiro escritório de agente autônomo da Link. Era mais ou menos na mesma época em que a XP estava abrindo o dela. O problema é que nós não tínhamos DNA de tratar com pessoa física. A equipe de cadastro e liquidação ficava maluca quando uma pessoa física atrasava um dia para enviar o que eles precisavam. Quando montamos a Rico, já tínhamos uma equipe com outro DNA, adaptada para lidar com esse público. A especialização é importante em todos os mercados.

Luiz Paiva: Vale destacar que as nossas corretoras não são as únicas que estão tendo que repensar seus modelos. A Bolsa, em conjunto com a Ancord, a Anbima e a Cetip, pediu para uma consultoria internacional fazer uma foto da situação das corretoras lá fora. Nosso objetivo era entender se o que vivíamos no Brasil era uma jabuticaba. E descobrimos que não. No exterior, as corretoras também se deparam com o desafio de pensar em formas diferentes para ganhar mercado e ofertar produtos e serviços. Além disso, convivem com a concentração do mercado financeiro. E isso ocorre não só no universo de intermediação, mas também no das assets. Como o Lee comentou, esse é o momento de inovar e conquistar os investidores com uma estratégia que vá além do investimento em ações. Os ativos de renda fixa são, atualmente, uma primeira porta de entrada para os clientes nas corretoras.

Norberto Giangrande: A Rico é, desde janeiro de 2015, a primeira no ranking de compras dos agentes de custódia do Tesouro Direto. Eu brinco que a gente presta um serviço social. Porque o Tesouro Direto é um produto que gera uma margem muito pequena para a corretora, mas, ao mesmo tempo, é um produto muito importante como opção de investimento para as pessoas físicas. E nós queremos ensiná-las a investir melhor seu dinheiro.

Raymundo Neto: Nesse ponto da educação financeira, gostaria de fazer uma crítica à Bolsa. Acho que a BM&FBovespa está investindo muito na parte de tecnologia e esquecendo a educação presencial, por exemplo. Na minha visão, a formação do conselho favorece isso. O conselho da BM&FBovespa é composto apenas de banqueiros, e não há interesse da parte deles em educar a pessoa física. Quem preza por isso são os corretores independentes. Para o banqueiro, é melhor vender CDB. Nos conselhos de administração de outras bolsas do mundo, há membros de vários nichos de mercado. A BM&Bovespa, por exemplo, não tem um representante de companhia de capital aberto. Tem o Itaú, que é companhia aberta, mas também funciona como banco e asset. Na Nasdaq, por exemplo, o RI [diretor de relações com investidores] da Starbucks participa do conselho. Também não há um conselheiro que represente os investidores pessoa física.
E essa figura existia no conselho da Bolsa, antes de seu IPO.

CAPITAL ABERTO: Paiva, a Bolsa tem investido menos em educação financeira?

Luiz Paiva: Não. A Bolsa promove várias ações para educar as pessoas. Uma delas é o Desafio BM&FBovespa, competição de que participam estudantes de escolas públicas e privadas do Estado de São Paulo. Também temos o instituto educacional, que fornece treinamento para profissionais do mercado. A Bolsa já certificou cerca de 12 mil. Essas são ações que a Bolsa continua fazendo e não sei por que perderam a empatia de alguns corretores. Cabe destacar também que o site da BM&FBovespa é um dos mais visitados pelas pessoas físicas. Lá, disponibilizamos vários materiais educacionais, que ensinam a investir não só em ações, mas também em outros ativos. Nós fizemos, inclusive, um investimento junto com o Tesouro para criar um simulador.

CAPITAL ABERTO: E por que não há um corretor no conselho da Bolsa?

Luiz Paiva: Este é um assunto que surge com frequência e o conselho deu uma resposta a isso com a criação, há mais ou menos dois anos, de um comitê de assessoramento para o setor da intermediação, do qual participam profissionais de corretoras independentes. O presidente é o conselheiro José de Menezes Berenguer Neto [CEO do J.P.Morgan].

Norberto Giangrande: Eu faço parte dos conselhos de três empresas, uma delas de capital aberto. O conselho é o órgão máximo de uma empresa. Você pode montar comitê fiscal, de remuneração, mas quem dá a palavra final é o conselho. E se não há nele uma pluralidade de pessoas que representem o ambiente de negócios em que a empresa está inserida, as decisões vão ser direcionadas a atender os interesses da maioria da indústria que faz parte daquele conselho. No caso da Bolsa, há a predominância dos bancos. Banco tem corretora? Tem, mas corretora é um apêndice do apêndice do apêndice da atividade central do banco. Se a Bolsa tivesse corretores independentes representados no conselho, acredito que entenderia melhor o que se passa no dia a dia do corretor.

Caio Villares: A Bolsa mostrou boa vontade ao criar o comitê de corretores. Mas o que realmente me frustrou e causou minha saída desse comitê foi a falta de andamento dos pontos que a indústria de intermediação considera prioritários para a Bolsa apoiar. A BM&FBovespa não pode esquecer que nós somos seu braço comercial. E como nós vamos fazer um plano de negócios para atrair investidores para o mercado acionário se a nossa atividade operacional é deficitária? Essa situação deveria preocupar mais a Bolsa. Ninguém aqui é contra a regulação, mas existem excessos e eles precisam ser tratados. Uma analogia que eu faço é a seguinte: hoje nós temos uma super-highway, como se fosse uma autoban alemã de sete pistas de concreto, com supervisão de helicóptero e tudo mais, para passarem apenas quatro carros. Se eu sou concessionário dessa autoban, vivo de pedágio e passam quatro carros, como vou conseguir sobreviver para pagar a infraestrutura que eu sou obrigado a ter? O mercado hoje não precisa de regulação, de autorregulação, ele precisa de desenvolvimento. E como desenvolvemos o mercado? Como fazemos os nossos amigos de Brasília, sejam do Executivo ou do Legislativo, entenderem a importância do mercado de capitais? Porque o mercado de capitais é sinônimo de desenvolvimento em qualquer lugar do mundo.

CAPITAL ABERTO: Diante desses desafios, qual o prognóstico para o segmento de corretagem no Brasil nos próximos anos?

Roberto Lee: Acho que o prognóstico é positivo para quem souber plantar o futuro. E vamos conseguir fazer isso protegendo o cliente. A maturidade do mercado, aliada à inovação, vai trazer para fora dos bancos um volume de investimentos único, e esse é o único motor da nossa indústria, dinheiro entrando.

Norberto Giangrande: Olhando o mercado de investimentos, eu concordo com o Lee que haverá uma desbancarização. Cada vez mais as pessoas vão buscar investir melhor seu dinheiro, e isso invariavelmente fará com que deixem os bancos e procurem casas que ofereçam uma gama maior de produtos. No mercado de corretagem, acredito que sobreviverão dois tipos de corretoras: as preparadas para atender o investidor em escala global e fornecer um serviço completo e as de nicho, especializadas, por exemplo, em commodities.

Caio Villares: A desbancarização, sem dúvida, pode abrir oportunidades para nós. No passado, o acesso à bolsa foi um grande diferencial das corretoras. Hoje, o principal ativo delas é sua carteira de clientes. E elas precisam pensar na melhor forma de explorá-la.

Raymundo Neto: Mesmo assim, acho que há muitas corretoras no mercado. Daqui a dois ou três anos, gostaria que sobrassem apenas cinco. Pode ser que eu não esteja aqui, mas, em termos de eficiência, seria muito bom para o mercado se isso ocorresse.

 




Participe da Capital Aberto:  Assine Anuncie


Tags:  CAPITAL ABERTO mercado de capitais investimento corretora de valores Encontrou algum erro? Envie um e-mail



Matéria anterior
O mapa da mina: como estimar o retorno em startups
Próxima matéria
Achados e perdidos



1 comentário
Avatar

Aug 01, 2018

Ótima matéria. Mais uma vez os empreendedores e investidores se encontram sufocados em meio ao apocalipse de regulamentações estatais, impostos e manipulação da moeda pelo Bacen, destruindo o mercado, consolidando o poder dos grandes bancos e favorecendo o aparecimento de cartéis e monopólios. Governo, fique quieto. Deixe as pessoas em paz!



Escreva o seu comentário sobre este texto!

O seu endereço de e-mail não será publicado.



Recomendado para você





Leia também
O mapa da mina: como estimar o retorno em startups
Quem investe em startups deve esperar retornos binários: ou elas vão dar certo ou falir. Saber de antemão quais terão...
estudo_aplicado_02-07

Promoção de aniversário

ASSINE O PLANO COMPLETO POR R$4,99 NOS TRÊS PRIMEIROS MESES!

{"cart_token":"","hash":"","cart_data":""}