Soros, o mito

As peripécias de um dos mais renomados e controversos gestores de recursos do mundo

Colunistas / Bolsas e conjuntura / 20 de maio de 2017
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Alexandre Póvoa*

Alexandre Póvoa*

George Soros nasceu em 12 de agosto de 1930 em Budapeste, Hungria, e foi batizado Gyórgy Schwartz. Curiosamente, exatos 18 dias depois vinha ao mundo Warren Buffett, outro mito da gestão de recursos, na cidade americana de Omaha (Nebraska). Com linha comum de chegada — sucesso profissional e enriquecimento bilionário —, eles tiveram pontos de partida completamente diversos. Enquanto Buffett nasceu e cresceu no berço da típica classe média americana, em ambiente de relativa tranquilidade, Soros viveu situações difíceis na infância e na adolescência. Seu pai, húngaro e judeu, foi prisioneiro durante a Primeira Guerra Mundial, quando fugiu da Rússia rumo à Hungria. Em 1936, mudou seu sobrenome de Schwartz para Soros, em resposta defensiva ao sentimento antissemita que urgia com a ascensão do nazi-fascismo.

O pai escolheu cuidadosamente o novo sobrenome, que tinha propriedades interessantes: primeiro, trata-se de um palíndromo — palavra que pode ser lida tanto da esquerda para a direita quanto da direita para a esquerda; além disso, o nome carrega diferentes sentidos em dois idiomas — em húngaro pode ser traduzido como “sucessor” e em esperanto significa “vai voar”. George Soros, aliás, aprendeu o esperanto ainda pequeno.

Depois de muita luta, em 1947 Soros emigrou para a Inglaterra, onde se graduou pela London School of Economics cinco anos mais tarde. Enquanto estudante, ele se sustentava como porteiro em estação de trem ou garçom. Com temperamento diferente do de Buffett, Soros era um “permanente insatisfeito” no âmbito profissional, tendo trabalhado em diversas empresas — buscava liberdade para implementar suas próprias ideias.

Soros ficou famoso pela agressividade como gestor. Na década de 1980, ele recebeu algumas multas pesadas por “excessos em sua atividade de trading, afetando preços em benefício próprio”, o que o fez angariar antipatias ao redor do mundo. Em setembro de 1992, por meio de seu Quantum Fund, Soros vendeu a descoberto cerca de 10 bilhões de libras esterlinas, diante da relutância do Banco da Inglaterra em subir a taxa de juros e/ou deixar que a cotação da moeda flutuasse. Na chamada “quarta-feira negra”, o Banco da Inglaterra se viu obrigado a desvalorizar a libra esterlina, gerando ao fundo de Soros um lucro de 1,1 bilhão de dólares. Assim, Soros, o grande vencedor daquele dia, ficou conhecido como “o homem que quebrou o Banco da Inglaterra”.

Há também quem aponte Soros como o principal estopim da crise asiática de 1997, por ter especulado pesadamente contra a moeda tailandesa, o baht. Exatamente por causa desse paradoxo — ganhar dinheiro como investidor em cima de países e depois patrocinar causas sociais — é que Soros tem sido alvo de críticas ferrenhas.

Algumas recomendações de Soros sobre gestão de recursos ficaram famosas:

— Quando houver convicção a respeito do investimento, monte grandes posições; se essa convicção for muito forte, opere com intensidade.

— Durante o dia, comunique-se apenas com pessoas selecionadas, para não desviar sua atenção; todo gestor precisa de tempo para estudar e refletir.

— O segredo para “investir bem” está relacionado a “saber sobreviver”   em momentos adversos para suas posições. Há momentos em que você deve ser conservador, para se manter no jogo.

— Se o seu portfólio não está dando resultados, dobrar a aposta pode ser um erro. Não tenha vergonha de zerar posições com prejuízo. Recomece depois sempre com posições menores, para retomar a confiança.

No campo político, Soros também foi sempre muito ativo. Exemplos foram a oposição aberta a George W. Bush e a Ariel Sharon, “cujas administrações nos EUA e em Israel contribuíam para o ressurgimento do antissemitismo na Europa e no restante do mundo”. Por esse motivo, Soros doou, nas eleições americanas de 2004, quantias consideráveis a cerca de 500 grupos políticos, na tentativa infrutífera de impedir a reeleição de Bush.

Apesar de, mais tarde, dispensar apoio a Barack Obama, Soros criticou em 2010 o plano de salvação dos bancos americanos (defendeu abertamente a estatização das instituições que receberam recursos). Em 2011, com o aperto na regulação dos fundos de hedge pós-crise, Soros fechou o Quantum Fund com um histórico de retorno espetacular aproximado de 30% ao ano em 30 anos, devolvendo o dinheiro aos cotistas, passando a administrar somente o dinheiro pessoal e o da própria família.

Recentemente, o mercado especulou que Soros teria sofrido um grande revés — da ordem de 1 bilhão de dólares — apostando na deterioração dos mercados por causa do forte aumento de aversão a risco com a eleição de Donald Trump. Os mercados e o mundo dão as suas voltas: a libra esterlina sendo vingada por Trump.

Soros preside hoje o Soros Fund Management e a Open Society Institute, uma organização criada por ele próprio em meados dos anos 1980 com o objetivo de promover a democracia, o respeito aos direitos humanos e as demais reformas necessárias nos países do centro e do leste da Europa. Sempre buscando contribuir com o campo da filosofia e sem nunca abandonar sua postura polêmica, Soros fundou em 2010 o Instituto para o Novo Pensamento econômico (a partir de uma doação de 50 milhões de dólares). O objetivo da organização é a criação de teses que se contraponham à teoria liberal reinante nas escolas de Economia no século 21.

Os caminhos de vida, filosofias de investimentos e posição e ativismo políticos colocam George Soros e Warren Buffett em caminhos opostos. A genialidade profissional e o envolvimento em causas sociais aproximam esses personagens históricos da gestão de recursos.


*Alexandre Póvoa (alexandre.povoa@canepaasset.com.br) é presidente da Canepa Asset Brasil e autor dos livros: “Valuation, Como Precificar Ações” e “Mundo Financeiro, o Olhar de um Gestor”.


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Tags:  Gestão de Recursos Alexandre Póvoa George Soros inevstimento Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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