“Que o teto de gastos não vai se manter eu não tenho dúvida”, afirma Carlos Melo

Cientista político comenta sobre ímpeto gastador de Bolsonaro e os impactos desse cenário para o Brasil



“Que o teto de gastos não vai se manter eu não tenho dúvida”, afirma Carlos Melo

Imagem: macrovector | Freepik

O desgaste do casamento das visões de mundo do presidente Jair Bolsonaro e do ministro da Economia, Paulo Guedes, demorou um pouco para surgir, mas agora parece evidente e quase incontornável. O hiato entre o discurso de austeridade propalado pelo ministro e as inclinações gastadoras do ocupante do Palácio do Planalto tem gerado estresse no mercado financeiro, defensor de primeira hora da moderação nos gastos públicos representada pela presença de Guedes na equipe do presidente. Não à toa possibilidade a cada dia mais concreta de o governo estourar o teto de gastos está no topo das preocupações dos analistas e investidores.

O assunto foi tema central da conversa com Carlos Melo, cientista político e professor do Insper, promovida pela Conexão Capital e mediada por Luiz Orenstein, sócio da gestora Dynamo. Até a data do encontro, no dia 27 de agosto, percebia-se em Brasília aquele odor de “fritura” de ministro que vem se tornando frequente no governo Bolsonaro — e que vitimou, entre outros, o ex-superministro da Justiça Sergio Moro. Guedes parecia imune ao movimento, mas a pandemia mudou o cenário.

A contragosto e sob pressão do Congresso, o ministro teve de liberar um auxílio emergencial que exigiu uma grande abertura dos cofres públicos, mas que rende dividendos políticos de curto prazo para Bolsonaro: a sua popularidade aumentou na esteira dos pagamentos de 600 reais para milhões de pessoas, como mostram recentes pesquisas de opinião, e o presidente parece decidido a alongar essa política com o suporte de seus novos aliados do chamado “centrão”. No caminho dessa tropa, o obstáculo do teto de gastos tão caro ao mercado e a Guedes.

“Que o teto não vai se manter eu não tenho dúvida”, enfatiza Melo. “A questão é saber se será aberta uma chaminé ou se o Brasil vai virar um país a céu aberto”, afirma, ponderando a possibilidade de se chegar a um meio-termo. “Mas é preciso levar em conta que o presidente trabalha com a perspectiva da reeleição, então precisa manter em alta sua curva de popularidade por mais um bom tempo”, destaca o professor.

Populismo e demagogia

Melo sugere que uma compreensão adequada do atual cenário político brasileiro depende da análise do fenômeno que, nos últimos anos, cristalizou a

linhagem de políticos populistas e demagogos no mundo. “A compreensão da estrutura nos ajuda a entender as circunstâncias.” Ele explica que nos 30 anos compreendidos entre 1945 (ano do fim da Segunda Guerra Mundial) e 1975 se consolidou o chamado Estado de bem-estar social, que implicava uma maciça presença do Estado nas economias. Ocorre que o modelo se esgarçou, dando lugar a um sistema calcado em maior liberdade para investimentos, menor participação do Estado e revolução tecnológica sem precedentes. “Essa dinâmica provocou um crescimento econômico vertiginoso, mas que não foi acompanhado pela diminuição da desigualdade social”, observa Melo.

Ainda nessa linha, a intensificação do avanço das tecnologias e a redução dos custos de transação que esse movimento viabilizou alijaram um grande contingente de pessoas do mercado de trabalho. Indivíduos que, descontentes e desesperançosos, tornaram-se alvo fácil dos políticos demagogos que souberam ler esse cenário — Donald Trump e Bolsonaro entre eles. “Eles são o que o cientista político Sergio Abranches chama de ‘presidentes incidentais’, que não teriam sido eleitos sob outras condições”, comenta.

A questão, avalia, é que as ações desses políticos são efêmeras. “Eles também não conseguem dar as respostas para o que as pessoas precisam, o que ficou evidente com os efeitos da pandemia.” Importante ressaltar, acrescenta Melo, que Bolsonaro vocalizou esse mal-estar social, mas nunca se aliou verdadeiramente ao liberalismo. O que nos traz de volta ao cenário de desidratação de Guedes. “Bolsonaro e Guedes são água e óleo, têm ideias que não se misturam.”

O que esperar das eleições

Observador próximo dos movimentos do mercado, Orenstein concorda com a avaliação de que o ministro da Economia parece de fato estar no mesmo caminho de Moro, destacando a contraposição de um apelo forte à política assistencialista e uma tentativa de controle de gastos pela Fazenda. “Vimos recentemente a saída de secretários, então o mercado já olha para uma equipe em decomposição”, diz o sócio da Dynamo. E, no radar de analistas e investidores, está a pergunta: a popularidade de Bolsonaro se mantém se não for possível estender por muito mais tempo o pagamento de 600 reais ou se for necessário cortar o auxílio pela metade ou para menos da metade?

Ainda não é possível saber. Mas o que dá para avaliar, na opinião de Melo, é o peso das eleições municipais de novembro para o projeto do presidente. “Quando se fala em eleição municipal a tendência é a avaliação das forças que se estabelecem nas grandes capitais. Mas é essencial observar o que acontece nos pequenos municípios”, afirma. O dinheiro vindo do auxílio emergencial criado por causa da pandemia ajuda enormemente na ativação imediata da economia dos rincões do País — além disso, lembra o cientista político, as verbas federais para combate à disseminação do novo coronavírus podem ser cirurgicamente aplicadas em municípios dominados por políticos do centrão. Nesse contexto, não surpreende o fato de Bolsonaro nas últimas semanas ter se dedicado a viajar pelo País, o que pouco fez desde que assumiu. “Precisamos considerar que o centrão é pragmático. Se o presidente está bem e libera dinheiro, ele tem apoio. Mas se os recursos minguarem…”

É igualmente nebuloso o cenário para a eleição presidencial de 2022, mas Melo diz que já é possível identificar quatro forças políticas predominantes no País: o bolsonarismo, o petismo, o antibolsonarismo e o antipetismo. “Acredito que se houver algum ponto de intersecção entre o antibolsonarismo e o antipetismo pode ser que nos próximos dois anos surja uma alternativa viável à polarização”, afirma. Um interessante ponto relacionado à pandemia, destaca o professor, foi o fato de, inadvertidamente, Bolsonaro ter recriado o federalismo brasileiro. Sua postura contrária aos governadores que instauraram quarentenas e adotaram políticas de distanciamento social pode ter parido um dos eventuais quadros da intersecção entre os “anti”. E é possível que saia justamente daí um líder capaz de interromper a polarização que hoje tanto prejudica o Brasil.


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