Orgulho e vergonha na Petrobras

Seletas / Colunistas / Bolsas e conjuntura / Edição 57 / 18 de novembro de 2016
Por     /    Versão para impressão Versão para impressão


Ana Siqueira*

Ana Siqueira*

É impactante o livro Petrobras uma história de orgulho e vergonha, escrito pela jornalista Roberta Paduan e lançado no último mês de setembro. Trata-se do resultado de uma extensa pesquisa que levou dois anos. Além de fazer um trabalho intenso para compreensão da Petrobras e de sua história, a autora leu centenas de termos de delação premiada, denúncias do Ministério Público Federal e sentenças da Justiça Federal. Como ela própria enfatiza, o objetivo do livro não é abordar apenas o escândalo de corrupção na Petrobras revelado pela Operação Lava Jato, mas também mostrar o desmantelamento da governança e da gestão da empresa e a supremacia das decisões baseadas em interesses políticos em detrimento dos empresariais.

Apesar de a Petrobras sempre ter sofrido interferências políticas ao longo de sua história, nunca governos planejaram e executaram um plano tão amplo de uso da estatal como ocorreu nos mandatos dos presidentes Lula e Dilma Rousseff. O livro constata semelhanças entre estruturas de corrupção na Petrobras durante os governos Collor, Lula e Dilma. “O esquema consistiu em oferecer cargos de chefia a funcionários de carreira da petroleira, em troca de que eles realizassem — ou, pelo menos, não atrapalhassem — negociatas com empresas recomendadas por intermediários que se diziam representantes do governo federal”, diz um trecho. O que foi ensaiado no breve período Collor pode ser considerado uma espécie de projeto-piloto do sistema aprimorado pelos governos petistas. O ataque à Petrobras na época de Collor não prosperou porque o governo teve curta duração e os funcionários da Petrobras resistiram — resistência que teria custado a perda de cargos de diretoria e gerência, conforme a autora narra em detalhes.

O sistema de corrupção implementado a partir de 2003 envolveu uma espécie de fatiamento das áreas de negócios da companhia entre os partidos políticos que recebiam propinas. Embora o núcleo mais forte de geração de pagamentos ilícitos estivesse nas empreiteiras, a prática se alastrou para outros tipos de empresas e de contratos — como, por exemplo, a venda de informações estratégicas e até favorecimento comercial na negociação de nafta. Sindicatos e partidos políticos passaram a nomear funcionários para cargos de segundo, terceiro e quarto escalões da companhia, empregados que ascenderam por indicação em vez de serem promovidos por mérito. Um ex-diretor relata que “o emprego de tantos líderes sindicais em cargos de chefia na estatal acabou por neutralizar as possíveis reações dessas entidades ao governo”.

Parte dos expressivos investimentos feitos pela estatal não tinha justificativa econômico-financeira e visou atender a interesses político-partidários. Esse conjunto de fatores, aliado ao subsídio de preços adotado por longo período, debilitou a Petrobras de forma expressiva. A leitura, assim, é altamente recomendada para todos os stakeholders da Petrobras.

Com uma análise da nova administração da Petrobras, sob a liderança de Pedro Parente, é possível observar importante melhora na governança e avanço na recuperação da companhia. Resultados concretos demandarão tempo, mas são factíveis se os princípios da atual gestão forem mantidos. No entanto, tão importante quanto o processo de revitalização da estatal é sua blindagem contra eventuais ataques futuros. Para isso, é necessário que se compreenda como foi possível acontecer o que aconteceu com a Petrobras. O aparelhamento representou um duro golpe para a meritocracia, os planos de carreira e a governança da companhia.

A ética é o pilar central de uma empresa e seus administradores devem praticar e disseminar valores nela fundamentados. Até o momento, três ex-diretores da Petrobras envolvidos na Operação Lava Jato foram condenados, por crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa — ou seja, quem deveria dar o exemplo e tinha dever de lealdade à empresa na prática cometeu crimes e trabalhou para manter o sistema interno de alarme desativado ao longo de anos. O resultado é amplamente conhecido.

O enfraquecimento da meritocracia parece ter sido peça central na estratégia de desmonte da governança da Petrobras. Essa é uma questão-chave para ser profundamente estudada e entendida.


*Ana Siqueira (ana.siqueira@mapleconsult.com.br) é sócia da Maple Consultoria


Quer continuar lendo?

Faça um cadastro rápido e tenha acesso gratuito a algumas reportagens.

Tenha o melhor conteúdo do mercado de capitais sem limites ou interrupção.
Assine a partir de R$ 36/mês!
Você está lendo {{count_online}} de {{limit_online}} reportagens gratuitas

Seja um assinante!

Você atingiu o limite de reportagens gratuitas. Que tal se tornar nosso assinante? Além do acesso ao mais especializado conteúdo do mercado de capitais, você terá descontos de até 30% em nossos encontros e cursos. Aproveite!


Participe da Capital Aberto:  Assine Anuncie


Tags:  Governança Petrobras fraude Corrupção Ana Siqueira Encontrou algum erro? Envie um e-mail



Matéria anterior
Com lançamento de código, companhias abertas seguirão padrão único de governança
Próxima matéria
Surpresas indesejáveis




Recomendado para você




Nenhum comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.



Leia também
Com lançamento de código, companhias abertas seguirão padrão único de governança
Depois de três anos, o Grupo de Trabalho (GT) Interagentes lançou, no dia 16, o Código brasileiro de governança corporativa...