Bendita crise

Escassez de recursos provocada pela turbulência financeira abriu espaço para os fundos de private equity, que já respondem por 40% das fusões e aquisições no Brasil

Especial/Gestão de Recursos/Reportagem/Especial Private Equity 2010/Temas / 1 de Maio de 2010
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Os fundos de private equity roubaram a cena este ano. Assumiram um papel de grande destaque no movimento de fusões e aquisições no Brasil, superior até mesmo à parte que lhes cabe em economias mais maduras, como Estados Unidos e Europa. Segundo levantamento da consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC), eles estiveram presentes em 40% dos negócios realizados no País entre janeiro e abril de 2010 — uma participação recorde, duas vezes e meia superior à registrada em todo o ano de 2007, quando responderam por cerca de 15% das operações. O número refere-se a operações de aquisição e venda de participações mas, dentro dos 40% que coube aos fundos, 65% são compra de empresas. A atuação dos private equity torna-se ainda mais relevante se considerado o aumento do número de fusões e aquisições neste ano. De acordo com a PwC, um volume histórico de 236 transações foi fechado no Brasil no primeiro quadrimestre, 39% maior que o acumulado em igual período de 2009.

O desempenho dos fundos de private equity surpreendeu até mesmo os executivos do setor. Evidenciou que a indústria de capital de risco vem adquirindo importância cada vez maior no financiamento e na expansão das empresas, sobretudo as de médio e pequeno porte, para as quais o acesso ao mercado de capitais é mais difícil. “Os fundos de private equity assumiram um papel importante. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) não aguenta financiar tudo sozinho”, afirma o sócio da Jardim Botânico Investimentos, José Luiz Osório, ex-presidente da CVM e ex-diretor superintendente do banco estatal de fomento. “Nos Estados Unidos e Europa, cerca de um terço das fusões e aquisições inclui fundos de private equity. No Brasil, essa média já foi superada”, diz Alexandre Pierantoni, sócio da área de corporate finance da PwC.

“Nos EUA e na Europa, um terço das fusões e aquisições inclui fundos de private equity. No Brasil, essa média já foi superada”

A crise financeira provocada pelos créditos subprime parece estar por trás da ascensão do private equity nas operações de fusões e aquisições este ano. Enquanto a falta de liquidez afetou severamente os fundos de private equity nos Estados Unidos, aqui a história foi bem diferente. Lá era comum eles operarem de forma alavancada. A proporção entre ações (“equity”) e dívida nas aquisições chegava a ser de um para quatro, ou até mesmo cinco. No Brasil, as taxas de juros nunca permitiram tais práticas, o que fez com que a escassez de crédito não comprometesse as aquisições. O efeito, sim, foi inverso. Os fundos de private equity cresceram aos olhos das empresas como uma alternativa de capitalização, já que os bancos não ofereciam mais as mesmas condições de financiamento. As companhias, por sua vez, passaram a precisar ainda mais de recursos. Além disso, os principais competidores dos fundos nas disputas por aquisições — as grandes empresas, que atuam como investidores estratégicos — também se retraíram em razão do ambiente adverso.

As recentes inquietações no mercado mundial, vindas agora da Europa, também trazem oportunidades de aquisições para os private equity no Brasil. No curto prazo, a crise pode favorecer a realização de investimentos com o capital já levantado. Somente o Pátria, que possui sob gestão R$ 6,5 bilhões, planeja fazer entre seis e oito aquisições em 2010. Segundo Alexandre Saigh, sócio da gestora, os fundos de “buy out” (voltados a investimentos em participações de controle ou relevantes em empresas consolidadas) devem realizar de duas a três operações este ano, assim como os fundos do setor imobiliário. Os dois braços possuem sob gestão R$ 2,2 bilhões e R$ 1 bilhão, respectivamente. No setor de infraestrutura, em que estão aplicados R$ 2,2 bilhões, o Pátria prevê concluir duas transações.

Já o ambiente para captação de novos de recursos tende a ficar mais difícil em 2010, diante da maior aversão ao risco por parte dos investidores. O agravamento e o prolongamento dos problemas enfrentados pelos europeus preocupam. Afinal, o Brasil não ficará imune a uma recessão no continente, concordam os gestores.

Após voltar de uma rodada de visitas a investidores, o sócio do Pátria Investimentos não tem dúvidas de que eles estão preocupados e serão conservadores. “Gostaria de ter a tranqüilidade de espírito para dizer que (a crise) já passou, mas não passou”, afirma Saigh, para quem a atual inquietação veio para ficar. “Na minha avaliação, os mercados ficarão mais voláteis nos próximos dez anos. A ordem mundial (com a ascensão de China, Índia e Brasil) está em transformação e, até que haja uma nova acomodação, nós vamos passar por períodos de instabilidade”, diz. Para ele, os problemas das atuais potências econômicas — Estados Unidos e Europa — não terão fim tão cedo. O deslocamento do eixo do poder econômico deve continuar causando turbulências, avalia.

Cerca de 60% dos investidores do Pátria são estrangeiros. Apesar disso, Saigh garante que a captação de recursos tem superado os resgates em 2010, como já havia ocorrido em 2009. Atualmente, a gestora possui um fundo de infraestrutura em fase de captação. A metade, ou o equivalente a R$ 900 milhões, foi levantada até o momento. Outro fundo do setor imobiliário, de R$ 800 milhões, encontra-se na reta final, com um total captado de cerca de R$ 700 milhões. “Se o Brasil estiver relativamente melhor que os demais, os investidores vão optar por investir aqui”, afirma Osório. A Jardim Botânico Investimentos possui sob gestão R$ 100 milhões aplicados em quatro empresas e está em fase de conclusão de pelo menos mais um negócio. “Nos anos 90, é bom lembrar, a situação era inversa. Havia uma enorme liquidez nos mercados internacionais, mas não sobrava nada para o Brasil”, diz.

Falta de conhecimento dos empresários brasileiros sobre fusões e aquisições é um dos grandes obstáculos para os fundos

“Setores críticos para a economia, como o segmento de infraestrutura, vão continuar atraindo investimentos”, avalia Jonas Gomes, da BR Investimentos, que possui um fundo de R$ 400 milhões, para aplicações no setor de educação, e outro de R$ 600 milhões, que investe em empresas em fase de abertura de capital. A gestora também está captando recursos para outros dois fundos: um voltado a empresas de logística e outro ligado a infraestrutura. O fundo de educação, que adquiriu a HSM, conhecida por promover seminários de finanças e administração, está negociando outras aquisições no setor.

“O Brasil sofre com a falta de oferta de capital de longo prazo, mas não de empreendedorismo. Pelo contrário, o empreendedorismo no País é acentuado e forte”, ressalta Paulo Silvestri, da Rio Bravo, que possui R$ 240 milhões sob gestão e sete fundos de private equity, dos quais seis já estão fechados. Um deles, o Rio Bravo Nordeste II, está em fase de investimento. O valor médio é de R$ 25 milhões por empresa. “Mas o nosso objetivo é criar carteiras maiores, com aportes médios mais elevados”, assegura Silvestri. “Os fundos de private equity assumiram um papel relevante no fornecimento de capital para os empresários”, acrescenta o executivo, lembrando que a indústria de capital de risco existe há apenas dez ou 12 anos.

HORA DE COMPRAR — Mesmo com essa expansão, é preciso reconhecer que os recursos alocados em private equity ainda são muito modestos no País. Mas a perspectiva é de que os fundos de pensão e family offices, ainda pouco expostos em private equity, busquem mais ativos alternativos nos próximos anos. “No Brasil, a grande parte dos ativos está fora da bolsa, é ilíquida. Em 12 anos, o número de empresas listadas caiu de 1,4 mil para cerca de 400 aproximadamente. A arbitragem existente entre as empresas de capital aberto e fechado é muito atraente”, acredita Manuel Cordeiro, da BR Investimentos. A economia brasileira, acrescenta, levou vários setores a crescer de forma fragmentada, o que constitui terreno fértil para o private equity.

Para Silvestri, da Rio Bravo, a retomada em 2009 mostra que existe capacidade de rápida recuperação no Brasil. “No quarto trimestre do ano passado, já houve melhora, tanto do lado dos investidores como dos empreendedores. E isso continuou no primeiro trimestre de 2010”, afirma. Estima-se que os fundos ainda tenham entre US$ 10 bilhões e US$ 12 bilhões para investir em aquisições de participações acionárias em empresas no Brasil. “Para os private equity, a crise é a melhor hora de comprar”, diz Pierantoni.

Somente o Advent captou recentemente US$ 1,6 bilhão para investir em private equity na América Latina — e é esperado que grande parte desses recursos, 80%, venha para o Brasil. A elevação dos juros neste ano para conter a inflação tende a fazer com que os preços das aquisições caiam, analisa Leonardo Ribeiro, executivo da Ocroma Alternative Investments, consultoria e gestora de fundos de private equity. Os indicadores de consumo nos primeiros meses mostram que a economia mantém-se superaquecida. A previsão é de que o PIB cresça pelo menos 6% em 2010.

MERCADO ATRAENTE — Dalton Schmitt, sócio da gaúcha CRP, observa que os fundos de private equity ficaram com capital represado durante o período de maior euforia, em 2007 e início de 2008. “Havia uma forte competição com o mercado de dívida (o crédito oferecido pelos bancos) e com os IPOs”, lembra o gestor. A grande oferta de recursos disponíveis no mercado acionário e nos bancos acabou criando uma expectativa de preço muito elevada entre os empreendedores, dificultando as negociações para os fundos de private equity. Em 2009, após a crise nos Estados Unidos, a liquidez secou, e os fundos puderam realizar uma nova safra de investimentos. A CRP possui em carteira R$ 400 milhões e está em fase de captação de um novo fundo, o CRP VII. A gestora investe em empresas com receitas anuais de R$ 10 milhões a R$ 100 milhões, mas o novo fundo vai buscar investimentos maiores, em empresas com mais de R$ 100 milhões de faturamento, segundo Schmitt.

É verdade que a falta de conhecimento dos empresários brasileiros sobre os processos de fusões e aquisições, sobretudo entre as companhias de médio e pequeno porte, é um dos grandes obstáculos para os fundos de private equity. A não familiaridade dos controladores dessas empresas, que normalmente são o alvo dos fundos, torna o processo mais lento e, consequentemente, mais oneroso. “Deixa-se ainda muito dinheiro na mesa”, constata Pierantoni. Mas é também o grande número de médias e pequenas empresas, com faturamento anual de até R$ 300 milhões, que faz o mercado brasileiro tão atraente para os fundos.

Existem grandes oportunidades de consolidação em vários setores. Os segmentos de educação e saúde, em especial, ganharam destaque diante das perspectivas de forte crescimento nas receitas a partir da melhora dos indicadores econômicos e do aumento da capacidade de consumo da população de baixa renda. A Copa do Mundo e a Olimpíada também chamaram a atenção para o setor de infraestrutura, ao lado dos bilionários investimentos que precisarão ser feitos pelo governo federal, na geração de energia, e pela Petrobras, na exploração de petróleo na camada pré-sal. Os fundos de private equity olham, sobretudo, a capacidade de criação de valor das empresas por meio da implementação de processos mais eficientes de gestão administrativa e financeira, como orçamento base zero, governança corporativa e aumento da geração de caixa. “Eles funcionam com um selo de qualidade, diz Ribeiro.


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Tags:  fusões e aquisições private equity venture capital investimentos gestão de recursos Guia de Captações de Recursos Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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