Auditoria padronizada

Beth Brooke

Bimestral / Contabilidade e Auditoria / Temas / Entrevista / Edição 75 / 1 de novembro de 2009
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As firmas de auditoria estão acostumadas a atrair os holofotes do mundo corporativo. No começo da década foram os escândalos contábeis. No ano passado, a crise financeira trouxe à tona reflexões sobre a saúde financeira de empresas e bancos, além do questionamento sobre a maneira correta de contabilizar ativos, especialmente os financeiros. Isso tudo sem contar o esforço para a convergência às normas internacionais de contabilidade que diversos países — o Brasil, inclusive — estão enfrentando. Quanto a este último ponto, a expectativa é de que o trabalho seja longo. “Uns vinte anos”, afirma Beth Brooke, representante do Global Public Policy Committee (órgão que reúne as seis maiores auditorias do mundo) e vice-presidente global da Ernst & Young. Neste período, o desafio não será apenas criar padrões globais para as normas contábeis, mas também para as regras que norteiam a supervisão do trabalho dos auditores. E Beth é uma autoridade no assunto. Integrou o departamento do Tesouro norte-americano durante o governo Clinton, está entre as 100 personalidades mais influentes da contabilidade mundial segundo a revista especializada Accounting Today, além de ter figurado por três anos consecutivos na lista das mulheres mais influentes do mundo elaborada pela revista Forbes.

CAPITAL ABERTO: Depois da convergência contábil, qual o próximo desafio?
BETH BROOKE: É preciso haver padrões únicos de regras contábeis, mas também de auditoria. Nos Estados Unidos, as regras para os auditores independentes são elaboradas pelo Public Company Accounting Oversight Board (PCAOB), mas deveríamos ter apenas um órgão com essa função. O PCAOB poderia continuar existindo, como regulador independente, mas sem editar padrões, tarefa que poderia ser assumida pela Europa. Quanto às regras de contabilidade, a convergência nos ajudará a ter transparência e comparabilidade. O investidor quer olhar uma empresa na Índia, nos Estados Unidos ou no Brasil e só se preocupar em onde investir, e não em como traduzir linguagens diferentes.

A senhora tem acompanhado o processo de convergência no Brasil?
Não. Mas o importante é que foi estabelecida uma data, que é 2010. Nos Estados Unidos não há esse calendário, o que faz com que as companhias não estejam focadas na preparação que é necessária. E essa demora abre espaço para interferências políticas. Sem dúvidas, a adesão norte-americana ao padrão internacional seria um dos grandes acontecimentos da convergência, mas não o último. Recentemente, a Mary Schapiro (presidente da Securities and Exchange Commission) se referiu de forma positiva ao IFRS. Antes, quando assumiu o cargo, deu a entender que não estava certa de que o padrão internacional seria adotado nos Estados Unidos. Pelos menos agora o assunto está sendo abordado.

Qual a sua percepção sobre a interferência nos assuntos contábeis por parte de agentes como o Estado e as instituições financeiras, durante a crise? É possível blindar a contabilidade e a auditoria das pressões externas?
O Estado não tem nenhum papel na definição de regras. Ele pode ter uma influência, mas não deve controlar o resultado. Se pessoas de fora se envolvem, corremos o risco de perder a credibilidade das demonstrações financeiras. Ao mesmo tempo, os órgãos responsáveis não podem ficar alheios ao mundo. É preciso estar aberto ao que os agentes externos têm a dizer e, a partir disso, criar as normas. É necessário saber ouvir.

Atualmente, quais são as principais discussões dentro do Global Public Policy Committee?
Estamos discutindo como os auditores podem identificar fraudes, apesar de este não ser essencialmente o seu papel, e sim uma função que o investidor espera dele. Ao auditar uma empresa, o profissional parte do pressuposto de que há honestidade da administração. Caso contrário, o trabalho seria conduzido de forma diferente, com um caráter investigativo. Uma das possibilidades que estudamos é, de tempos em tempos, aleatoriamente, fazer uma auditoria investigativa. Mas esta é apenas uma ideia. Isso implicaria em aumento de custos e não saberia dizer quem arcaria com a conta.



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