Às cotoveladas

O cenário mudou para os bancos de investimento que atuam no Brasil. Eles agora brigam por espaço em um mercado mais pulverizado e concorrido

Bimestral / Gestão de Recursos / Temas / Reportagem / Edição 74 / 1 de outubro de 2009
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Com a volta de ofertas públicas de ações de primeira grandeza, os principais executivos de bancos de investimento pintam quadros extremamente animadores sobre o mercado brasileiro. “Alguns meses atrás, era tudo bem diferente”, costumam dizer. A reviravolta foi mesmo grande. Após a eclosão da crise financeira, em setembro de 2008, até a lista dos maiores bancos de investimento do mundo foi alterada. O Lehman Brothers foi aniquilado; o Merrill Lynch, comprado pelo Bank of America; e o Bear Sterns, absorvido pelo JP Morgan. De uma hora para outra, Goldman Sachs e Morgan Stanley passaram a figurar como os únicos sobreviventes da era das grandes grifes de Wall Street, mas não sem perderem o status de banco de investimento e se transformarem em bancos comerciais. O fato é que toda essa movimentação internacional alterou a dinâmica do mercado brasileiro: bancos nacionais se fortaleceram, e o mercado tornou-se mais pulverizado.

Por aqui, a mudança mais marcante foi a volta às origens da operação brasileira do UBS, que, por causa da necessidade de caixa da matriz suíça, foi vendida para o grupo BTG, de André Esteves, e virou BTG Pactual. Essa troca de comando comprova a vitalidade das instituições verde-amarelas. Até pouco tempo atrás, os suíços UBS e Credit Suisse eram os bancos mais requisitados para coordenar distribuições públicas de ações na BM&FBovespa, alternando-se na liderança desse mercado, sempre acompanhados de perto pelo Itaú BBA, o braço de atacado do conglomerado Itaú Unibanco.

Em 2008, em meio à turbulência financeira e à enfermidade dos estrangeiros, os brasileiros assumiram a dianteira. O Itaú BBA pulou para a primeira colocação (posição que lhe rendeu um market share de 23,5%, mais enxuto qvue o do ex-líder), seguido pelo Credit Suisse, segundo dados da Thomson Reuters. As surpresas vieram em seguida. Banco do Brasil e Bradesco fecharam o ano na terceira e na quarta colocações, respectivamente. Os três representantes nacionais responderam por mais de 40% do mercado e demonstraram o poder dos bancos comerciais mesmo quando o trabalho era o de vender ações. Para trás, ficaram nomes de peso, como JP Morgan e UBS.

Foi um retrato bem diferente do de 2004, ano da retomada dos IPOs, quando o UBS liderou o ranking ao ser o responsável por pouco mais de 40% do volume ofertado. Credit Suisse e Itaú vinham logo em seguida. O montante distribuído pelas ofertas coordenadas por esses três bancos equivalia a mais de 70% do total, incluindo-se as follow-ons.

O Credit Suisse, que no ranking de agosto aparece em nono e último lugar, pretende dar a volta por cima até o fim do ano

A força dos bancos brasileiros, no entanto, não está garantida. Neste ano, no acumulado até agosto, o UBS Pactual surge na ponta, ainda antes de se tornar o BTG Pactual. Apenas Banco do Brasil e Itaú BBA estão dentre as cinco instituições líderes nas vendas de ações realizadas até o fim de agosto (a Thomson Reuters computa dez operações nesse período, sendo 8 ofertas públicas e duas operações privadas que contaram com o assessoramento de bancos de investimento). O Bradesco, empatado na sétima colocação com o Goldman Sachs, ficou com 6,7% do total de operações de 2009.

As instituições comerciais ganharam espaço, mas não conseguiram desbravar o nicho mais importante: o de líder das ofertas

A ascensão e a queda dos brasileiros têm explicação. Muitos de seus mandatos para distribuir ações teriam sido uma espécie de retribuição pela concessão de créditos no período de vacas magras, já que também são bancos comerciais. “Cada um usa as armas que tem”, lembra um banqueiro. Fora dessa justificativa ficaria apenas o Itaú BBA, considerado o banco de investimento mais consolidado do País.

O poder de fogo do BTG Pactual, por sua vez, ainda é uma incógnita para os concorrentes. A instituição se autointitula o maior banco de investimento independente baseado em mercados emergentes e conta com executivos renomados como André Esteves e Pérsio Arida. Porém, na integração com o BTG, o Pactual perdeu alguns de seus profissionais talentosos, como Rodolfo Riechert, que dirigia a divisão de banco de investimento da instituição.

A próxima fornada de ofertas vai revelar quem está, de fato, no páreo. Os bancos admitem que a retomada do mercado será maior e mais rápida do que se imaginava. Guilherme Paes, chefe da área de investment banking do BTG Pactual, estima que as ofertas do quarto trimestre, entre IPOs e follow-ons, fiquem entre US$ 5 bilhões e US$ 8 bilhões. As projeções econômicas são altamente favoráveis, principalmente quando se trata da oferta de crédito para empresas e consumidores. “O País está entrando em uma fase de crescimento extraordinária”, diz Alexandre Bettamio, presidente do Bank of America Merrill Lynch no Brasil, e chefe do banco de investimento da instituição. Para ele, a disputa por novos mandatos de distribuição está só começando.

RETORNO TRIUNFAL – O otimismo não é para menos. Depois de anos à frente dos negócios de banco de investimento do UBS Pactual, Bettamio arrumou as malas e partiu para o Merrill Lynch do pré-crise, em 2008. Mal chegou à nova casa, foi surpreendido pelo tombo e pela súbita venda do banco, cujo badalado CEO, John Thain, teve a cabeça pedida. À generalizada aversão a riscos que tomou conta dos investidores somou-se a desconfiança do mercado local diante do Bank of America. Em duas ocasiões, a empresa deixou o País, sendo a mais recente delas na venda do BankBoston para o Itaú, em 2006. O resultado foi a ausência do banco nas ofertas de ações deste ano.

Mas a grande virada do Bank of America Merrill Lynch já está marcada. Será na oferta de ações do Santander, neste mês. Nada mal voltar ao papel de coordenador-líder (book runner, no jargão) à frente da operação que, até o fechamento desta edição, estava estimada em mais de R$ 15 bilhões (se exercido o lote complementar). Caso a cifra seja confirmada, a oferta brasileira do Santander será a maior emissão de ações de 2009 em todo o mundo, desbancando a da China State Construction Engineering (CSCEC), construtora chinesa que captou US$ 7,34 bilhões em julho. Além da operação do Santander, outros cinco mandatos reforçam o otimismo do Bank of America Merrill Lynch. O banco atuará nas ofertas subsequentes de CCR, Iguatemi, Gol, PDG Realty e JBS.

O Credit Suisse, que no ranking de agosto aparece em nono e último lugar, também pretende dar a volta por cima. “Espero terminar o ano em primeiro”, afirma José Olympio Pereira, diretor de investment banking da instituição, acionada para várias das operações atualmente em análise na CVM. O banco não está acostumado à posição de lanterninha (apesar de ter mantido a primeira colocação na área de fusões e aquisições). Nos anos anteriores ficou, no mínimo, com a segunda colocação — e, em 2007, período em que chegou ao mercado o maior número de operações, o Credit foi o banco de investimento mais solicitado, distribuindo mais de 25% do volume ofertado.

CONTRATAÇÕES DE PESO – Ao mesmo tempo em que o histórico de 2009 não mostra o melhor desempenho dos bancos tradicionais, como o Credit, ele evidencia que não há razão para desespero. Segundo banqueiros, as instituições comerciais ganharam espaço, pulverizaram o mercado, mas não conseguiram desbravar o nicho mais importante: o posto de líder da operação. Esse papel ainda cabe aos bancos experientes e com acesso aos investidores internacionais, os principais compradores de nossas ações. “Há maior concorrência, sim, mas é um sinal positivo. Revela o amadurecimento do mercado”, afirma o diretor de uma instituição. Disputar uma boa colocação num segmento em que confiabilidade e experiência são fundamentais exige equipes muito bem preparadas. Para dar conta do recado, o Bank of America Merrill Lynch, hoje com uma equipe de 20 pessoas na área de banco de investimento, planeja contratar até sete novos profissionais.

O BTG Pactual vai reforçar com mais 11 seu time de 23 profissionais nessa divisão. Muitos deles estão em período de quarentena porque estão deixando outras instituições. Mas já há trabalho lhes esperando. Até o encerramento desta edição, o BTG marcava presença em seis distribuições em análise na CVM, diz Guilherme Paes. Também está a pleno vapor o processo de seleção no Standard Bank, maior banco da África do Sul. Com forte presença nas últimas três letras do grupo Bric — na Rússia, na Índia e na China —, mas novato no Brasil, o banco tem recrutado nomes de peso. Para dar o pontapé da unidade brasileira, a base para as operações em todo o continente, o Standard convocou Eduardo Centola, até então corresponsável pela área de banco de investimento do Goldman Sachs. Do Goldman também vieram Pedro Marcílio e Cristina Bueno para a divisão de fusões e aquisições. Do Merrill Lynch saiu Marcelo Di Lorenzo, responsável pela área de private equity. “Agora estamos negociando a contratação de toda a equipe que cuidará de ofertas de ações”, conta Centola. O plano é começar a trabalhar ainda neste ano, para aproveitar as oportunidades deixadas no mercado pela crise.



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Tags:  Investimentos Gestão de Recursos Bancos Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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