Aposta acertada

Após anos de esforços para captar investimentos na Ásia e no Oriente Médio, companhias brasileiras começam a colher os resultados

Especial/Relações com Investidores/Reportagem/Especial Relações com Investidores 2010/Temas / 1 de julho de 2010
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Rodrigo de Macedo Alves, diretor de relações com investidores (RI) da Gol, está escolado em cruzar o mundo. Nos últimos dois anos, decolou uma dezena de vezes de São Paulo rumo a destinos como Dubai, Cingapura, Tóquio e Hong Kong. Na bagagem, relatórios, planilhas e fôlderes para explicar aos parceiros do outro lado do globo as oportunidades de investir no Brasil. Experiência similar vive Luiz Fernando Rolla, diretor de RI da Cemig, que passou tantas horas em voos nos últimos três anos quanto em salas apinhadas de investidores asiáticos, ansiosos por conhecer as vantagens (e os riscos) de aportar recursos no País.

O trabalho desses dois executivos e de um crescente número de empresários brasileiros que buscam parceiros no Oriente tem dado resultados. Na sua última emissão global de American depositary receipts (ADRs), a Gol Linhas Aéreas, que faz roadshows pela Ásia desde 2007, ofertou R$ 680 milhões em papéis, um quarto deles vendidos a fundos com registro na Ásia. A Lupatech, que atua nos segmentos de energia, válvulas industriais e metalurgia, também se dedica a estreitar o relacionamento com os orientais. Este ano, vendeu 40% de seus títulos perpétuos para clientes árabes. Ao todo, entre 5% e 8% do capital da companhia está nas mãos de investidores orientais.

Segundo Teresa Kaneta, diretora da consultoria de RI MZ Consult, a recente onda de investimentos dessa região no Brasil é fruto de anos de trabalho de autoridades e empresários brasileiros. “Até o início dos anos 2000, o Brasil olhava pouco para a Ásia, e o Oriente pouco para nós. Na última década, porém, houve um grande esforço de entidades, do governo e de empresários exportadores para apresentar o Brasil ao mundo, explicar nossa realidade e reverter a imagem de que flertamos com aventuras e calotes”, diz. A diretora acredita que os grupos de investidores asiáticos vão ganhar força no Brasil, ocupando espaços deixados pelos europeus e americanos. A crise nos mercados tradicionais e a abundância de recursos disponíveis na Ásia para investimentos internacionais favorecem esse cenário, segundo ela. “As empresas brasileiras que acreditaram na Ásia têm tido resultados positivos.”

A ascensão da classe C também contribui para tornar o Brasil atraente aos olhos dos orientais. Nos anos 80, auge do crescimento econômico dos tigres asiáticos, eles tiveram alta lucratividade ao apostar em jovens empresas coreanas, como Kia, Hyundai, LG e Samsung. O crescimento sustentável e acelerado da Coreia do Sul permitiu a conversão de famílias pobres em consumidores de classe média, turbinando o faturamento das companhias de bens de consumo. “Para muitos investidores, o Brasil pode ser uma nova Coreia, com a vantagem de que nosso mercado interno tem ao menos o dobro de consumidores com potencial de migrar para a classe C em relação ao que eles tinham nos anos 80”, observa Rolla, da Cemig.

A Gol ofertou R$ 680 milhões em ADRs, sendo um quarto desse total vendido para fundos asiáticos

Outra boa notícia é que o boom de projetos de infraestrutura no Brasil promete ampliar o portfólio de fundos de investimentos interessados nas companhias nacionais para além do tripé Tóquio-Dubai-Cingapura. “O fato de o País precisar investir muito em função da Copa de 2014, das Olimpíadas no Rio e dos projetos do pré-sal atraiu a atenção de fundos de regiões que, tradicionalmente, não são grandes parceiros do Brasil, como Kuwait, Hong Kong e China Continental”, afirma a consultora da MZ.

TERRENO PARA POUCOS — O Conhecidos por ser bastante minuciosos em suas análises de investimento, os asiáticos não costumam sacar dinheiro do bolso facilmente. Por isso, é preciso se preparar bem antes de se aventurar a fazer roadshows pela Ásia e Oriente Médio. “Antes de cada reunião, é preciso enviar um material rico sobre a empresa”, alerta Alves, da Gol. “Nos Estados Unidos, os investidores não têm tempo para ler longos prospectos e tiram todas as dúvidas na hora da reunião. Já no Japão, eles estudam os prospectos detalhadamente e fazem poucas perguntas. Já fui a reuniões em Tóquio em que ninguém me perguntou nada e tive que tentar adivinhar quais informações eram relevantes para eles.”

Além de preparo, uma boa dose de paciência pode ser necessária. Rolla, da Cemig, conta que atrair um investimento da Ásia pode levar alguns anos. Por isso, não desamina com o fato de a empresa ainda não ter conseguido levantar fundos com os orientais, apesar de se dedicar a roadshows na região desde 2008. “Os asiáticos têm muita curiosidade em compreender como funciona a economia brasileira e as características de nossa cultura. Contudo, antes de investir, precisam se sentir seguros de que somos parceiros estáveis e previsíveis.”

O esforço adicional para atrair investidores do Oriente é compensado pela maior fidelidade e capacidade de aporte dos grupos orientais. “Os asiáticos já estão hoje entre os estrangeiros que mais compram títulos de fundos perpétuos no Brasil. A maioria dos fundos de investimento do Oriente busca resultados de longo prazo e aplica recursos em grandes obras o que, em tese, favorece as companhias de infraestrutura e energia”, observa Rolla.

Diferentemente dos investidores americanos, os japoneses leêm atentamente o prospecto e perguntam pouco

Não à toa, as duas empresas que lideram a captação de recursos na Ásia e Oriente Médio, de acordo com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), são Vale e Petrobras, ambas envolvidas em grandes obras de infraestrutura. E o protagonismo dessas duas companhias no Oriente deve aumentar nos próximos anos. A Vale, com investimentos planejados de US$ 90 bilhões entre 2010 e 2014, prevê captar ao menos um terço desse valor fora do Brasil, com especial interesse nos investidores da Ásia. A Petrobras também está sedenta por novos recursos. No mesmo quadriênio, pretende levantar US$ 58 bilhões.

Companhias de menor porte como a Rodobens e o Banco ABC Brasil mantêm crescentes captações no Oriente Médio. A primeira já recebeu aporte do fundo soberano Abu Dhabi Authority, mesmo grupo que há um ano investiu na Lupatech e admite estudar novos investimentos no Brasil. De olho nesse movimento, o Itaú Unibanco abriu uma corretora em Dubai, cidade em que o Banco ABC capta investimentos para aplicar no mercado brasileiro.

Um player de peso que disputará a carteira dos orientais é a Gerdau. A siderúrgica prepara investimentos de R$ 9,5 bilhões nos mercados brasileiro, peruano e indiano até o fim de 2011. Para crescer na Índia, a companhia firmou joint venture com o grupo local Kalyani para construir um laminador de aços especiais e vergalhões com capacidade instalada de 300 mil toneladas ao ano ao custo R$ 88 milhões. Os recursos para o projeto, no entanto, não devem sair dos cofres brasileiros, já que a empresa indiana estuda captar recursos com investidores orientais.


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