Ano doloroso

Premiação reflete os impactos do resfriamento econômico sobre os resultados das companhias e os preços das ações

Captação de recursos/Governança Corporativa/Temas/Reportagem/As Melhores Companhias para os Acionistas 2012 / 1 de outubro de 2012
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Se o prêmio As Melhores Companhias para os Acionistas de 2011 foi um retrato do último suspiro antes da crise, com as empresas ainda mostrando desempenhos vigorosos, a competição de 2012 é a síntese das dificuldades dos últimos tempos. Os dados analisados escancaram os efeitos da desaceleração econômica, com impactos sobre a criação de valor aos acionistas e os preços das ações.

A análise se inicia com a seleção das 100 companhias cujas ações apresentaram os maiores índices de liquidez na BM&FBovespa nos 12 meses anteriores a 1º de abril de 2012, conforme dados da Economática. Elas são divididas em três grupos, conforme o seu tamanho, e avaliadas em três dimensões principais: criação de valor, medida pelo Economic Value Added (EVA); retorno total para o acionista (TSR, na sigla em inglês) — o ganho obtido pelo investidor com a valorização das ações em bolsa e os dividendos; e governança corporativa. A esses três itens é acrescida uma avaliação de sustentabilidade: as companhias listadas no Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da Bolsa de Valores recebem uma pontuação extra.

As vencedoras em cada categoria são aquelas cujas notas de EVA, TSR, governança corporativa e sustentabilidade são superiores à mediana do grupo (entenda a metodologia do prêmio no quadro da próxima página). O prêmio é realizado pela CAPITAL ABERTO sob a supervisão do professor doutor da FEA-USP Alexandre Di Miceli da Silveira e em parceria com a Stern Stewart do Brasil. Os dados de EVA e TSR são calculados pela Stern Stewart, e as informações de governança corporativa são coletadas por uma equipe de pesquisadores liderada por Pedro Henrique de Barros, doutorando em contabilidade e controladoria da FEA-USP.

Em um período conturbado como o ano de 2011 e o início de 2012, as medianas dos números de EVA e de retorno total do acionista restaram todas negativas. Na última edição do prêmio, 80% das companhias analisadas haviam proporcionado um TSR positivo aos seus investidores; neste ano, somente 35% obtiveram esse feito. No item criação de valor, 42% da amostra de 2011 registrara uma variação positiva de EVA de um exercício para outro — condição que, segundo a Stern Stewart, denota a geração de riqueza para o acionista. Desta vez, apenas 32% satisfizeram seus investidores sob esse critério.

A categoria das empresas pequenas (com valor de mercado até R$ 5 bilhões) foi a que mais sofreu nos aspectos de criação de valor e retorno para o acionista. A mediana de EVA desse grupo ficou negativa em 2,93% (ante -0,39% das empresas médias; e -0,38% das grandes), e a mediana do TSR posicionou-se em 39,31% negativos (antes -3,42% das empresas médias; e 5,77% negativos das grandes). Devido ao enxugamento da capitalização de mercado das companhias, o grupo das chamadas small caps inflou: empresas que em 2011 foram classificadas como médias passaram para o grupo das pequenas. Da centena de companhias analisada, 46 eram médias e 28 eram pequenas em 2011; neste ano, as médias somaram 36, e as pequenas, 39.

Na enxurrada de percentuais negativos, algumas companhias não premiadas nesta edição chamam a atenção quando analisadas suas dimensões individualmente. No item “retorno do acionista”, calculado para os 12 meses anteriores a 30 de maio de 2012, destacam-se Cemig (TSR positivo de 59,3%); Cielo (58%); Multiplus (52%); Raia Drogasil (50,9%); e Ambev (49%). Nas variações de EVA, Souza Cruz (incremento de 16%) e Eletropaulo (9,5%) exibem resultados bem superiores aos das demais. O prêmio, porém, privilegia a abrangência do desempenho — é preciso estar acima da mediana da categoria nas três principais dimensões (EVA, TSR e governança). Como tiveram sucesso só em um ou dois critérios, essas companhias não entraram para o seleto time das premiadas neste ano.

Embora não esteja relacionada ao cenário de desaceleração econômica, a performance em governança também foi mais fraca em 2012: 59% das empresas analisadas tiveram nota superior a 5; no ano passado, 82% delas ficaram acima desse patamar. As práticas corporativas são avaliadas com base em um questionário preenchido com dados públicos e submetido à revisão das companhias. Como em todos os anos, o questionário foi aprimorado para incorporar aspectos novos de governança e erguer o nível das práticas analisadas (leia sobre os resultados de governança na página 10).

As nove companhias premiadas de 2012 — e as empresas assinaladas como destaques em governança e em EVA — serão homenageadas em cerimônia marcada para o dia 2 de outubro, em São Paulo.

Souza Cruz conquista liderança em EVA

As imposições legais que inibem o consumo de cigarros não têm sido capazes de afetar a saúde financeira da Souza Cruz. No prêmio As Melhores Companhias para os Acionistas 2012, a empresa conquistou a liderança no quesito valor econômico adicionado (EVA, na sigla em inglês). Maior companhia de tabaco no Brasil, a Souza Cruz apresentou um aumento de 16% no seu EVA, o equivalente a R$ 175,5 milhões. O crescimento está ligado ao desempenho de outro indicador: o resultado operacional, que foi ampliado em quase 13% em 2011.

Leonardo Senra, diretor de relações com investidores da Souza Cruz, atribui essa melhoria à continuidade do investimento de marketing no mix de marcas (dentre elas Lucky Strike e Derby), ao aprimoramento crescente da distribuição e à progressão da capilaridade Brasil afora. Em 2011, a Souza Cruz distribuiu seus produtos diretamente para 300 mil pontos de varejo, crescimento de 10% em relação ao ano anterior. Em outros 70 mil locais, a mercadoria chegou por meio de distribuição indireta. Essa ampla cobertura garante que os produtos da Souza Cruz estejam presentes em 80% dos pontos de vendas de cigarro do País.”Ao trabalharmos os pilares comerciais e de marketing, pudemos aumentar os preços em uma média de 8%. Com isso, conseguimos ampliar nosso faturamento e nossa margem”, comemora o diretor.

A Souza Cruz também promoveu mudanças internamente para melhorar o EVA. O foco esteve na gestão do capital de giro. A companhia reduziu as contas a receber, diminuiu os prazos de recebimento e fez um raio X na sua carteira de clientes para identificar os melhores pagadores. “Assim, foi possível correr um pouquinho mais de risco com aqueles clientes que nos dão retorno melhor”, explica Senra.

Neste ano, o lucro líquido consolidado da Souza Cruz fechou o primeiro semestre em R$ 841,9 milhões, 7,4% superior ao obtido no mesmo período de 2011 (de R$ 783,6 milhões). Essa variação, decorre, principalmente do crescimento de 8% no lucro operacional. (Daniel Cardoso)




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