Ano da virada

Companhias interessadas em alongar passivos e investidores preocupados com a diversificação de suas carteiras sacodem o mercado de debêntures

Captação de recursos / Edição 11 / Temas / Reportagem / 1 de julho de 2004
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Depois de um ano de retração, o mercado de debêntures começa a ganhar novo fôlego em 2004. Somadas, as operações em análise até meados de junho e as já lançadas totalizavam R$ 6,8 bilhões, 28% a mais que o volume registrado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em todo o ano de 2003. A petroquímica Braskem inaugurou 2004 com a maior oferta feita até o momento, de R$ 1,2 bilhão, coordenada pelo Unibanco. Mas foi a partir dos últimos dois meses que o ritmo desse movimento parece ter acelerado.

Somente entre os dias 20 e 27 de maio foram submetidas à CVM quatro novas emissões de debêntures – Companhia Energética do Rio Grande do Norte (Cosern), Petroquímica União, Fundição Tupy e a Concessionária da Rodovia Dutra. Logo em seguida vieram os anúncios da Opportunity MEM (R$ 200 milhões), da Invitel (R$ 260 milhões) e da Concessionária da Rodovia Osório-Poá (R$ 20 milhões).

A Braskem também comunicou à Bovespa a intenção de captar mais R$ 300 milhões. Até o fechamento desta edição, esperava- se emissões de Suzano, Bahia Sul Celulose e Brasil Telecom, essas no montante de R$ 500 milhões cada.

Espera-se que isso seja apenas o começo. Na seqüência de um 2003 para baixo, quando foram registrados meros R$ 5,3 bilhões em emissões, a aposta na retomada tem boas razões. A primeira delas é a queda da taxa básica de juro (Selic). Se a remuneração dos títulos públicos, com baixíssimo risco de calote, é alta, a empresa é obrigada a desembolsar uma fatia ainda maior se quiser atrair compradores. Ou seja, os papéis privados sofrem com a concorrência direta dos títulos públicos.

Hoje, uma Letra do Tesouro Financeiro (LTF) com vencimento em 2009 é negociada, no mercado futuro, a 101% do CDI. O mesmo papel já chegou a pagar prêmio de 115%. “Se a tendência de queda da taxa de juro continuar, o número de emissões pode ser ainda maior”, afirma Carlos Santos Neto, superintendente de desenvolvimento da Associação Nacional das Instituições do Mercado Aberto, Andima.

Combinada ao movimento de redução da Selic está a menor receptividade dos investidores estrangeiros, por conta da perspectiva de aumento do juro nos Estados Unidos. Uma recente pesquisa da Fitch, agência de classificação de risco, aponta Brasil e Turquia como os países mais vulneráveis à alta do custo dos empréstimos. “Ao mesmo tempo em que o dinheiro no mercado internacional encareceu, aqui dentro barateou”, explica Sérgio Cutolo, sócio do Banco Pactual.

A empresa de produtos alimentícios Vigor aproveitou o bom momento para financiar R$ 50 milhões em debêntures, numa operação liderada pelo Bradesco. “A operação tinha como objetivo reforçar o capital de giro e substituir um financiamento feito em moeda estrangeira”, conta Vinícius Teixeira Ramos, vice-presidente da Vigor. Segundo ele, havia demanda para uma colocação 20% maior. “Lançamos o que era preciso, só não esperava que a procura fosse tão grande”, diz.

RENEGOCIAÇÃO DE DÍVIDA – Assim como a Vigor, a maior parte das captações feitas neste primeiro quadrimestre (74%) foi destinada ao alongamento dos passivos das empresas. O número de novos investimentos, porém, subiu. Enquanto no mesmo período de 2003 eles respondiam por 3,4% das emissões, agora já são 12,3%.

Além de quantitativo, portanto, o crescimento no número de emissões este ano apresenta um salto qualitativo. A retomada do crescimento econômico deve impulsionar o financiamento das companhias via mercado de debêntures, especialmente a partir do segundo semestre. Um avanço de 3,5% do PIB, como está previsto para 2004, determina, com grandes chances, uma expansão da capacidade da indústria. A última pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) confirma essa expectativa. O levantamento mostra que as vendas industriais no País cresceram 1,33% em abril, na comparação com março, e 17,92% em relação a abril de 2003.

Além dos aspectos macroeconômicos, contribuiu para o aumento das emissões de debêntures uma questão pontual, ligada ao setor de energia. Dentre as 12 empresas com ofertas atualmente em análise na CVM, quatro são elétricas. A explicação está em uma linha de crédito de R$ 3 bilhões aberta pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES, em outubro do ano passado. As distribuidoras que pleiteiam o financiamento precisam se adequar a uma série de exigências, entre elas o equacionamento de suas dívidas de curto prazo. E a saída escolhida por boa parte delas foi a rolagem das obrigações por meio de debêntures.

Perspectiva de alta do juro no exterior e reduções da Selic no mercado interno favoreceram as emissões

DIVERSIFICAÇÃO DE CARTEIRAS – Ao mesmo tempo em que as empresas brasileiras se sentem estimuladas a captar no mercado interno, aumenta a atenção dos gestores de fundos de investimento por seus papéis. “Passou-se a olhar para as debêntures como uma alternativa atraente de diversificação e rentabilidade”, diz Eduardo Castro, superintendente de renda fixa do ABN Amro Asset Management. Ele lembra que, antes de 2002, quando houve o episódio da marcação a mercado, título público era praticamente o único lastro das carteiras de renda fixa. Como não havia nenhuma crise visível, a volatilidade era baixa e os gestores se preocupavam apenas em alongar os prazos de vencimento dos papéis do governo, em busca de retornos maiores. “Hoje, quem não almeja rentabilidade tomando também risco de crédito, pode perder para a concorrência.”

Desde o fim de 2003, quando a remuneração dos títulos públicos deu os primeiros sinais de queda, gestores começaram a migrar para aplicações de maior risco dentro da renda fixa – entre elas as debêntures. “Os prêmios pagos pelos papéis privados se mostram bem interessantes”, concorda Mário Carvalho, vice-presidente sênior de fundos de investimento do Banco WestLB do Brasil. A desvalorização produziu impactos nos resultados de alguns fundos.

O WestLB Fix DI Triple A, por exemplo, cuja carteira pode ter até 70% de papéis privados, acumula, no ano, uma rentabilidade de 101,5% do CDI, enquanto o WestLB Fix DI, exclusivo de títulos do governo, rendeu 94% do CDI. Carvalho pretende ampliar a quantidade de debêntures do fundo WestLB Fix DI Triple A de 5% para 20% até o fim do ano. Para acompanhar o crescente interesse por investimentos em debêntures, outros bancos, como o Banif Investment Banking, já estão criando mesas específicas para a negociação desses títulos.

Alongamento de dívidas para captação de novos empréstimos no BNDES motivou ofertas das elétricas

Se a performance do mercado de debêntures marca uma retomada em 2004, ainda é cedo para se falar em aquecimento. “Em relação a 2002, quando o volume de emissões somou R$ 14 bilhões, 2003 foi um ano muito ruim”, afirma Atila Noaldo, superintendente do Banif Investment Banking. De fato, em 2003 foi registrado o pior volume de emissões em uma década. “Havia desconfiança em relação ao novo governo e muitas empresas preferiram adiar operações desse tipo”, recorda. Talvez no próximo ano, agora que as incertezas quanto à condução da política econômica estão mais brandas, possa-se falar em recorde.


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