Alicerce abalado

Saída de investidores, problemas com a Justiça e crise global balançam a estrutura da EZtec

Captação de recursos/Temas/Edição 62 / 1 de outubro de 2008
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Ela foi uma das últimas a se jogar nos braços do mercado de capitais. Seduzida por um ambiente de negócios extremamente atraente, com uma fértil demanda por imóveis e um futuro promissor, a família Zarzur vendeu parte da EZtec — empresa de construção e incorporação imobiliária — na bolsa de valores em junho de 2007. Trocou 33% do capital por R$ 542 milhões, que entraram direto no caixa da companhia e sustentariam, mais a frente, um plano de expansão. O papel saiu cotado a R$ 11, bem no meio da faixa de preço estipulada para o lançamento, entre R$ 9 e R$ 12. Bateu no pico de R$ 13,80, mas, na sexta-feira, 3 de outubro, fechou a R$ 2,38.

A trajetória descendente nos últimos meses fez com que a EZtec se tornasse destaque de baixa na seção Lente de Aumento. “Temos margens excelentes”, rebate João Pessoa, gerente de Relações com Investidores. “Enquanto o mercado possui uma margem líquida de 18%, a da EZtec é de 36%”, diz, com base nos balanços das 21 empresas do setor de construção civil listadas na Bovespa. O que aconteceu, então, para o papel despencar com tanta intensidade?

O executivo deixa claro que a EZtec não é uma empresa aventureira. Não se lançou, portanto, no mercado de ações simplesmente para surfar a onda das ofertas iniciais de ações (IPOs). O que aconteceu, segundo ele, foi uma inversão do cenário, sufocado pela crise internacional. Em agosto, os seus dois maiores acionistas bateram em retirada. Um deles, que detinha mais de 10% das ações, é o fundo norte-americano Gavião. O outro, europeu, não-revelado, detinha uma participação menor. “A saída deles (por meio da venda das ações na bolsa) acabou não refletindo os nossos bons resultados”, afirma.

O mercado, no entanto, não olha para a EZtec com os mesmos olhos. Embora seja tradicional no ramo e tenha uma história sólida, a companhia sentiu o golpe da má sorte em alguns de seus melhores projetos. Desde o fim do ano passado enfrenta problemas com o empreendimento de luxo Guaratuba Residence Resort, a ser construído no litoral paulista. O Ibama reclama da falta de licença ambiental. E a Justiça embargou a obra no começo do ano, alegando que o condomínio está localizado em área marinha e de preservação permanente. A zona costeira é considerada patrimônio nacional pela Constituição Federal. João Pessoa diz que a empresa está tentando contornar a situação. O terreno — comprado em leilão público — já abrigou o antigo Centro de Treinamento do Senai, construído na década de 90.

A EZtec também encarou uma dura batalha com o projeto Bandeirante, localizado no distrito de São Domingos, e que toca em parceria com a norte-americana Tishman Speyer, uma das maiores desenvolvedoras imobiliárias do mundo e proprietária de ícones urbanos como Rockefeller Center e Chrysler Building em Nova York. O projeto Bandeirantes contemplará 18 torres e um shopping center. O ponto da discórdia era que a área foi considerada de utilidade pública. Em março, porém, a pendenga foi resolvida. O projeto, discutido em audiência pública, será desenvolvido e, posteriormente, seguirá o processo junto à Prefeitura para aprovação.

Na tentativa de melhorar a performance da empresa e despejar sobre ela uma calda mais adocicada, a própria EZtec passou a recomprar suas ações no mercado. Em agosto, a empresa adquiriu 3,4 milhões de ações ao valor médio de R$ 3,51 por papel. Ao todo, já são 4,5 milhões de ações recompradas, com custo médio de R$ 3,72 cada. Mas, faça-se justiça, a EZtec não é a única do setor a amargar dias difíceis. A maior parte das construtoras que fizeram IPO está nadando nessa maré ruim. A desvalorização dos papéis tem sido superlativa.

O que se vê, agora, é um rearranjo no mercado. A concentração, por meio de fusões e aquisições, vem acontecendo nos últimos dois meses e será, a cada dia, mais inevitável. Até porque, como lembram os consultores da área, o mercado brasileiro não consegue contemplar tantas empresas de capital aberto. O país tem 21 companhias do setor listadas na Bovespa.

Na bolsa de apostas do mercado, a EZtec pode estar entre as que vão se fundir. Chega-se a falar que uma união com a Agra ou com a Even está a caminho. João Pessoa, imbuído do papel que lhe cabe, nega, dizendo que a empresa está em fase de recuperação e longe de fechar qualquer operação do gênero.


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