Agora sim, duas semanas de férias

Gilberto Mifano

Captação de recursos/Retrato/Temas/Edição 66 / 1 de fevereiro de 2009
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A crise asiática assustava o mundo e aquele prometia ser mais um dia de intensa volatilidade nos mercados emergentes. Para Gilberto Mifano, então superintendente da Bolsa de Valores de São Paulo, poderia ser o momento de testar um novo instrumento de controle, “importado” da Bolsa de Nova York e adaptado por ele à realidade brasileira. E assim foi. Naquele 28 de setembro de 1997, passava do meio dia quando a queda do índice Bovespa atingiu os 10% e os negócios foram paralisados por 30 minutos. “Percebemos o processo de realimentação negativa, que levava ao pânico”, explica Mifano. “A idéia era parar o jogo e mandar todo mundo esfriar a cabeça no vestiário.”

Dez anos e onze meses depois, quando o circuit breaker voltou a ser acionado após uma longa temporada de calmaria, Mifano teve de controlar a adrenalina e conter o impulso de empunhar o telefone. Na ampla sala que ocupa na sede da BM&FBovespa, o atual presidente do seu conselho de administração tinha de acompanhar à distância os fatos: a rejeição do congresso americano ao pacote de ajuda ao mercado financeiro, a repercussão da decisão, o aprofundamento da maior crise de todos os tempos. “Estou mais solitário”, observa. “Saí de uma rotina de quase 15 anos, em que era responsável pela bolsa. Não é que eu tenha saudades, mas, no início, fiquei deslocado. Minha boca estava torta do cachimbo de mandar, de fazer, de saber de tudo.”

A transição da vida executiva para a de conselheiro não costuma ser fácil para profissionais como Mifano, com uma história de dedicação intensa ao trabalho. Ele é daqueles que costumam levar a pecha de workaholic por parte de membros da família mais carentes de atenção. A seu favor, para enfrentar a nova fase, aos 59 anos, conta com duas vantagens. A primeira diz respeito ao tamanho de sua missão, que inclui a consolidação da integração entre as duas bolsas e o desafio de estabelecer uma nova rotina, partindo de culturas organizacionais que eram mais próximas de associações de classe do que de empresas de capital aberto.

“Tenho trabalhado na construção de uma nova governança para a bolsa”, conta ele. Para isso, Mifano vem liderando uma discussão sobre as práticas de funcionamento do conselho, regulamentos, atribuições dos membros, limites do seu presidente e do presidente executivo. A tarefa ganha ainda mais relevância quando se constata o alto nível dos conselheiros da BM&FBovespa. Além de Mifano, o conselho de administração é integrado por Ary Oswaldo Mattos Filho, Gustavo Franco, José Roberto Mendonça de Barros, Luiz Gonzaga Belluzzo, Craig Donohue, Julio de Siqueira Carvalho de Araújo, Manoel Felix Cintra Neto, Marcelo Trindade, René Marc Kern e Roberto Rodrigues.

A segunda vantagem de Mifano, em sua “segunda carreira”, é poder contar com uma característica que sempre o acompanhou, desde os tempos da rotina frenética de executivo: a visão estratégica. Mesmo antes de ingressar na Bovespa — quando trabalhou na Serasa e nos bancos Comind, Geral do Comércio e Sudameris —, ele já revelava seu talento para detectar tendências e abraçar inovações, especialmente tecnológicas. Entre suas ousadias na Bovespa, muitas delas polêmicas na época em que foram implantadas, estão o sistema eletrônico de negociação no pregão, o Home Broker, o Novo Mercado e a criação da Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia (CBLC). “Conseguia pensar nas estratégias e executá-las ao mesmo tempo, graças às pessoas com quem trabalhava.”

Agora, teoricamente, sobra mais tempo para o pensamento estratégico. Teoricamente. “Ainda não estou em voo de cruzeiro. Tenho uma agenda pesada, que herdei dos presidentes dos dois conselhos.” A rotina atribulada não impede que as ideias continuem pululando em sua mente. Como era antigamente. “A hora é de fazer a lição de casa, melhorar o que já é bom e pensar no futuro de forma disciplinada”, diz ele, sobre o atual momento do mercado de capitais. “Quando voltarem a aplicar, os investidores encontrarão no Brasil um país menos afetado que os outros, com ótimas empresas e um sistema financeiro exemplar, que não precisou mudar as regras do jogo”, acrescenta, depois de reconhecer que o “tombo foi para valer”.

A eclosão da crise financeira acabou coincidindo com o início de uma nova fase pessoal, marcada pelas primeiras férias de duas semanas “inteiras”, em agosto passado, depois de 14 anos. Nascido no Egito, Mifano mora em São Paulo desde os seis anos e conhece quase o mundo todo — a trabalho. Em uma de suas primeiras viagens sem a característica do “bate e volta”, e sem pressões de agenda, ele acabou indo parar justamente nos Estados Unidos, na Califórnia. “Claro que não consegui ficar muito desligado.” Mas, afinal, ele gosta de viajar? “Acho que sim. Vamos ver se agora, nessa minha ‘nova encarnação’, terei tempo”, diz ele, entre risos. Se depender da agenda repleta de planos, para a bolsa e para o mercado de capitais, as viagens exóticas e prolongadas devem ficar para a encarnação seguinte.

Rotina– Chega ao trabalho às 8h30 e sai às 20h, depois de passar o dia em reuniões e eventos. “Sou muito demandado, só falta ser chamado para batizado. Ainda não aprendi a dizer não.”Mania – De fazer a “lição de casa”. “Projetos precisam ser tocados sempre, independentemente de como está o mercado. Um dia aparece uma oportunidade e aquilo traz o retorno imaginado.”

Tecnologia – Adora. Foi um dos pioneiros no País da tecnologia Computer Output Microfiche, considerada revolucionária nos anos 70, por permitir a microfilmagem sem impressão de listagens. Introduziu todos os arquivos negativos da Serasa em computadores. “Sempre tive vocação tecnológica.” Ultimamente, anda impressionado com as notícias sobre transmissão de energia sem fio. “É fantástico.”

Uma vitória – A abertura de capital da Bovespa, antecedida por um roadshow que incluiu reuniões em três países em um mesmo dia. “Com o sucesso na colocação das ações, senti que todo o trabalho valeu a pena. Vou contar essa história para os meus netos”.

Saia-justa – Esquece com frequência o nome das pessoas, ou de onde as conhece. “Uma vez encontrei um conhecido que estava na mesma situação. Ficamos conversando, dando voltas, perguntando sobre ‘o pessoal’. Nenhum dos dois entregou os pontos.”

Dez anos atrás – Como superintendente da Bovespa, enfrentava os efeitos da desvalorização do real, no momento mais difícil de sua carreira. “Parecia que ia tudo por água abaixo.”

Daqui a dez anos – “Imagino usar a minha experiência para ajudar empresas, ou organizações, a se desenvolverem. O mercado de capitais estará sólido novamente, mas com mais juízo e menos ganância.”

Livros na cabeceira – Está lendo dois: “O homem que roubou Portugal — A história do maior golpe financeiro de todos os tempos”, de Murray Teigh Bloom, presente do economista Gustavo Franco, autor do prefácio; e “A lição final”, de Randy Pausch, baseado na última palestra de um professor americano com câncer terminal.

O que o tira do sério – Ver informação distorcida ou manipulada na imprensa. “Como não deve acontecer só com a gente, passei a desconfiar de tudo que leio por aí.”

Fontes de informação – Lê O Estado de S. Paulo em casa, ouve notícias na rádio Band News (enquanto faz a barba e no carro), folheia Valor e Gazeta Mercantil quando chega ao trabalho, e ainda passa os olhos no clipping.

E-mail – “Sou crackberry (viciado em smartphone) e estou tentando parar de responder e-mails imediatamente. O outro responde de volta, e aí não acaba mais.”

Lazer – Gosta de séries americanas policiais, como “CSI” e “Criminal Mind”, ou cômicas, como “Two and a half man”. “Em meia hora, você já desopilou o fígado.”

Para relaxar – Faz consertos domésticos, na casa de praia no litoral paulista, ou ajustes na motocicleta, usada apenas dentro do condomínio. “Conserto as coisas que eu mesmo quebro.”

Cuidado com a saúde – Controla a alimentação e o peso. “Perdi 20 quilos durante o IPO da Bovespa, porque não tinha tempo de almoçar e jantar.”

Que outra profissão teria – Antes da faculdade de administração, na FGV, pensou em fazer arquitetura. “Meu pai era engenheiro e vivi a minha infância em meio a linhas de produção. Sempre senti falta de trabalhar com coisas concretas, e não só com idéias.”




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