Ações voltam à cena

Natura, CCR e Eternit comprovam interesse em ter investidores como parceiros de longo prazo

Captação de recursos / Edição 10 / Temas / Reportagem / 1 de junho de 2004
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Maio foi um mês pouco usual para o mercado de ações brasileiro. Como há muito não se via, um grupo de companhias resolveu provar publicamente o interesse em ter investidores como aliados na sua trajetória de longo prazo. Interesse esse que, em cada caso, se revelou de forma distinta e a partir de projetos individuais de desenvolvimento. Mas, em todas eles, atribuiu ao mercado de ações um papel estudado em detalhes e estrategicamente desenhado.

A Natura, uma das maiores fabricantes nacionais de cosméticos e produtos de higiene e perfumaria, a Companhia de Concessões Rodoviárias (CCR), maior operadora de rodovias da América Latina, e a Eternit, líder nacional na fabricação de telhas e caixas d´água, entraram em cena no último mês para mostrar esse compromisso. No caso da Natura, que estrelou a primeira abertura de capital desde 2001, vez em que a CCR tinha feito a sua, acionistas venderam 21% do capital a cerca de 5 mil novos investidores e transformaram-na em uma empresa aberta, com ações listadas na Bolsa. Realizaram assim uma idéia concebida desde 1997, não com o intuito de captar recursos novos, mas de ter no mercado de ações uma garantia de institucionalização e perenidade da companhia. “Queremos ser uma empresa pública para mostrar a todos a cultura de transparência e responsabilidade social que desenvolvemos internamente”, disse Guilherme Leal, co-presidente do conselho de administração em coletiva à imprensa no dia do lançamento das ações.

As aptidões do mercado de ações para conferir um selo de transparência e responsabilidade à companhia – espécie de sub-produto a sua função original de provedor de recursos – estão também no radar da Eternit. Empresa de capital aberto há algumas décadas, ela realiza neste início de junho uma assembléia para aprovar a conversão de todas as suas ações em ordinárias e a listagem no Novo Mercado da Bovespa. Nos planos de Elio Martins, presidente da companhia, o segmento especial da Bolsa é parte relevante de uma estratégia de comunicação voltada a reverter a imagem negativa da sociedade em relação à aplicação do amianto no processo de fabricação da companhia. Utilizada sem controles da legislação até a década de 80 no Brasil e no mundo, a fibra altamente danosa aos pulmões quando inalada é, ao mesmo tempo, a matéria-prima valiosa que permite à Eternit produzir materiais baratos e resistentes e o calcanhar-de-aquiles que lhe confere processos judiciais de toda procedência por indenizações contra prejuízos, muitos deles não comprovados, à saúde de seus funcionários e usuários dos produtos.

No caso da CCR, que já pertencia ao Novo Mercado da Bovespa e fez mais um lançamento de ações, o mercado acionário cumpriu sua função mais usual. E respondeu com simpatia à tarefa. A companhia captou R$ 375 milhões com o lançamento de novas ações para investimentos em sua expansão, a partir de uma demanda que ultrapassou em mais de cinco vezes a oferta. “Queremos ter os investidores como aliados do nosso crescimento”, disse Renato Alves Vale, diretor- presidente da CCR, que prevê investimentos de R$ 2 bilhões nos próximos cinco anos nas três novas concessões que pretende acrescentar aos lotes sob operação da companhia ainda em 2004.

CADEIA DE RELAÇÕES – As intenções da Natura ao desembarcar no mercado de ações – totalmente dissociadas de uma capitalização no curto prazo, garantem seus sócios – foram apenas uma parte da originalidade da companhia em sua estréia na Bolsa. Na comemoração de abertura dos negócios no pregão, a decoração dava a dica de que a empresa fazia questão de ser diferente. Em espaço especialmente montado no salão do pregão, profissionais equipadas com poltronas apropriadas para massagem aguardavam os candidatos a entrar no “clima Natura”. Folhas secas espalhadas no chão davam o recado do compromisso da companhia com o respeito ao meio ambiente.

Na coletiva à imprensa após a abertura do pregão, a primeira meia-hora foi dedicada ao discurso filosófico de seu fundador, Luiz Seabra. Diante de uma nova dinâmica de relacionamento a ser encarada pela Natura, desta vez voltada a milhares de acionistas, Seabra contou da sua experiência ao constatar que “a vida é uma cadeia de relações perpetuamente estabelecidas” e que as cadeias sólidas de relacionamento foram a base para o crescimento da Natura ao longo de sua trajetória.

De fato, a companhia procurou reproduzir no mercado acionário o cuidado aplicado a suas outras esferas de relacionamento. Deu a largada no Novo Mercado, segmento que exige plena transparência das companhias e confere tratamento igualitário a todos os acionistas. Teve êxito na colocação das ações, que levou a mercado apenas as participações de seus fundadores. A demanda superou em dez vezes a oferta, que totalizou R$ 678 milhões e pulverizou 21,75% do capital no mercado. Quando encerrado o período de venda do lote adicional oferecido pelos bancos coordenadores (green shoe) e convertida a dívida do BNDES em capital, esse percentual poderá chegar a mais de 25%.

Cerca de 4,8 mil pessoas físicas ficaram com 17% da oferta, que contou com expressiva força de venda nos bancos de varejo e corretoras. “Foi um bom resultado se considerada a queda do mercado acionário este ano”, comentou Leal. Do restante adquirido por investidores institucionais, a parte mais expressiva, 70%, ficou com os estrangeiros, que continuaram mostrando apetite por papéis privados de países emergentes com garantias de tratamento justo aos investidores e preços atrativos em relação aos players do setor no mercado internacional.

Em relação à postura de relacionamento com acionistas minoritários, a Natura declara ter vindo disposta a adotá-la sem restrições. “Fizemos as contas do quanto perderíamos em potencial de alavancagem abrindo mão das ações preferenciais, mas concluímos que valia a pena ter apenas papéis com direito a voto”, afirmou Leal. Também não preocuparam os acionistas, segundo ele, a obrigatoriedade de garantir uma oferta pública aos minoritários em caso de venda do controle (tag along) ou de aderir à câmara de arbitragem da Bovespa para solução de conflitos societários. “O setor de cosméticos não tem a tradição de crescer via aquisições. Além do mais, desenvolvemos a cultura de lidar com acionistas minoritários dentro da empresa”, contou Leal, referindo-se aos percentuais de ações detidos por dois ex-diretores da companhia que, antes da oferta, compartilhavam o capital da Natura com os sócios fundadores majoritários.

Além dos padrões exigidos pelo Novo Mercado, a empresa traz uma estrutura de governança corporativa alinhada às boas práticas. Dos cinco membros que hoje compõem o conselho de administração, dois são independentes. Segundo Leal, a idéia é trazer mais dois conselheiros, desta vez representantes dos acionistas minoritários. A Natura também conta com um agressivo programa de remuneração variável oferecido a todos os colaboradores, vinculado aos resultados econômicos e sócio-ambientais, e um programa de opções de ações, no qual se incluem hoje cerca de 35 executivos da alta administração.

Os sócios-fundadores da Natura não consideram a hipótese de ter o controle disperso no mercado. “Queremos ficar com a empresa. Nós nos divertimos tocando esse negócio”, afirmou Leal. Para afastar “penetras” indesejados que tentem assumir participações relevantes na companhia através da Bolsa, eles cuidaram de estabelecer uma cláusula usualmente chamada no mercado de “poison pill”. Se houver uma tentativa de aquisição superior a 15% do capital, será obrigatória uma oferta de compra a todos os acionistas por preço equivalente a 18 vezes a geração operacional de caixa da companhia. Sócios estratégicos também não estão nos planos dos controladores da Natura. “Todos eles querem contrato de gaveta para compra de controle. Não nos interessa.”

PRIORIDADE É O MERCADO LOCAL – As ofertas de ações da Natura e da CCR tiveram diversos aspectos comuns. Ambas contaram com elevada participação de estrangeiros nas aquisições dos papéis (na CCR esse percentual chegou a 70% do total do volume ofertado) e fizeram um esforço especial para pulverizar a base de acionistas. A CCR, que também contou com um pool de corretoras para lançar os papéis ao varejo, dispensou grandes ofertas e usou a prerrogativa da regulamentação CVM para lançar um adicional de 20% e atender a praticamente todos os pedidos. “Chegamos a ter dois fundos estrangeiros que, sozinhos, fizeram ofertas para levar as ações. Mas nós tínhamos um propósito firme de pulverizar o capital”, conta o presidente da CCR, que conseguiu elevar de 15% para 28,8% o capital em circulação da companhia e sair de uma base de 800 para 2.000 investidores.

Também nos moldes da Natura, a CCR fez a oferta de ações aos estrangeiros, mas preferiu concentrar o mercado secundário na bolsa paulista. Nos Estados Unidos, os papéis foram lançados através da norma 144-A, que restringe a compra a investidores qualificados e permite que os papéis fiquem fora da bolsa. “Não queríamos diluir a liquidez entre os dois mercados”, conta Vale.

A política de relacionamento da CCR com os novos investidores também tem uma conotação especial. Mesmo precisando de recursos para fazer face aos investimentos em novas concessões, motivo que levou à captação, a CCR quis garantir uma política de dividendos equivalente a 50% do lucro líquido. “Acreditamos que o acionista precisa colocar o dinheiro no bolso com certa regularidade”, conta Vale. Num mês de continuada queda na bolsa e de mais um freio na redução dos juros, Natura e CCR garantiram alguns momentos de alegria para o mercado de ações.

Eternit vai ao Novo Mercado em busca de ganhos de imagem e valorização das ações

Depois da Natura, o Novo Mercado está prestes a incorporar a Eternit, empresa antiga nos quadros do pregão que busca no segmento especial de listagem um caminho para associar sua imagem aos conceitos de transparência e boa governança corporativa. A iniciativa também é vista pela companhia como uma oportunidade de valorizar suas ações, hoje limitadas a uma negociação média de R$ 580 mil ao dia e com preços ao redor de R$ 270.

Obstinada por reverter os danos provocados pelo amianto à saúde de seus funcionários no passado e à imagem da companhia, a Eternit busca no Novo Mercado um selo de qualidade para comprovar sua disposição em dar transparência à questão. “Fizemos pesquisas no exterior sobre os verdadeiros efeitos do amianto no organismo, temos fábricas totalmente seguras para nossos funcionários e fazemos muito mais do que o necessário para atender a legislação no Brasil sobre o uso da fibra. Não temos nada a esconder”, afirma Elio Martins, presidente da empresa. Quando inalado, o amianto provoca desde cicatrizes no pulmão até tumores que podem se transformar em câncer.

A companhia não revelou o número de processos judiciais que enfrenta hoje por pedidos de indenização, mas garante que nenhuma das ações transitadas em julgado deram ganho de causa ao reclamante. “Desafiamos as pessoas a comprovarem o número dos mortos. Nós não sabemos onde eles estão”, afirma Martins, rebatendo as críticas de organizações não-governamentais determinadas a impedir o uso do amianto que apontam o número de 2,5 mil pessoas no Brasil com doenças pulmonares provocadas pelo contato com o material.

A Eternit chegou a investir na mesma tecnologia utilizada hoje nos países desenvolvidos para fabricação de telhas, uma fibra desenvolvida no Japão à base de petróleo que substitui o amianto. A experiência, contudo, elevou o preço do produto final em 50%, o que inviabilizou sua comercialização no Brasil. Testada e descartada a alternativa, a Eternit concluiu que o amianto é mesmo a matéria-prima certa para o bolso da população consumidora de seus produtos no Brasil e que o jeito é continuar convivendo com ela, de preferência de forma menos penosa. No final do ano passado, quem não queria o amianto deixou a companhia. Brasilit e Amindus, dois sócios estrangeiros, venderam suas ações na Bolsa após uma decisão das matrizes de eliminar o uso do amianto nas fábricas de todo o mundo.

CASO RARO – Se aprovada a decisão em assembléia de acionistas dia 3 de junho, a Eternit entra no Novo Mercado com uma composição de capital totalmente peculiar para o mercado brasileiro. É formada por uma base de acionistas completamente dispersa, na qual o principal deles, a Centrus, possui 14,31% das ordinárias. O BNDES, segundo maior, tem 8,4% das ações com direito a voto. Entre os preferencialistas, que ocupam um terço do capital, a Bahema é a principal acionista, com 31,3%. Com a venda das ações dos estrangeiros no ano passado, a companhia passou de 800 para 1.500 acionistas, dos quais 1.100 são pessoas físicas.

Sem a figura de um acionista controlador, a Eternit promete estar livre de restrições para conversão de PNs em ONs, típico impasse de quando existe o controle. Também não ameaça com possibilidades de fechamento de capital, dado que nenhum bloco de acionistas seria potencial candidato a arcar com os seus custos. A Eternit é famosa no mercado de ações por seu elevado nível de distribuição de dividendos. Forte geradora de caixa, com uma atividade madura e sem necessidade de investimentos expressivos em sua expansão, ela tem hoje a mesma política de distribuição de lucros para ações ON e PN. Já está se estruturando para ser uma empresa de padrão Novo Mercado, o que inclui a contratação de profissionais de relações com investidores e o planejamento de reuniões com analistas e conferências telefônicas para divulgação de resultados.

Ao procurar no mercado de ações a visibilidade necessária para reverter a imagem do seu negócio, a Eternit sabe que faz uma aposta de risco. Em sua atribuição de propagar informações sobre a companhia, analistas e investidores podem servir para o bem ou para o mal. Mas Martins garante que a empresa está preparada e que tem tudo para se sair bem. O mercado será um ótimo teste.


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