Ações em engorda

Minerva sobe quase 100% em 2012, e analistas acreditam que ainda há espaço para mais

Captação de recursos/Temas/Edição 109 / 1 de setembro de 2012
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Analista do Deutsche Bank, Rebeca Sanchez já ajudou milhares de acionistas a realizar lucros se desfazendo dos papéis no momento certo. Para ela, de um modo geral, quando uma ação atinge 40% de alta em menos de um ano é a hora de vender. No caso dos papéis do frigorífico Minerva, porém, Rebeca resolveu fazer uma concessão: apesar da valorização de 98% em 2012, recomenda compra. “As perspectivas de médio e longo prazo são boas”, explica. As ações ordinárias BEEF3, que iniciaram janeiro valendo pouco mais de cinco reais, chegaram ao meio de agosto negociadas pelo dobro do preço. Na projeção da analista, até o fim do ano, os papéis da Minerva estarão cotados a mais de R$ 13.

A impressionante valorização se deve, basicamente, a dois fatores: custos em queda e receitas em alta. Os dez centros de abate da companhia, espalhados por oito estados brasileiros, e as plantas no Uruguai e Paraguai dispõem de insumo farto a preço baixo — um cenário que não deve mudar no médio prazo, avalia Alexandre Miguel, analista do Itaú. Ele estima que o valor da arroba do boi vivo, principal matéria-prima da Minerva, deverá subir, ao longo dos próximos quatro anos, em ritmo inferior ao da inflação, beneficiando o frigorífico. “A oferta de gado apresenta taxas sólidas de crescimento e avança mais que a demanda, apontando um cenário de preços estáveis para a compra de gado vivo”, observa.

Se os custos estão em retração, as receitas sobem há sete trimestres seguidos. A tendência foi confirmada no balanço apresentado pela companhia no início de agosto. De abril a junho deste ano, a Minerva registrou faturamento bruto de R$ 1,14 bilhão, alta de 13,4% sobre o trimestre imediatamente anterior, e de 12,4% em comparação a igual período de 2011. Rebeca atribui o aumento, sobretudo, à taxa de câmbio favorável em 2012. “Embora a Minerva tenha ganhado 1,5 ponto percentual de participação de mercado nas exportações brasileiras de carne in natura, a principal razão para o avanço do faturamento é a desvalorização do real no primeiro semestre do ano, que ampliou as receitas obtidas em dólar”, diz. De janeiro para cá, o dólar comercial acumula alta superior a 8%, impulsionando os resultados da Minerva, que sozinha responde por 22,3% das exportações brasileiras de carne.

Essa lua de mel do frigorífico com o mercado vai se prolongar ainda por um bom tempo, na visão de Fernando Galleti de Queiroz, presidente da companhia. Segundo ele, o segmento de proteína animal vive um ciclo positivo que deve durar, ao menos, quatro anos. “A produção pecuária segue em alta, com fortes ganhos de produtividade no campo e de escala na logística de transporte, abate e embalagem da carne processada. Ao mesmo tempo, o Brasil tem sido habilidoso em abrir novos mercados para a proteína animal brasileira no Oriente Médio, Norte da África e na Rússia”, avalia Queiroz.

Mesmo fatores difíceis de controlar, como o desempenho dos concorrentes canadenses e americanos, acabaram jogando a favor da Minerva. De acordo com Queiroz, os produtores da América do Norte fazem uso intensivo de grãos, como a soja e o milho, na dieta bovina. Safras desastrosas dessas duas commodities fizeram os preços desses alimentos subirem às alturas, impactando os custos dos exportadores desses países. Na Bolsa de Chicago, na qual são negociados contratos de soja e milho, o valor da saca de 60 quilos desses grãos ultrapassou, em julho, o recorde histórico de US$ 17,3 e US$ 17,5, respectivamente — altas de 34% e 36%.

E não foi só na comparação com os concorrentes externos que a Minerva se deu bem. Hoje, a companhia compete, no Brasil, com JBS-Friboi e Marfrig. A diferença é que, enquanto a Minerva trabalha exclusivamente com carne de boi (animal que, aqui, se alimenta basicamente de ração folhosa), seus concorrentes dividem as operações de proteína animal entre bovinos, porcos e aves. Estes últimos dois animais se alimentam de grãos, o que colocou a Friboi e a Marfrig na mesma canoa dos produtores americanos, em polvorosa com os preços ascendentes da soja e do milho. “Estamos posicionados no segmento mais eficiente do mercado de proteína”, ressalta Queiroz.

Apesar de todos esses fatores favoráveis, há dois trimestres a última linha do balanço tem deixado a desejar. No primeiro semestre deste ano, a empresa contabilizou prejuízo de R$ 196 milhões, justificado pela rolagem de dívidas contraídas, em grande parte, no exterior e indexadas ao dólar. As perdas, conforme Queiroz, eram previsíveis e serão compensadas com a expansão da infraestrutura da companhia, que ergueu três novos centros de distribuição nos últimos 12 meses, atingindo o total de 11 centros de refrigeração e distribuição na América do Sul. O último balanço da companhia aponta que passivos com vencimento este ano foram rolados para 2019 e 2022, o que deixa no longo prazo 88% do R$ 1,58 bilhão de endividamento. “A alavancagem da Minerva não é desprezível, e esse, sem dúvida, será um ponto de atenção para os analistas”, observa Rebeca. “A relação entre a dívida líquida e o Ebitda, de 3,99 vezes, e o perfil alongado dos vencimentos, no entanto, torna o peso desses passivos suportável”, acrescenta. Ao que tudo indica, assim como os bois dos armazéns, os papéis de quem investiu na Minerva têm bons prognósticos para continuar engordando.




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