A fé de um diplomata – Nelson Carvalho

Nelson Carvalho assegura que o mundo ainda terá um modelo único de contabilidade

Contabilidade e Auditoria/Bimestral/Papo Aberto/Temas/Edição 84 / 1 de agosto de 2010
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É com um humor pontual e inteligente que o professor Nelson Carvalho, um dos maiores especialistas em contabilidade do Brasil, expressa suas crenças: “Sou um otimista e um romântico incorrigível”, diz, referindo-se à até pouco tempo impensável convergência de Estados Unidos e Europa para uma única norma contábil e ao seu casamento de 32 anos — “com a mesma mulher”, ressalta (“e se tivesse a oportunidade, casaria com ela de novo!”). Representante brasileiro no Financial Crisis Advisory Group (FCAG), um time de duas dezenas de craques constituído para entender o papel da divulgação dos resultados financeiros na crise de crédito de 2008, Carvalho não esconde o deleite de ver a contabilidade inserida na agenda das relações internacionais. “Ministros das finanças das maiores economias do mundo discutindo contabilidade por cinco horas? Há dez anos, era só PIB, inflação e comércio internacional.”

A crise financeira, de fato, deu um empurrão e tanto para transformar a arrastada convergência contábil em prioridade. O padrão único universal de reportar resultados foi uma das soluções emergenciais propostas pelo FCAG ao G-20 (grupo formado pelos ministros das finanças e presidentes dos bancos centrais das 19 maiores economias do mundo, mais a União Europeia), no início do ano. O intuito é reduzir as falhas de informação que contribuíram para a turbulência de 2008. Isso significa fazer o norte-americano Financial Accounting Standards Board (o Fasb) e o europeu International Accounting Standards Board (Iasb) — concebido no Reino Unido, com aspirações de ganhar o mundo — entrarem num acordo sobre um padrão de contabilidade global. Um desafio de proporções razoáveis se consideradas as diferenças históricas dos dois boards (o primeiro mergulhado há décadas em um modelo baseado em regras; o segundo, muito mais afeito a princípios no lugar de normas) e as questões políticas envolvidas. “Em sociologia, informação é poder. É claro que os americanos preferiam que o US Gaap fosse o padrão internacional”, alfineta Carvalho.

Mas a história levou-os a ter de engolir esse sapo. A quebra da Enron, em 2001, ratificou as suspeitas de que o modelo excessivamente detalhado do US Gaap gerava flancos perigosos. O professor exemplifica o problema: “A regra americana dizia que não era preciso consolidar os resultados das sociedades de propósito específico (SPE) em que a empresa tivesse participação de menos de 3%. O que a Enron fez? Criou 998 SPEs com menos de 3%, encheu-lhes de dívida, colocou esse dinheiro na Enron e deixou as SPEs fora do balanço consolidado. Tudo por causa de um maldito 3%. Com tantas regras, o contador não precisa pensar…” Além de ver a sua contabilidade ser violentamente criticada, os norte-americanos assistiram ao desgaste da hegemonia do seu mercado de capitais, que agora disputa espaço com as praças de Londres e de Hong Kong e ainda concorre com as fortalecidas bolsas domésticas de outros países emergentes. Por fim, lembra Carvalho, as multinacionais com sede nos Estados Unidos engrossaram o coro da convergência para o IFRS, porque adoraram a ideia de ter uma contabilidade só para preparar.

Sob a pressão do G-20, Iasb e Fasb aceleram o passo para cumprir a meta imposta por eles mesmos para conclusão da unificação — junho de 2011. No último dia 24 de junho, porém, logo após a conferência do grupo dos 20 em Toronto, no Canadá, pediram uma trégua: mantiveram o fim do primeiro semestre do ano que vem para a convergência dos pontos considerados mais urgentes (reconhecimento de receitas, instrumentos financeiros e valor justo) e prorrogaram as questões consideradas menos prioritárias para o fim de 2011. Carvalho não acredita em nenhum desses dois prazos. “As restrições legais, as implicações políticas e as adaptações de sistemas que serão necessárias devem atrapalhar essa previsão”, afirma. “Na minha opinião, a melhor estimativa feita até agora é 2015.”

Carvalho desbravou os caminhos para a representação do Brasil no principal centro internacional de contabilidade

O tema do valor justo, lembra o professor, representa uma das desavenças entre Fasb e Iasb postas na mesa. Enquanto o norte-americano quer que todos os ativos de um banco (empréstimos, títulos e valores mobiliários) sejam marcados a mercado, a fim de que se tenha total transparência sobre a volatilidade dos preços, o Iasb é mais tolerante quando o ativo em questão for um crédito. Nesse caso, defende o órgão, o mais adequado seria precificar somente pelo chamado custo amortizado (o valor da curva do papel). Um comunicado sobre o valor justo foi emitido por Fasb e Iasb no dia 29 de junho, apresentando uma nova proposta para uniformização da métrica e do disclosure dos ativos financeiros. A discordância no ponto do crédito, contudo, permanece.

A diplomacia delicada do processo de convergência fica um tanto disfarçada nos momentos em que se trata de tecnicalidades como “o jeito certo de apurar o valor justo”, mas explícita quando está em pauta a eleição de um novo líder. O segundo mandato de cinco anos do inglês Sir David Tweedie, que presidia o comitê de normas contábeis do Reino Unido quando foi escalado para presidir o Iasb, em 2001, termina em junho do ano que vem e já vem causando burburinho. Nos bastidores, sabe-se que os Estados Unidos não vão aceitar um europeu e que estes tampouco querem um norte-americano. O Japão, por sua vez, não admite nenhum dos dois. “Um headhunter já foi contratado para procurar o sucessor no Canadá, na África do Sul, na Austrália…”, conta Carvalho. E no Brasil, professor? “Aqui também”.

ASCENSÃO VERDE-AMARELA — A representação que o Brasil conquistou no Iasb é motivo de orgulho para Carvalho. O ex-ministro da fazenda Pedro Malan é hoje um dos trustees do órgão (e está lá apesar da sua resistência inicial, por receio de sobrelotar a agenda, e graças à lábia insistente de Carvalho e de Roberto Teixeira da Costa, antecessor de Malan como trustee, para que aceitasse o posto). Há também Amaro Gomes, ex-chefe do departamento de normas do sistema financeiro do Banco Central e primeiro brasileiro no board no Iasb; Geraldo Toffanello (diretor da Gerdau) e Alexsandro Broedel (diretor da Comissão de Valores Mobiliários), ambos participantes do Standards Advisory Council (SAC), um grupo técnico de suporte ao board que foi liderado por Carvalho entre 2005 e 2008; dois brasileiros que moram em Londres e trabalham na equipe administrativa do Iasb e o próprio professor, como participante do FCAG. “Sete pessoas ao todo, é incrível”, diz ele, espantando-se com a própria conclusão e já revelando que costura o ingresso de mais um brasileiro no board do Iasb — hoje com 16 vagas, uma delas em aberto. “Quando entrei para o Iasc, só faltava me perguntarem se tinha cobra nas ruas do Rio de Janeiro”, recorda.

Carvalho foi um dos primeiros a desbravar os caminhos para a representação do Brasil no principal centro internacional de contabilidade. O ano era 1996, o Iasb ainda se chamava Iasc (com um “c”de committee ao final que, em 2001, seria substituído por um “b” para marcar a mudança nas funções do board, que passava a atuar em tempo integral), e um fax havia chegado ao Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef) de São Paulo, onde Carvalho era diretor técnico. O remetente era o Iafei (órgão internacional dos institutos de executivos de finanças), que comunicava a recente vaga conquistada como membro votante no Iasc e a seleção de três executivos para representá-lo no órgão. Prontamente, Carvalho se apresentou como candidato. E foi escolhido. “Não tinha quem pagasse os custos da viagem para mim, foi tudo do meu bolso”, lembra, calculando ter gasto uns US$ 70 mil nos dois primeiros anos da empreitada.

O interesse por ingressar nas discussões internacionais tinha brotado alguns anos antes, em 1990. Ele era diretor da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e havia sido chamado para participar das reuniões do International Standards of Accounting and Reporting (Isar), um grupo de trabalho intergovernamental formado pela Unctad, da ONU, para promover o fluxo de investimentos entre países a partir de corporações mais transparentes. “Desde então, vou todos os anos para a conferência do Isar”, conta. O próximo evento do grupo será em outubro, e Carvalho foi escalado para conduzir as discussões sobre uma nova proposta de atuação do Isar. “O papel deles agora é capacitar os profissionais de países em desenvolvimento para implementar o IFRS”, comenta. “Já praticamente os convenci disso.”

O networking desenvolvido lá fora durante esses anos lhe rende até hoje uma sobrecarregada agenda de viagens. Em média, ele toma sete ou oito voos partindo de São Paulo para algum lugar no planeta por ano. “Eu gosto do que faço e, por enquanto, estou disposto a pagar esse preço”, justifica, reconhecendo que a relação custo versus benefício de tantos deslocamentos é onerosa, mas positiva. Para complementar, desde maio do ano passado, ele integra o conselho de administração do XBRL International, uma organização norte-americana sem fins lucrativos sediada em Washington e voltada a promover a digitalização dos relatórios financeiros conforme a taxonomia criada pelo XBRL. A tudo isso Carvalho soma a atuação como pesquisador e diretor da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi) e a presença nos conselhos de administração do Banco Fibra e da Vicunha Têxtil e no comitê de auditoria da BM&FBovespa — além da confecção de pareceres técnicos vez ou outra.

Sua vida profissional atual reflete uma escolha feita em 1993, quando ele terminou um período de cerca de três anos dedicados ao setor público (entre 1990 e 1991 na CVM, e entre 1991 e 1993 como diretor do Banco Central). “Naquela época, decidi que não queria ter nem patrão, nem sócio, nem custo fixo”, conta, sem perder a chance de deixar escapar a piada que a esposa faz sobre esse bordão (“um dia ela me chamou e disse ‘vamos passar a limpo essa história aí: você não paga a mesada dos nossos filhos? Então tem custo fixo. Você não paga imposto de renda? Então tem sócio. E sobre esse negócio de não ter patrão, o que você acha que eu estou fazendo aqui?’”).

Carvalho gosta tanto da vida “supostamente” livre desses três elementos que prefere nem falar do que fará daqui a seis anos, aos 70, quando terá de se aposentar obrigatoriamente na Fipecafi. Já até aventa a possibilidade de fazer como um grande amigo seu, que prefere continuar dando aulas, mesmo de graça. “Eu decidi duas coisas: primeiro, não vou me aposentar. Segundo, vou trabalhar, no máximo, até três anos depois de morrer.
No máximo!”.




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