À espera de um reconhecimento

Suzano guarda seus créditos de carbono na esperança de que o Protocolo de Kyoto valide os certificados provenientes de reflorestamento

Especial/Governança Corporativa/Reportagem/Sustentabilidade – Coletânea de Casos/Temas / 1 de abril de 2011
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Presente em mais de 80 países, a Suzano é a segunda maior produtora de celulose de eucalipto do mundo. Sua ligação com o mercado de crédito de carbono vem de longa data. Em 2004, quando o tema ainda era pouco discutido, a companhia credenciou-se à Chicago Climate Exchange (CCX), utilizada por empresas interessadas em criar um mercado de negociação de carbono próprio e alternativo ao Protocolo de Kyoto. Desde o ano passado, no entanto, a Suzano mantém os seus certificados de crédito de carbono guardados. A explicação está no debate sem definição acerca da legitimidade dos créditos oriundos de projetos de reflorestamento.

O Conselho Executivo do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo do Protocolo de Kyoto, responsável por certificar os projetos em conformidade com os critérios estabelecidos pelo acordo ambiental de 1997, não reconhece os créditos gerados a partir de práticas de reflorestamento. Para o órgão, apenas projetos que resultem na redução de emissões de poluentes — diferentemente dos projetos de reflorestamento, que “apenas” sequestram carbono — são passíveis de receber sua chancela. Sem isso, as produtoras de papel só podem negociar seus créditos no mercado de carbono voluntário, como o CCX. Ele abrange todas as negociações de créditos de carbono e neutralizações de emissões de gases do efeito estufa realizadas por empresas que não possuem metas sob o Protocolo de Kyoto.

A Suzano chegou a comercializar seus créditos de carbono no mercado voluntário até 2009, mas se desanimou com o baixo preço. Na Chicago Climate Exchange, um crédito de carbono estava cotado a cinco centavos de dólar no fim de março. No mesmo período, o crédito de carbono gerado a partir dos critérios de Kyoto era vendido a € 13,01 na European Climate Exchange. Se os créditos gerados em 2009 fossem vendidos no mercado voluntário hoje, apenas US$ 215 mil iriam para o caixa da empresa, ao passo que a venda feita na Bolsa Europeia renderia mais de € 55 milhões.

Os créditos gerados conforme os preceitos do protocolo possuem processos de validação e certificação mais rígidos que os do mercado voluntário. Como este último não segue uma metodologia unificada de certificação, muitas dúvidas são levantadas quanto a sua confiabilidade, o que acaba se refletindo no descompasso entre as cotações dos dois mercados.

A Suzano foi a primeira do setor de papel e celulose no mundo a realizar um levantamento da “pegada de carbono”

Em 2009, as árvores replantadas pela Suzano sequestraram 4,3 milhões de toneladas de carbono, contra um milhão de toneladas emitidas pelas suas cinco unidades fabris. Como cada tonelada de carbono neutralizada corresponde a um crédito de carbono, foram emitidos 4,3 milhões de certificados. Naquele ano, a companhia plantou 73 milhões de mudas de eucalipto em áreas próprias — uma média de 346 mil mudas por dia —, em investimentos que totalizaram R$ 1,89 milhão. “Isso significa que a empresa poderia quadruplicar de tamanho, e, ainda assim, as emissões de gases estufa seriam neutralizadas”, orgulha-se Alexandre Di Ciero, gerente executivo de sustentabilidade.

A Suzano, ao lado de todo o setor de papel e celulose, vem travando uma batalha acirrada na Organização das Nações Unidas (ONU) para obter o reconhecimento das florestas plantadas como meio de geração de créditos de carbono. Enquanto a chancela do órgão internacional não chega, a companhia paulista segue seus passos visando sempre a evoluir no quesito sustentabilidade. “A proposta de sustentabilidade da Suzano vai muito além dos créditos de carbono”, ressalta Di Ciero. Desde 2007, a empresa responde ao questionário do Carbon Disclosure Project, que busca diagnosticar as iniciativas adotadas por organizações em todo o mundo relacionadas com mudanças climáticas.

O executivo observa ainda que a companhia foi a primeira do setor de papel e celulose no mundo a realizar um levantamento da sua “pegada de carbono”, o que lhe rendeu a certificação do Carbon Trust, entidade britânica tida como referência mundial. O rastreamento, que passou a ser adotado na empresa em 2010, engloba a medição dos gases ao longo de todo o ciclo de vida de um produto, ou seja, desde a produção e distribuição da matéria-prima, passando pela produção e distribuição do produto propriamente dito, até a venda e o uso e seu descarte final. O processo é certificado pelo Publicly Available Specification 2050 (PAS 2050), principal metodologia para o cálculo de emissões de todo o ciclo de vida de produtos, elaborada pelo British Standards Institute. Grandes nomes como Coca-Cola, PepsiCo, Danone, Kimberly-Clark e Tesco, o maior varejista do Reino Unido, também medem sua “pegada de carbono”.

A maior parte das companhias realiza um inventário de emissões, mais limitado, que não abrange as etapas de venda, uso e disposição final. Hoje, a Suzano possui quatro produtos com a pegada de carbono. “Esse processo proporciona uma medição muito mais fiel do impacto de nossos produtos no meio ambiente”, diz o executivo.


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