A “culpa” é da concorrência

Fim da exclusividade de bandeiras pressiona margens e derruba ações da Redecard

Bimestral / Captação de recursos / Temas / Edição 90 / 1 de fevereiro de 2011
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Só no ano passado, foram criados 2,5 milhões de empregos com carteira assinada — um recorde, segundo o Ministério do Trabalho. A soma desse número com o crescimento da renda do trabalhador brasileiro deveria resultar em um cenário extremamente positivo para as operadoras de cartões de pagamento e para as suas ações listadas em Bolsa. Entretanto, não é isso o que ocorreu. No segundo semestre de 2010, os papéis da Redecard acumularam perda de 14,1%, uma das quedas mais acentuadas na BM&FBovespa no período. Os da Cielo, sua concorrente direta, recuaram 8% nesse mesmo intervalo.

A explicação para a contradição está na concorrência. No início de julho de 2010, o Conselho Monetário Nacional (CMN) impôs o fim da exclusividade no uso de bandeiras de cartões de crédito. A Redecard era a única a operar com a Mastercard, e a Cielo, com a Visa. Após a determinação do regulador, os lojistas ficaram livres para escolher com qual credenciadora trabalhar. Logo, as operadoras passaram a disputar ativamente espaço no mercado. “A competição dá ao lojista um maior poder de barganha e está forçando as credenciadoras a reduzir as taxas de desconto. Também cresceu o número de clientes ligando para as centrais, aumentando os custos com call center e as despesas com marketing. Tudo isso pressionou o resultado das empresas”, explica Daniel Malheiros, analista da corretora Spinelli.

As consequências disso estão no balanço da Redecard. Os custos operacionais subiram, seja para oferecer um serviço de melhor qualidade seja para reduzir as taxas cobradas dos clientes a fim de não perdê-los para a concorrência. No terceiro trimestre do ano passado, o lucro da companhia somou R$ 324,1 milhões, resultado 2,7% inferior aos R$ 333 milhões apurados no mesmo período de 2009. Os gastos totais com serviços prestados e despesas operacionais aumentaram 40,6% e atingiram os R$ 359,2 milhões na mesma base de comparação. Com isso, a margem líquida ficou em 38,4%, contra os 44,1% do terceiro trimestre de 2009. O cenário para a Redecard é pior que o da Cielo, pois a primeira antecipa recursos aos lojistas há mais tempo e está próxima de seu limite nesse serviço. Já a ex-Visanet cresce nesse segmento e tem espaço para faturar ainda mais. Além disso, a Redecard está mais exposta a grandes varejistas, que possuem informação e poder para barganhar descontos.

Se competir com a Cielo está difícil, imagine enfrentar mais participantes no mercado. A possibilidade de novos concorrentes ingressarem no setor — como o Santander, que selou uma parceria com a GetNet um ano atrás — é outro fator a pressionar as ações da Redecard. Novos concorrentes estão por chegar. “O fluxo de notícias sobre a empresa está muito ruim”, resume o analista da Spinelli.

Marcelo Kopel, diretor executivo financeiro da Redecard, acredita que os investidores não levam em consideração apenas a elevação nos custos para castigar as ações da empresa. Para ele, todo o setor passa por uma fase de transformação e acomodação de margens, que leva tempo até se estabilizar. Em breve, outros aspectos terão mais destaque, dentre os quais os dividendos pagos aos acionistas. Apesar da pressão sobre os resultados, o executivo afirma aprovar as mudanças na regulamentação. “O governo acertou ao intervir no setor por meio da competição. Foi muito melhor do que mexer nos preços”, conclui.

Dentre os pontos positivos do fim da exclusividade, Kopel cita o aumento no volume de vendas com a operação da bandeira Visa. Do lado do cliente final da Redecard, os benefícios foram uma melhora na qualidade dos serviços, fruto de um ambiente de maior concorrência. A companhia precisou fazer investimentos para ampliar as centrais de atendimento e para manter os terminais dos pontos de venda (POS, na sigla em inglês) em funcionamento.

As circunstâncias também obrigaram a empresa a ser mais ativa nas negociações comerciais. Recentemente, a Redecard anunciou uma série de acordos para oferecer mais opções de bandeiras. Um exemplo é o contrato que fechou no terceiro trimestre de 2010 com a China UnionPay para capturar, processar e liquidar operações de crédito e débito da rede que possui mais de 2,2 bilhões de cartões emitidos no mundo.

Alguns investidores enxergam novos horizontes para a companhia, dado o cenário econômico promissor do Brasil, acredita Kopel. O crescimento de 11,8% das receitas no terceiro trimestre de 2010 em relação ao mesmo período do ano anterior foi muito bem-vindo. “Além disso, somos uma das maiores pagadoras de dividendos do País, com ‘dividend yield’ (rendimento do dividendo em relação à cotação da ação) de 7,8%.” Para continuar crescendo, a companhia investe em novas plataformas de pagamento, como o celular. A Redecard tem um acordo com a operadora Vivo para fornecer um serviço que dispensa o uso de cartões e maquininhas. “É mais uma oportunidade de negócio”, aposta o executivo.


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