2010 não terá oba-oba

José Olympio Pereira

Bimestral / Relações com Investidores / Temas / Entrevista / Edição 76 / 1 de dezembro de 2009
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Pelo menos 15 ofertas públicas iniciais de ações, que somem um total de US$ 10 bilhões captados. Essa é a previsão para 2010 — “conservadora, talvez” — de José Olympio Pereira, diretor de investment banking do Credit Suisse. Nada mau começar o ano com a expectativa de que companhias novatas e investidores estão dispostos a apostar no mercado de capitais, especialmente se compararmos com o início de 2009, quando o rastro de pessimismo deixado pela crise financeira inibia até a mais modesta das projeções. Em entrevista à CAPITAL ABERTO, Pereira ressalva que o investidor continua seletivo. Mas reafirma sua crença no poder de atração exercido pelo Brasil, apesar da introdução do IOF nas operações de renda variável e dos resultados ruins que diversas estreantes amargam na BM&FBovespa.

CAPITAL ABERTO: O desempenho das ações que vieram a mercado nos últimos anos tem sido muito debatido. A maioria delas está com preço abaixo do valor da oferta…
JOSÉ OLYMPIO PEREIRA: Pelas minhas contas, foram 117 IPOs nos últimos cinco anos, pois contabilizo todas as ofertas baseadas em uma faixa de preço, mesmo que a empresa já tivesse registro de companhia aberta. As ofertas de 2007 aconteceram em um cenário extremamente exuberante, o que responde parte da pergunta, mas vamos relembrar por que o mercado de IPO ficou assim. Em 2004, tivemos sete IPOs. Destes, apenas um, Grendene, foi mal. Em 2005, foram 11 ofertas, das quais duas não foram bem: Rennar Maçãs e UOL. Quem comprou todas as outras, como Submarino, Localiza, Cosan, Cyrela, EDP e TAM, ganhou dinheiro.
Em 2006, o mercado cresceu e, no início de 2007, o percentual de sucesso ainda era grande. Mas tivemos uma explosão alimentada pelos bons resultados anteriores. Em 2008, veio a crise, e, agora, 75% das ofertas estão debaixo d’água. Por isso o mercado travou em 2008. Não que ele tenha fechado, já que tivemos Le Lis Blanc, Hypermarcas, OGX, o maior IPO do ano, e Nutriplant. Fizemos ainda o follow-on (oferta subsequente) da Vale, de US$ 12 bilhões. Havia mercado, mas havia também relutância porque a safra anterior amargava perdas.

E essa relutância não tende a se repetir agora, já que os prejuízos continuam?
Este ano as empresas não estão indo bem, mas não há nenhum desastre. O investidor vai continuar a ser seletivo, não tem oba-oba. Não podemos esquecer que não se julga o sucesso de um IPO dois ou três meses depois. Eu preferiria, obviamente, que a safra deste ano estivesse negociando acima dos preços de estreia, mas daí a dar o veredicto de que ela não foi bem-sucedida, é cedo.

O mau desempenho dessas ações não pode estar relacionado ao fato de elas terem saído, talvez, caras demais? Há correlação entre o ponto da faixa indicativa de preço e o desempenho no longo prazo?
Em geral, as empresas que saem no topo da faixa são as que têm melhor performance logo depois do início da negociação. No longo prazo, a valorização depende dos resultados entregues. E o que nós buscamos? Queremos precificar um IPO de modo que o investidor tenha um ganho modesto no curto prazo e superior ao índice de mercado no longo prazo. Nós estabelecemos uma faixa, mas, em última instância, o preço é feito pelo mercado. O processo de bookbuilding tem forte influência do julgamento. Se o investidor está muito animado e paga um preço alto, eu não interrompo. Mas temos limites de até onde embarcar na euforia.

E como é convencer o emissor a não embarcar na euforia?
Também faz parte do nosso trabalho educar emissores, mostrar que é no melhor interesse deles que a ação suba no longo prazo. Não é fácil convencê-los disso, mas também não é impossível.

O banco de investimento tem compromisso com os dois lados: com o acionista vendedor e com o futuro acionista. Como você equilibra essa relação?
No banco, temos uma área que controla o bookbuilding de demanda e, em última instância, estabelece em que ponto a operação deve ser precificada. Ela não responde somente ao investment banking, que atende à companhia, nem somente à área de vendas, que lida com o investidor. Ela é o fiel da balança. O empresário acha que queremos agradar os investidores às suas custas. E vice-versa. Mas os grandes bancos estruturam sistemas para que todos os interesses estejam bem representados.

Qualquer mudança de regra é ruim, e a introdução de uma cobrança de IOF sobre o capital estrangeiro não é exceção

Existem muitos questionamentos sobre a qualidade das empresas levadas a mercado. Qual a responsabilidade do banco e do investidor nesse quesito?
Temos que oferecer companhias com diferentes perfis de risco. Qualidade é administração séria, com bons controles, boa governança e gente honesta. Todas as empresas que vieram a mercado foram auditadas por firmas de primeira linha que, além de fazer a auditoria, revisaram os processos contábeis. De uma forma geral, tivemos empresas bem preparadas. O banco não deve trazer a mercado somente companhias de baixíssimo risco. Nosso papel é fazer a diligência para não nos associarmos a alguém desonesto, que não tenha um mínimo de competência para tocar o negócio, além de elaborar um prospecto que dê ao investidor todas as informações relevantes para a decisão de investimento.

Com a correria para aproveitar o bom momento do mercado, algumas companhias parecem ter chegado à bolsa, sem uma cultura de governança. Em outras palavras, o empresário pode ser honesto, mas não gostar de conviver com minoritário.
Eu não atribuo os problemas que existiram à falta de governança. Todo mundo está procurando a culpa para tantas operações de 2007 não terem sido bem-sucedidas. A resposta é muito mais simples do se imagina. Tínhamos uma exuberância irracional de investidores colocando dinheiro em empresas de mercados emergentes, não só do Brasil.
De uma hora para outra, explodiu uma das maiores crises mundiais, e muitos hedge funds venderam posições, derrubando os preços. Foi uma questão de mercado. Problemas de governança corporativa, com controlador sacaneando o minoritário ou negando informação, eu não vi.

O senhor se decepcionou com alguma das empresas que trouxe a mercado?
Sempre há alguma decepção. Fizemos 55 IPOs nos últimos cinco anos. Seria impossível ter 100% de acerto. É claro que, em alguns casos, não ficamos satisfeitos com o resultado final.

Quando se discutiu o desempenho de algumas companhias, jogou-se luz sobre a responsabilidade dos investidores. O investidor lê os prospectos?
Sim, investidor sério lê prospecto.
Em 2007, um número menor do que gostaríamos estava lendo, e por duas razões: primeiro, porque havia grande presença da indústria de hedge funds que, em geral, faz uma análise mais superficial do investimento.
E a outra razão era a quantidade avassaladora de operações. Mas vemos que os investidores disciplinados chegam ao roadshow com o prospecto lido e fazem da apresentação uma sessão de perguntas e respostas. Esse é o investidor dos sonhos. E, sem a menor dúvida, é ele que priorizamos. Ele faz o dever de casa e não vai sair correndo no primeiro bater de portas achando que é tiro. Então, minha resposta é: o investidor, em geral, lê prospecto e, se não lê, deveria fazê-lo.

A cultura de companhia aberta pegou no Brasil. O mercado é visto com interesse e como um sinal de prestígio

E quem é o investidor no final das contas?
É um administrador de recursos. Essa é uma boa pergunta para quem investiu nos fundos fazer aos seus gestores: você lê prospecto ao comprar um IPO?

Como o senhor avalia o impacto da introdução do IOF sobre investimentos em renda variável, inclusive ADRs?
Qualquer mudança de regra é ruim, e a introdução do IOF não é exceção. No médio prazo, o efeito não vai ser muito grande, porque não acredito que vá impedir ou desestimular investidores a virem para o Brasil. Antes da taxação dos ADRs (American Depositary Receipts), o maior prejudicado seria a Bolsa, já que o mercado migraria para os Estados Unidos com a criação de um estoque de recibos que, uma vez lá fora, poderia ser negociado sem o imposto.

O senhor defende a isenção de IOF para IPOs?
Seria bom tirar o imposto para os IPOs. Mas precisamos ver qual é o objetivo da introdução do imposto. A medida do governo é arrecadatória ou é extrafiscal? Se for para conter a valorização do câmbio, o efeito é nulo ou não relevante. Suspeito que o efeito arrecadatório tem falado mais alto do que a gente imagina. Se o objetivo é conter a entrada de capital no nosso mercado, não é isso que vai funcionar, além de ser ruim no longo prazo. A grande conquista do Brasil é a estabilidade de regras. E o grande prejuízo do IOF é quebrar essa percepção de que, no Brasil, as regras são estáveis.

E as projeções para 2010? O que podemos esperar?
Vejo, para o ano que vem, um mercado de US$ 10 bilhões em IPOs, com um número maior de operações, pelo menos 15 ofertas. Não acredito que tenhamos outra operação do porte de Santander. Talvez esteja sendo conservador em relação ao número de IPOs, mas o mercado continua seletivo. Não voltaremos para o oba-oba.

Esse seu conservadorismo se deve mais à seletividade do investidor ou à vontade do empresário de acessar o mercado?
À seletividade do investidor. A cultura de companhia aberta pegou no Brasil. O mercado é visto com interesse e até como um sinal de prestígio. Não falta mais interesse do empresário.

Teremos o retorno das ofertas pequenas, de cerca de R$ 300 milhões?
É difícil dizer. Se olharmos para o mercado norte-americano, o maior do mundo, veremos que há emissões entre R$ 100 milhões e R$ 150 milhões. Esse movimento é bastante comum e está estruturado sobre um grupo de investidores, em geral fundos menores. Eu aposto que nós vamos acabar migrando para essa faixa no médio prazo, o que não quer dizer que só teremos isso. Já temos investidores com esse perfil. Na crise do ano passado, vários fundos focados em value se deram muito bem comprando justamente aquelas companhias menores que vieram a mercado em 2007, perderam interesse dos grandes fundos e estavam negociadas a preço de banana.

O senhor acredita na proposta do Bovespa Mais de promover ofertas de até R$ 80 milhões?
O determinante é o tipo de investidor e não a categoria de governança. Não adianta um fundo gigantesco querer apostar em empresas pequenas. Mas eu tenho que acreditar na proposta. Quanto ao tempo que levaremos para chegar lá é o ponto de interrogação. O Bovespa Mais é uma belíssima iniciativa que não deu certo porque não teve investidor. O Novo Mercado ficou tão forte que o Bovespa Mais sofre por conta de seu sucesso.


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