Prontos para a próxima

Censo da FGV, a ser divulgado em breve, mostra que os fundos de private equity e venture capital triplicaram as empresas investidas em seis anos. Agora, eles partem para a segunda rodada

Sem categoria / Reportagem / Edição 25 / 1 de setembro de 2005
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ed25_p036-038_pag_3_img_001Devagar se vai ao longe. Essa máxima popular resume em boa medida a sensação de gestores e demais envolvidos na indústria de fundos de capital de risco no País em relação ao cenário atual. O segmento de private equity e venture capital, voltado a investimentos em empresas em desenvolvimento e iniciantes, respectivamente, parece ter deixado para trás o período em que fundos foram fechados, instituições desmontaram equipes e o cenário macroeconômico não era propício para investimentos dessa natureza. Fundos constituídos no final da década de 90 e início de 2000 conseguiram saídas satisfatórias para parte dos recursos aplicados, com taxas de retorno condizentes com o trabalho. E agora entram numa nova fase de prospecção, capitalização de fundos e boas expectativas para o médio e longo prazo.

“Os dois últimos anos foram muitos bons no sentido de reversão de uma série de mistificações sobre o setor”, afirma Alberto Camões, sócio da Stratus Investimentos. O lançamento da Instrução 391 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em julho de 2003, e a sinalização dos fundos de pensão, que vêm abrindo espaço em suas carteiras para investir nos chamados fundos de capital de risco, são dois exemplos dados por Camões para justificar a análise positiva do passado recente.

O movimento dos fundos de pensão ainda é tímido, reflexo de um receio que percorreu todo o segmento diante da novela envolvendo a Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ) – o maior fundo de pensão da América Latina – e o banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity. “O caso Dantas apodreceu a indústria”, afirma um gestor que preferiu não ser citado.

Ainda assim, outros agentes do setor concordam com Camões, e apostam que os investidores institucionais, principalmente os fundos de pensão – potencialmente os maiores fornecedores de recursos para fundos de private equity e venture capital no mercado nacional – perceberam a singularidade do caso Previ/Opportunity e estão prontos para avaliar outros projetos de investimento.

MOMENTO DE OBSERVAÇÃO – No entender de Fernando Cezar Borges, diretor-executivo do AIG Private Equity, o setor se concentra neste momento em analisar os novos ativos que merecerão a atenção dos seus fundos. As ofertas de ações da Gol e da América Latina Logística (ALL), por exemplo, permitiram aos investidores – a própria AIG e a GP Investimentos – a realização de lucros em investimentos que já estavam maduros e com boa liquidez. O momento agora, no entender do executivo, é de observação das próximas oportunidades.

Depois de anos sem novos lançamentos, a bolsa brasileira viu um movimento pequeno, mas importante, de saída de fundos private equity por meio de ofertas públicas de ações. E a indústria de capital de risco o encarou como um sinal de otimismo para o futuro. “Quebramos um tabu”, ressalta Camões, da Stratus.

Outro fator que justifica o otimismo dos gestores é a disposição do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) de voltar a atuar de maneira mais ativa no mercado de capitais. O diretor financeiro da instituição, Carlos Kawall, e Fábio Sotelino de Rocha, que assumiu a mais nova superintendência de mercado de capitais do banco, estão montando um programa de apoio à indústria de fundos de investimento com foco nos segmentos de private equity e venture capital e voltados para as pequenas e médias empresas inovadoras.

Cristiano Lauretti, diretor do AIG Private Equity, elogia o sinal dado pelo BNDES, já que a instituição tem um histórico considerável no trabalho de investimento em empresas em fase de maturação ou início de operação. “O BNDES é um player sério, com experiência”, completa Borges, também da AIG.

PRIMEIRO CICLO – Em meio ao processo de retomada da indústria de private equity, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) está concluindo um censo inédito sobre o segmento. Sob a coordenação dos professores Cláudio Furtado e Antonio Gledson de Carvalho, e do pesquisador Leonardo L. Ribeiro, o minucioso estudo trará pela primeira vez uma fotografia completa da indústria de capital de risco do País.

Segundo Ribeiro, o trabalho está dividido em quatro eixos. Em primeiro lugar, há uma análise da estrutura do setor, na qual são descritos os recursos humanos disponíveis, a localização dos gestores e suas condições legais. O segundo eixo é dedicado ao processo de investimento. “Avaliamos desde a origem do fundo até os mecanismos de saída”, explica Ribeiro. O terceiro bloco é focado na remuneração do setor, e inclui as taxas de administração cobradas, de performance, e dos gestores. Por último, os coordenadores do trabalho dedicam um espaço para discutir a governança entre gestores e investidores.

O censo só deve ser publicado nos próximos meses, mas alguns dados foram antecipados à Capital Aberto. De acordo com o levantamento, existem atualmente no País 70 gestores que administram 102 fundos de private equity ou venture capital. Neste universo estão incluídos seis Private Investment in Public Equity (Pipes), fundos que operam com empresas cotadas em bolsa de baixa capitalização e com papel bastante ativo do gestor na governança das empresas.

Em dezembro de 2004, cerca de 300 empresas no País tinham recursos de private equity ou venture capital. “Esse número é importante, considerando que em dezembro de 98 eram menos de 100 empresas”, comenta Ribeiro. O volume total de recursos comprometidos com a indústria – somados os já aplicados e os disponíveis – era de US$ 5,5 bilhões em dezembro de 2004.

A princípio, o volume de dinheiro parece pouco. Mas é um número compatível com uma indústria ainda jovem no Brasil. O professor Gledson de Carvalho ressalta que, no início do processo de consolidação dos fundos de capital de risco nos Estados Unidos, o comprometimento de recursos não ultrapassava a casa dos 3 bilhões de dólares.

O estudo revela ainda que o número de profissionais empregados neste segmento é pequeno: 500 pessoas ao todo. “A estrutura é muito enxuta. É preciso entender que o gestor de private equity é uma ave rara”, comenta Carvalho.

Para os coordenadores do censo, os resultados da pesquisa mostram que os fundos de investimento de capital de risco estão concluindo seu primeiro ciclo de vida no País. A segunda etapa – que começa agora – será de depuração. De um lado, os gestores que conseguiram firmar um histórico de bons resultados nos últimos anos serão aqueles que permanecerão no mercado. Por outro, é esperado um aumento no número de empreendedores com mais conhecimento sobre a indústria, o que poderá abrir espaço para que mais empresas recebam investimentos por meio dos fundos de private equity.

“O mercado brasileiro tem bons ativos. O grande negócio será escolher o gestor correto”, argumenta um agente do mercado que prevê o início de um processo de seleção pelos investidores. Essa percepção – de que é importante saber definir o gestor mais afinado com a companhia investida – parece ser uma tendência observada daqui para frente. “Devemos ter menos quantidade e mais qualidade”, avalia a mesma fonte.

O cenário macroeconômico, embora só nas expectativas por enquanto, é visto como favorável para os fundos de private equity. Boa parte dos agentes considera que a queda nos juros básicos é uma questão de tempo. Na medida em que a tendência esperada começar a se materializar, as atenções que hoje estão praticamente 100% voltadas aos investimentos de renda fixa passarão a migrar para ativos de maior risco.

A política monetária menos restritiva também proporcionaria um maior dinamismo da economia como um todo e favoreceria, assim, a ampliação dos investimentos nas empresas investidas e a abertura de novas janelas de oportunidade para outros empreendedores – e de novos ativos para o capital de risco. É aí que os gestores de private equity apostam suas fichas. “Com uma queda de juros podemos ter um movimento significativo no segmento”, afirma Camões. Neste sentido, a indústria até pode se orgulhar. Embora há anos venha apregoando a baixa nas taxas de juros como condicionante para a sua expansão, vem conseguindo se desenvolver mesmo sem ela. É certo que o crescimento de 100 para 300 empresas investidas não foi na medida que muitos gostariam e esperavam. Mas, na visão dos gestores da indústria, este foi só o primeiro ciclo.


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