Como justificar os atuais preços do mercado de renda fixa – Parte 1

10/09/2013

Sem categoria / 28 de agosto de 2013
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Alexandre Póvoa*/ Ilustração: Julia Padula

Inicialmente, é uma honra ter sido convidado para fazer parte do seleto time de blogueiros da Capital Aberto. Espero dar a minha contribuição na troca de ideias acerca do fascinante mundo do mercado financeiro brasileiro e internacional.

Minha primeira provocação aos leitores é sobre o atual estágio do mercado brasileiro de renda fixa.  Estamos em meio a um processo de normalização da política monetária americana. A cada declaração escrita do Federal Open Market Committee (FOMC) ou verbal dos seus membros, os investidores procuram especular sobre possíveis datas para a redução da compra de bônus (setembro parece cada vez mais provável) e a elevação gradativa de juros (bem mais distante).

Com isso, não chega a ser surpreendente o fortalecimento do dólar no mundo. De acordo com o estágio macroeconômico dos países, o impacto em cada moeda tem sido diverso. O regime de metas de inflação no Brasil instituiu o objetivo (centro da meta) de 4,5% ao ano para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), com bandas de 2% para cima e para baixo, para absorver choques. Porém, ignorou-se esse preceito nos últimos anos e a inflação anualizada vem persistentemente ficando nos arredores de 6% anuais desde 2010. Agora, com a alta base de partida da inflação — provocada por uma mistura do evidente erro de afrouxamento de política monetária e com a política fiscal deletéria, que, por ter sido alvo de manobras contábeis, perdeu completamente a credibilidade —, a absorção dos efeitos da desvalorização do real fica muito mais complicada.

A consequência pode ser constatada nos números. Com a desvalorização do real em 30% nos últimos 18 meses e a confiança dos investidores completamente desancorada, as expectativas inflacionárias dispararam. A chamada inflação implícita embutida nas Notas do Tesouro Nacional – Série B (NTN-Bs), com vencimento entre 2014 e 2024, saltou abruptamente de uma média de 5,5% (o que já representava um desvio de 100 pontos-base da meta) para 6,2% ao ano, desde julho de 2013. Em outras palavras, mesmo com uma meta de inflação oficial de 4,5% anuais (patamar não atingido desde 2009), o mercado vem estimando uma inflação média acima de 6% para os próximos doze anos. Enfim, trata-se de um caso grave de total descrédito em relação ao Banco Central.

O processo de queda de juros reais no mercado, que vinha ocorrendo nos últimos anos, foi interrompido.  A figura 1 mostra a reversão do patamar de taxa de juros reais de curto prazo (um ano), que chegou a 25% ao ano em 2002, atingiu a mínima de 1,47% em dezembro de 2012 e hoje subiu a 3,82%.

Figura 1 – Juros reais de um ano no Brasil: Swap de 12 meses versus IPCA esperado para os próximos 12 meses (boletim Focus)

 

Fonte: Bloomberg, elaborado pela CanepaAsset.

 

Se em prazos curtos seria compreensível uma elevação do retorno exigido dos aplicadores, o mais desafiador é a constatação de que os cupons das NTN-Bs longas subiram para patamares que lembram o Brasil do passado, beirando os 6% anuais novamente. O histórico da NTN-B 2050, apresentado na figura 2, reflete de forma mais fidedigna a deterioração de confiança no futuro brasileiro. Depois de o cupom flutuar entre 5,5% e 6% ao ano entre 2010 e 2011, no começo deste ano os investidores estavam cobrando menos que 4% (o mínimo foi 3,78%, em janeiro de 2013) de juros reais anuais acrescidos do IPCA para carregar títulos longos de emissão brasileira. Após 8 meses, neste mês de setembro, voltamos à incômoda marca de 5,78% ao ano em termos de juros reais longos.

 

Figura 2: Cupom (juro real) da NTN-B 2050

Fonte: Bloomberg, elaborado pelo autor.

Teria o Brasil voltado a ser inexoravelmente um país de inflação alta e juro real de 6% ao ano no longo prazo?


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1 comentário

Oct 24, 2013

Eu concordo que a relação entre o PIB e a taxa de juros não é tão perfeita assim, inclusive vou fazer o teste de correlação no EViews, para vermos o resultado.Com relação a sua colocação eu entendo o que vocâ coloca, com uma taxa de juros mais baixa teoricamente os agentes irão preferir ficar ledquidos, diminuindo assim o estoque de recursos disponíveis e sendo assim como poderá se emprestar mais dinheiro se o dinheiro esta nas mãos dos agentes e não mais no sistema bancário. Pois é? Tem sentido!Por outro lado na prática nem todo o recurso migrará dos sistema bancário para as mãos dos agentes, ainda restarão recursos e possivelmente a demanda por recursos aumentará pela queda nos juros. O fato é que o multiplicador bancário, a maquinhinha de dinheiro, vai equalizar a conta (muito embora eu não concorde com isso, acho que deve haver lastro e não simples criação de moeda).Também entendo quando você fala que é necessário um suplus de capital ou uma poupança capaz de alavancar o crescimento, entretanto não sei se concordo. Ter uma boa poupança não significa ter crescimento, os mercantilistas também tinham e nem por isso se desenvolveram. Acredito que o crescimento esta muito mais vinculado com a capacidade de criação e inovação do que o simples fato de possuir recursos.



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