Proeza de relacionar

Gustavo Franco

Retrato/Edição 115 / 1 de março de 2013
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O economista Gustavo Franco não tem livros na cabeceira. Como sofre de insônia, segue o conselho dos médicos: perto da cama, só o remédio para dormir. Seria como continuar o expediente noite adentro, explica o sócio-fundador da Rio Bravo, que já passa o dia cercado de livros, desde os cinco anos de idade, quando ganhou, em um sorteio no colégio onde acabara de ingressar, a coleção O Mundo da Criança. “Estava em um auditório lotado e tive que subir ao palco para apertar a mão do padre, morrendo de vergonha”, conta ele, bem humorado. “Aquilo me deu um senso de responsabilidade. Tinha que ler tudo.”

Milhares de livros depois — reunidos na imensa biblioteca em que estão também os 14 volumes que ele próprio publicou —, o economista carioca voltou ao universo infantil. Está lendo O Mágico de Oz, clássico cheio de simbolismos de L. Frank Baum. A leitura tem relação com o projeto de seu próximo livro — e mais do que isso ele não revela. Vale lembrar que, no currículo de escritor, Gustavo Franco exibe a proeza de relacionar assuntos econômicos às obras de autores como Fernando Pessoa, Shakespeare, Machado de Assis e Goethe. Em alguns dos livros, esbanja erudição. Em outros, como no último As Leis Secretas da Economia, inspirado nas ideias de Roberto Campos e Alexandre Kafka, usa também da fina ironia que tanto incomodou adversários em sua passagem pelo governo.

Como o ciclone que suspende a casa de Dorothy, Franco causou vendavais e reviravoltas na pacata atmosfera de Brasília, primeiro como diretor e depois como presidente do Banco Central (BC). Sobre a fama do temperamento forte, hoje, aos 56 anos, se diz mais maduro, reconhece que talvez tenha “falado demais” em algumas situações (ficou famosa a reunião em que disse a um industrial que seu setor iria acabar), mas defende o papel que representou na “missão” exibida como maior orgulho: o Plano Real. “O projeto e o grupo precisavam de alguém intransigente, indisposto a negociar com o lado negro da força, e Brasília não está acostumada com personagens que não negociam. Daí a fama. Também, pelo temperamento de Fernando Henrique e Pedro, sobraram para mim muitos embates desagradáveis (risos).” Para certas coisas, porém, Franco continua partidário da tolerância zero: “Nesse quesito, não mudei uma vírgula”.

Ele se refere ao período entre 1993 e 1999, quando esteve no BC como subordinado do ministro da Fazenda, Pedro Malan, e do presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, depois de construir uma sólida carreira acadêmica e antes de fundar a gestora de recursos Rio Bravo. Ajudou a implantar o Real e saiu de forma tumultuada em meio a uma crise cambial. “Tive uma trajetória bem sequencial: academia, governo e setor privado. Na minha geração, alguns escolheram começar pela academia, outros foram logo para o mercado financeiro. A vantagem de estar hoje no setor privado é que posso ter mais encontros com a minha ‘amante’”, afirma. “A literatura é a minha paixão.”

Formado e forjado pelo Departamento de Economia da PUC do Rio, no qual foi assistente de seu professor Edmar Bacha, e com doutorado em Harvard, Franco ainda dá aulas na universidade carioca uma vez por semana, conciliando a agenda com três dias de reuniões na sede da Rio Bravo em São Paulo. “Eu poderia ser executivo full time. Teria outro tipo de remuneração, mas não sobraria tempo para mais nada.” Na empresa, que tem sob gestão R$ 10 bilhões de recursos de terceiros, ocupa o cargo de estrategista-chefe, além de presidente do conselho de administração.

Ele já foi mais solicitado pela imprensa para dar palpites sobre a política econômica, o que também fazia quando mantinha colunas em jornais. Mas agora a sua análise do noticiário está basicamente a serviço do trabalho: “Tenho que saber o que está acontecendo para investir o dinheiro dos outros, claro. Mas os comentários de conjuntura me ocupavam demais e preferi me dedicar a projetos de maior fôlego”. Lembro-lhe, então, que ele era mais crítico em relação ao governo quando mantinha uma coluna no jornal. Não sente falta disso? “É, às vezes dá vontade de falar. Mas apesar de ter minhas antipatias ao que o governo faz, gostaria tanto que desse certo… nem sempre é o que acontece (risos).”

Pergunto-lhe se estaria envolvido com a elaboração de uma agenda econômica para o pré-candidato Aécio Neves, já que é filiado ao PSDB. “Andam me envolvendo. Mas, por enquanto, não. Alguns colegas estão ativos nesse assunto, o momento ainda vai esquentar. As próximas eleições serão mais competitivas do que as pessoas imaginam, e isso vai ser bom para o Brasil.” E quanto a ele, seria ministro de Aécio?

Gustavo Franco havia passado por uma hora e meia de entrevista paciente e bem humorado. Quando ria, o fazia discretamente. Dessa vez, ele apenas baixa o rosto, como que constrangido com a pergunta. “Não. Não sei”, responde. “Vi vários colegas antes de mim irem para o governo esperançosos e voltarem machucados. Era a mesma guerra contra a inflação. Ocorre que, no meu caso, não foi uma experiência de meses, que me daria o direito de voltar para a academia falando mal da política. Foram anos. E nós ganhamos a parada.”

Se as pretensões políticas ficaram no ar, os fãs (sua disciplina é das mais disputadas na PUC, e seu livro, Cartas a um Jovem Economista, um sucesso comercial) poderão ao menos contar com mais livros de Gustavo Franco. Que venha, então, a sua versão das aventuras de Dorothy. Ou, quem sabe, o romance há anos repousando escondido na gaveta.


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