Pelas quadras da vida

Eduardo Gentil

Retrato/Edição 118 / 1 de junho de 2013
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A envergadura já ajudou Eduardo Gentil a ganhar algumas partidas de tênis do empresário Jorge Paulo Lemann. Do alto de seu 1,94 metro, o atual sócio da consultoria Cambridge competia com o fundador do banco Garantia nas quadras, mas fora delas compartilhava da arrojada cultura empresarial implementada por seus bancos de investimento na década de 1990. Gentil fora o executivo escolhido para iniciar no Brasil a operação da Goldman Sachs, gigante americana que havia inspirado a cultura empresarial adotada por Lemann. “No início do escritório, muitos dos projetos de licitação e assessoria eram feitos em conjunto entre os dois bancos”, explica ele.

O homem mais rico do País é citado por Gentil como uma das três pessoas que mais o influenciaram na carreira, ao lado do avô, o embaixador americano Ellsworth Bunker, e do conselheiro Geraldo Hess, um dos pioneiros na atividade de assessorar famílias empresárias, à qual Gentil se dedica atualmente na Cambridge. Nestes tempos de culto a Lemann, porém, vale lembrar que as semelhanças entre os dois não vão muito além do gosto pelo tênis, da admiração pelo modelo meritocrata e da cultura binacional (em vez de criação suíça, Gentil cresceu sob os cuidados da mãe americana, casada com o pai cearense). Ou alguém consegue imaginar Lemann entrevistando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva?

“Sim, tive o privilégio de entrevistar Lula quando ele ainda era sindicalista e fazer muitas outras reportagens como correspondente do Wall Street Journal“, ele conta, mostrando a diversidade de experiências de sua trajetória profissional. Gentil tinha concluído a faculdade em economia e história na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, quando decidiu voltar ao Brasil, País onde nasceu e foi criado e que chegou a representar como tenista, na Taça Davis Júnior. Com uma formação “bem aberta”, típica da graduação americana, pensou no jornalismo econômico como opção que também ajudaria em sua reintegração ao País. Como a imprensa brasileira passava a exigir o diploma de jornalismo por causa de uma lei recente (revogada em 2009), Gentil teve a ideia de se oferecer como free-lancer ao Wall Street Journal. “Foi uma experiência valiosíssima, para o resto da minha carreira”, diz. Depois de três anos de reportagens variadas, com foco em negócios e empresas, foi convidado a integrar uma sucursal que seria montada em Miami para cobrir a América Latina. Mas recusou. “Eu teria que trabalhar como copidesque (revisor) nos primeiros anos. Era uma carreira muito devagar para a minha vontade.”

Se o jornalismo perdia um talento, as finanças brasileiras ganhavam um executivo a ser disputado. Como a vontade de Gentil já pendia para a área desde a graduação, ele optou por um mestrado em administração e finanças na Universidade de Nova York, onde foi fisgado pelo banco JPMorgan, então com planos ambiciosos de crescimento no Brasil. Foi treinado por três anos no segmento que mais lhe despertava interesse, o de fusões e aquisições, e teve suas primeiras experiências em assessorar famílias empresárias na compra e venda de negócios — como faz hoje, por exemplo, para os Klein, fundadores das Casas Bahia. Já executivo do JPMorgan no Brasil, ele viu os primeiros bancos de investimento se consolidarem, no entanto foi chamado de volta à sede em Nova York para coordenar a área em que se especializara. Desta vez, casado com uma americana que conhecera durante o mestrado. Em 1996, voltaria ao Brasil com a missão de abrir o escritório do Goldman Sachs.

Sobre o vaivém entre São Paulo e Nova York, Gentil não titubeia: “Minhas raízes no Brasil são fortes. Sempre achei que minha contribuição aqui seria mais relevante do que lá”. Os três filhos rapazes, com idades entre 18 e 23 anos, tiveram, como ele, uma criação bicultural: estudam ou estudaram em universidades americanas (o mais velho formou-se em business), porém o pai acredita que todos optarão por viver aqui. Família é um assunto caro a Eduardo Gentil. Ele atribui sua conhecida habilidade conciliadora, por exemplo, à convivência com o avô, que se tornou um dos mais importantes diplomatas americanos depois de se aposentar como executivo, aos 58 anos. Gentil tem 57, e delicadamente toma o bloco da repórter para anotar corretamente o nome de Ellsworth Bunker. “Ele sabia lidar com as diferenças, estava interessado nisso.”

Talvez inspirado pelo avô, ou para dar a sua contribuição ao País, Gentil aceitou ser diretor do BNDES em 2001, depois de nove anos de Goldman Sachs e muitas partidas de tênis com Jorge Paulo Lemann. O convite, por sinal, veio do economista Eleazar de Carvalho Filho, o executivo com quem ele lidava nas primeiras parcerias com o Garantia. “Com Lemann, o relacionamento era mais no tênis”, ressalta. Carvalho Filho tornou-se presidente do BNDES e chamou o amigo no momento em que os mercados despencavam globalmente, por causa dos atentados terroristas de 11 de setembro, e localmente, por temor à eleição de Lula. “Foi uma experiência curta, de um ano e três meses, porém muito intensa. Reestruturamos a dívida de grandes empresas brasileiras, em operações que se mostrariam muito bem-sucedidas para as companhias e para o banco.”

A carreira de executivo seria retomada, como presidente da Visa no Brasil e depois chefe do banco de investimento do Unibanco. Entretanto, nessas alturas Gentil já tinha travado contato com o professor John Davis, da Universidade de Harvard, no período de quarentena do governo, atraído pela fama do guru nas questões de governança em empresas de controle familiar. O projeto de se associar a Davis, em sua consultoria-butique com sede em Boston, voltou com força em 2009: embora tivesse sido convidado a permanecer no Itaú BBA, depois da aquisição do Unibanco, Gentil precisava de uma atividade que permitisse mais “controle sobre a agenda”. A ex-esposa havia morrido em um acidente e os filhos adolescentes precisavam mais do que nunca do pai. “Eu tinha que estar disponível para eles. A Cambridge caiu como uma luva, pois eu podia usar os meus contatos, a minha competência e a minha experiência em um negócio mais meu.”

No início de 2010, ele abria o escritório da Cambridge em São Paulo; hoje se entusiasma com os planos de introduzir no negócio uma atividade educacional para as famílias clientes. Assim como o avô fez aos 58 anos, e os patriarcas das empresas são aconselhados por ele a fazer aos 60 anos, Gentil acabou iniciando, na maturidade, uma segunda carreira.




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