Missão para um diplomata

João Nogueira Batista

Retrato/Edição 121 / 1 de setembro de 2013
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Em meio à rotina atribulada, João Nogueira Batista tinha uma tarefa a mais naquele dia. Além da atividade no Comitê de Aquisições e Fusões (CAF) — maior promessa na área de governança corporativa depois da criação do Novo Mercado — e da agenda como conselheiro em quatro empresas e presidente da ONG Reciclar, ele precisava encontrar uma fita cassete. O filho pequeno, de sete anos, ficara fascinado com a história de o pai já ter tocado contrabaixo numa banda. Agora, cobrava um registro das músicas, quem sabe daquela que ganhou um festival universitário em Brasília nos idos de 1973.

Batista não costuma falar do passado como músico. É coisa da juventude, diz, comum entre filhos de diplomata, que têm influências de diferentes cidades do mundo. No entanto, graças ao pedido do filho, segue resgatando da memória o périplo para conseguir o primeiro contrabaixo, na década de 1960. Enquanto conta a história como banal (“Isso nem interessa”, se desculpa), acaba por desvelar outra relação entre pai e filho, de onde parecem provir os valores que aplica atualmente em sua militância no mercado de capitais: a ligação com o pai Paulo Nogueira Batista, embaixador e pensador influente na política nacional.

A história banal começa com o jovem carioca João, segundo de quatro filhos (o mais velho, também Paulo, é hoje representante do Brasil no Fundo Monetário Internacional), se interessando por música quando morava na Alemanha. Embora aos 14 anos ele já tivesse passado por Argentina, Estados Unidos e Canadá, o pai sempre cuidou para não deixar que os filhos estrangeirassem. “Nossa base era o Rio, antes da transferência do Itamaraty para Brasília, e ficávamos pouco tempo em cada país para não perder as raízes brasileiras.” Quando quis comprar o contrabaixo, o jovem já conhecia a regra da casa: deveria se virar, ou seja, trabalhar durante as férias escolares, como faziam os adolescentes europeus. “Isso era comum. Mas não entre filhos de diplomata”, comenta. Foi trabalhar em um supermercado, colocando etiquetas em produtos com aquelas maquininhas que depois ficaram famosas no Brasil como símbolo da hiperinflação.

Outra temporada de trabalho seria necessária para trocar o primeiro contrabaixo por um novo, da marca Fender — o que foi usado nos festivais. Batista morava em Genebra e passou madrugadas montando estandes no Palácio de Exposições, junto com um amigo suíço. “Meu pai me levava e eu pedia que me deixasse na esquina, para ninguém me ver chegando de Mercedes”, conta.

Atento ao valor da meritocracia, como lhe ensinara o pai, Batista fez questão de “esconder a Mercedes” na vida profissional que se seguiu à faculdade de economia na PUC-RJ. A fase roqueira de Brasília já era passado (participara de duas bandas, uma delas com os dois irmãos e a irmã caçula, que era vocalista e depois se tornou cantora lírica). “Sempre me dediquei muito ao trabalho.” Mesmo quando o nome do pai ajudava a abrir portas, mostrava humildade e galgava postos com o próprio esforço. “Ele me influenciou não só no exemplo ético, mas na determinação e na capacidade de lutar pelo que acreditava.”

João chegou a cogitar a carreira de diplomata, antes de optar pela mesma faculdade cursada pelo irmão mais velho. Teria o pai se decepcionado por nenhum filho fazer a prova para o Instituto Rio Branco? “De forma alguma; ele era um democrata”, lembra. A opção não foi tão deslocada assim, já que a economia era um assunto sempre presente nos debates em casa. Além disso, Batista acabou intercalando experiências no setor financeiro com cargos públicos, imbuído do espírito de ajudar o País ensinado pelo pai. No primeiro emprego, aos 21 anos, como economista na empresa Furnas, começou a participar da negociação de empréstimos externos a estatais, tarefa que retomou numa assessoria do ministério da Fazenda, quando saiu do Rio de Janeiro para morar novamente em Brasília. “O mercado era tomador de recursos nessa época. Ficávamos horas negociando com os bancos; eu adorava.”

Foi numa dessas reuniões prolongadas que ele se viu fazendo sala para um diretor do Dresdner Bank, onde teria sua mais longa experiência no setor privado. “O grupo foi a uma churrascaria, enquanto eu preferi almoçar em casa porque estava recém-casado. Na volta, todos atrasaram, menos eu e um diretor que acabava de chegar da Argentina. Ficamos conversando uma hora.” Resultado: os dois filhos do primeiro casamento acabaram nascendo em Luxemburgo. “Foi uma adaptação difícil, mas na década de 1980 era raro um brasileiro ter oportunidade de trabalhar fora.”

De volta ao Brasil, foi atraído novamente para cargos no setor público e, depois, indicado para diretor financeiro, comercial e administrativo da Radiobrás. Ali, sentiu na pele as pressões sobre quem não abre mão da ética. “Como eu não fazia nada fora do esquadro, nem atendia aos políticos, começaram a me boicotar, me deixar sem orçamento”, conta. Trabalhou intensamente, pediu ajuda aos amigos corretos que participavam do governo, porém não foi oficializado como presidente quando ficou interino no cargo, apesar de um manifesto feito pelos funcionários.

“As pessoas sabem que estou defendendo algo em que acredito”

Ainda viveu experiências positivas no governo, até retornar ao Dresdner, desta vez para ajudar a montar a estrutura do banco no Brasil. Só saiu de lá 12 anos e meio depois, quando o presidente da Petrobras Henry Philippe Reichstul o convidou para a diretoria financeira da estatal. “Desde o Dresdner eu lidava com o mercado de capitais local, mas foi na Petrobras que esse meu viés se fortaleceu.” Os seus feitos foram tantos — participando de aquisições e melhorando a governança da companhia — que, ao fim do segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, foi convidado a reorganizar o modelo de gestão do grupo Suzano. “Em fim de governo, quando não há reeleição, a liberdade para agir é maior”, ressalta, justificando a visibilidade que seu trabalho ganhou na época, com as tentativas de fazer a estatal aderir ao Nível 2 de governança corporativa da BM&FBovespa.

Como vice-presidente da Suzano Holding, Batista conseguiu convencer instituições do porte de J.P. Morgan, Citibank e Previ a vender parte de suas ações para injetar liquidez no mercado e melhorar a capacidade de financiamento das companhias do grupo. As operações de “follow on” foram um sucesso, que se refletiu na posterior venda da Suzano Petroquímica para a Petrobras.

É essa capacidade de articulação e convencimento, esbanjada por Batista nas negociações da Suzano, que será fundamental no trabalho de diretor técnico do CAF. A experiência executiva e o trabalho à frente do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (Ibri) e do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) também contam. “Por ser um esforço de autorregulação, é preciso convencer as empresas a aderir. Para mim, é a oportunidade de participar do novo salto qualitativo do mercado de capitais.” Perguntado se o fato de ter muitos amigos no mercado o ajudará na tarefa de atrair companhias para o CAF, Batista é categórico: “As pessoas sabem que estou defendendo algo em que acredito”. Sua veia de diplomata, mais uma vez, será muito bem-vinda.


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