Gentileza pura

Retrato / 11 de Março de 2018
Por 


João Paulo Pacífico

João Paulo Pacífico

Em vez da sobriedade típica dos escritórios dos bancos de investimento, salas envidraçadas e coloridas — verde-limão, azul, roxo, vermelho. Um tobogã liga o segundo ao primeiro andar, no qual localiza-se a sala de meditação. De paletó e gravata, só o auditor externo; o pessoal vai de bermuda. O patrão usa tênis, jeans e camiseta polo. O quadro de avisos estimula os colaboradores a expressarem “as três coisas mais importantes da sua vida”: Que experiência marcante quer ter? Quais habilidades quer desenvolver? Que contribuição quer dar ao mundo?

A alegria e o colorido do ambiente refletem a visão de João Paulo Pacífico, 37 anos, casado com Carol, pai de Beatriz e Letícia, principal executivo e acionista do Grupo Gaia — que, em 2009, era apenas uma salinha com três pessoas: o próprio João, uma amiga que ele convidara para sócia e um faz-tudo. Hoje, o grupo tem 60 “gaianos” num escritório na Vila Olímpia. Compreende uma empresa de cobrança (GaiaServ), uma de eventos esportivos e uma ONG dedicada à educação de 4 mil crianças (por enquanto, já que a meta é chegar a 8 mil). A empresa-mãe, a GaiaSec, tem uma carteira de 185 operações de securitização de recebíveis, num montante de 17,9 bilhões de reais.

Nada mal para quem começou a carreira enquanto ainda estudava na Faculdade de Engenharia Mauá e dava carona em um Fiat Uno aos chefes da Rio Bravo Investimentos, Paulo Bilyk e Gustavo Franco, que por sua vez reconhece: “Devíamos ter mantido João dentro de casa. Ele era, e é, um grande talento”.

Naquela época, começo dos anos 2000, João ainda não havia sido picado pela inspiração de ter seu próprio negócio. Isso aconteceu em 2009, ao ler o livro Business Stripped Bare, de Richard Branson, fundador do grupo Virgin, controlador de cerca de 400 empresas de ramos variados, incluindo voos espaciais. A diversidade conquistou João. “Algo muito diferente do ‘foco-foco-foco’ pregado pelos livros de administração”, recorda o executivo, que em 2017 publicou o relato de sua trajetória com o Grupo Gaia em A Onda Azul. Paradoxalmente, a Gaia nasceu de um fracasso. No meio da crise e no setor que desencadeou a crise — o financeiro.

João deixou a Rio Bravo em 2007 para trabalhar no banco sul-africano Standard Chartered. Saiu de lá para tocar um projeto imobiliário que um amigo lhe apresentara, no Banco Matone. “Nem quis saber o salário: o projeto era o que importava.” O projeto incluía o banco BTG, que, num momento difícil, sacou o dinheiro e inviabilizou a operação. “Fiquei incomodado com a maneira como as coisas tinham acontecido”, relembra João. “Tive que demitir. Se o negócio fosse meu, faria de outro jeito. Não que estivesse errado, mas podia ter sido diferente. Aí deu aquele estalo, a faísca.”

Sem capital para montar uma empresa do zero, ele e a amiga sócia compraram a então inativa Gaia Securitizadora, que só tinha nome e autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para funcionar. João já estava com uma transação de estreia engatilhada — mas ela não foi adiante. Na hora H, o primeiro cliente “repensou a estratégia” e desistiu da operação. Já os dois negócios seguintes, com a incorporadora Brookfield e com o Banco Matone, emplacaram. Em 2011, a Gaia montou a maior operação de securitização de recebíveis imobiliários do País: envolvia 2 bilhões de reais e 30 mil clientes da Caixa.

Com a GaiaSec em pé, veio a necessidade de uma empresa de cobrança. Em vez de contratar terceiros, João preferiu abrir a GaiaServ. Em seguida, surgiu a ideia de criar a Gaia Esportes, que começou promovendo corridas de rua em Piracicaba, no interior de São Paulo, e acaba de firmar sociedade para participar da gestão do Ituano, clube de futebol que foi campeão paulista em 2002 e 2014. Como nos outros negócios, a intenção é gerar impacto social, “dar bons exemplos através do futebol”, explica João. Como? Contratando “jovens com mais de 60 anos para trabalhar no estádio” e dando oportunidade às crianças do braço social do grupo, o Gaia +, de participar das categorias de base.

A visão de João se apoia na convicção de que a saúde e a longevidade do grupo se alimentam da prática dos valores que definem a empresa. “Um executivo bastante eficiente, que traz clientes e é excelente vendedor mas áspero com seus subordinados, tem boas chances de se tornar presidente de muitas empresas. Na Gaia, ele não vai ficar muito tempo, pois nosso nono valor é ‘espalhe gentileza, engrandeça as relações’. Aqui os valores vêm antes do lucro a qualquer custo.”

Os dez valores da Gaia — pratique a gratidão; sorria e faça sorrir; vá além e surpreenda; viva com garra; comunique-se sincera e honestamente; crie valor, gere resultado; simplifique, faça mais com menos; fortaleça o grupo, unidos vamos mais longe; espalhe gentileza, engrandeça as relações; celebre — foram quase todos idealizados por João, depois de ter lido Satisfação garantida, de Tony Hsieh, fundador da Zappos (líder em vendas on-line de calçados nos EUA). Nasceram em 2013, nas suas sessões de meditação. “Eu me concentrava e intuía qual seria o próximo valor.”

Dar e receber o Sr. Gentileza, um bonequinho de 22 cm comprado num posto de beira de estrada, é um ritual no grupo. Há quatro anos, segundas e quartas-feiras são dias de troca de gentilezas, e quem faz uma gentileza pode receber o boneco. E nos dois dias seguintes deve deixá-lo sobre sua bancada de trabalho, para receber a sua.

Na quarta-feira em que visitei a Gaia, quem estava com o Sr. Gentileza era João, já preparando a nova empresa do grupo: uma gestora de ativos, a Gaia Forte, com foco em empresas que, como a Gaia, usam o poder dos seus negócios para resolver problemas sociais e ambientais. “Uma coisa que me incomoda muito é o modo como o capitalismo está fazendo coisas ruins, a desigualdade muito grande e crescente”, argumenta João. “Não adianta esperar o governo fazer, ou as ONGs. Quem consegue mudar mesmo são as empresas. Elas é que criam riqueza.”

3×4

Rotina: Acordo sem despertador, para estar descansado o suficiente, entre 5h30 e 6h30. Tomo água com limão, leio, escrevo, faço alongamento e exercício, tomo banho com ducha fria ao final, levo minhas filhas para a escola, medito, me divirto — ops!, trabalho —, volto a tempo de jantar com minha esposa, brincar com minhas filhas e colocar uma delas para dormir.

Cuidados com a saúde: Meditação, vegetarianismo, pilates, eventualmente squash, natação e corrida. Check-up uma vez por ano.

Fim de semana: Aproveito muito minha família, que é prioridade total. Encontro com amigos, leio e faço algum esporte.

Livro de cabeceira: Muitos, mas vou indicar o último que li: O poder do sentido, de Emily Esfahani Smith.

Uma inspiração: Richard Branson nos negócios, Ayrton Senna na determinação e Rafael Nadal nas atitudes.

Conselho para quem está começando: Todos os dias, seja a melhor versão de você. Se cuide, considerando corpo, mente e espiritualidade, e ajude o mundo sem qualquer pretensão de receber algo em troca.

Momento mais difícil: Quando várias pessoas me diziam que a única saída era corromper um fiscal. Mas seguimos firmes e não o fizemos.

Melhor momento: Meu casamento e os nascimentos das minhas duas filhas.

Viagens marcantes: Lua de mel com a esposa e Disney com a família.



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