Educação para voar

Ozires Silva, fundador da Embraer: “A realidade foi além do sonho, graças à educação que tive.”

Retrato/Edição 148 / 1 de março de 2016
Por 


Osires Silva

Foto: Régis Filho

Eleito membro da Real Academia Sueca de Engenharia em 1994, Ozires Silva foi convidado pelo rei Carlos Gustavo a participar de um banquete em seu palácio. Ao perceber-se na mesma mesa de três ganhadores do Prêmio Nobel, o fundador e primeiro presidente da Embraer não perdeu a oportunidade de exercitar uma antiga mania — a de questionar o que todos acham “normal”. “Por que os senhores acham que o Brasil nunca teve um Prêmio Nobel?”, perguntou aos comensais. Espantou-se com a resposta: “Ora, brasileiros são destruidores de heróis.” Sempre que algum nome apareceu, explicaram, a indicação foi derrubada pelos próprios compatriotas.

Hoje, quando Ozires tem a oportunidade de conversar com alguns dos 79 mil alunos sob o guarda-chuva do grupo Anima Educação, do qual é presidente do conselho de administração, ele costuma sugerir que façam listas com os nomes de grandes personalidades brasileiras e mundiais. A primeira relação, diz, em geral fica vazia, ao contrário da segunda. “Não cultivamos a história das pessoas marcantes de nossa história”, constata o engenheiro aeronáutico fascinado desde os 15 anos por Santos Dumont.

Embora a modéstia não lhe permita a sugestão, os estudantes bem poderiam colocar na lista de brasileiros marcantes o próprio Ozires. Considerado um dos maiores líderes em inovação do País, ele recebe a reportagem em uma sala de reuniões repleta de modelos de aeronaves — em determinado momento da entrevista, surge o convite para a jornalista observar a coleção. “Devemos estar atentos ao meio, às informações do ambiente à nossa volta. A maioria olha, mas não vê.” Não por acaso, Ozires é chamado por muitos de visionário.

Foi num lampejo, no meio da noite, que ele teve a ideia de desenvolver o turbo-hélice Bandeirante, responsável por uma revolução na indústria aeronáutica brasileira a partir de meados dos anos 1960. “Naquela época eu dormia com um caderninho ao lado da cama, para anotar as ideias”, diz. Era o começo da Embraer — e da realização de um sonho acalentado desde que o menino Ozires, de Bauru, decidiu que não queria ser ferroviário, como era comum na cidade, e sim construir aviões. “Mas imaginava que um dia trabalharia numa fábrica de aviões, não que fundaria uma”, ressalta. “A realidade foi além do sonho, graças à educação que tive.”

O pai, eletricista na construção civil, mal sabia ler e escrever, e quase o tirou da escola quando tinha 11 anos. “Minha mãe virou bicho, não deixou.” Ozires passou então a conciliar os estudos no ginásio estadual com os consertos de aparelhos domésticos, como liquidificadores, para ajudar o pai no sustento da casa. Mas foram os passeios no então novo aeroclube de Bauru, onde conheceu um jovem alemão que montava planadores, e os conselhos do professor Argino, de matemática, que colocaram os sonhos — e a possibilidade de realizá-los — na cabeça do garoto.

“A educação transforma”, repetia o inesquecível professor Argino, usando um slogan que hoje é o título do blog mantido por Ozires como reitor da Unimonte, universidade de Santos que faz parte do grupo Anima. “Quem constrói esses aviões são os engenheiros aeronáuticos”, explicava o alemão Hendrich Kurt, quando o menino curioso mostrava as notícias de jornal sobre o fim da Segunda Guerra, em que novidades aeronáuticas de alemães e aliados eram destaque.

O problema é que não havia faculdade de engenharia aeronáutica no Brasil. Ozires acabou entrando para a Força Aérea Brasileira (FAB), o mais próximo de uma indústria de aviação que existia à época, e tornou-se coronel. Conseguiu a almejada formação ao ingressar no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), graduando-se em engenharia em 1962. Sete anos mais tarde, graças ao projeto do Bandeirante, nascia a estatal Embraer, presidida por ele até 1986, quando foi chamado para ser presidente da Petrobras, e, três anos depois, ministro da Infraestrutura. Em 1991, voltaria à Embraer, com a missão de conduzir a privatização da companhia — processo elogiado até por adversários.

“No ministério, lancei o telefone celular”, recorda-se. “Telefone era monopólio do governo, um patrimônio que se declarava até no Imposto de Renda, e comecei a questionar tudo, estudar a legislação. Descobri que se fosse considerado ‘serviço restrito’, o celular fugia daquele engessamento.” Sua visão de que essa seria uma forma de democratizar o acesso às telecomunicações se confirmaria um pouco depois, durante a gestão do ministro Sérgio Motta, das Comunicações, com a abertura do mercado.

Ozires foi ainda presidente da Varig por dois anos, de 2000 a 2002, antes de começar a aceitar assentos em conselhos de administração e de se interessar especialmente pelo setor educacional. “Na verdade, meu interesse por educação existe desde que ela se revelou a única alternativa para eu trabalhar no que gostava.” Ele se diverte com a lembrança do planejamento feito aos 15 anos, junto com um amigo que também decidira ser engenheiro aeronáutico, ambos influenciados pelo alemão do aeroclube: “Para atingir aquele objetivo, planejamos toda a nossa vida. Marcamos o término para 2000.” O amigo acabou morrendo muito jovem, aos 25 anos, mas Ozires ultrapassou todas as próprias expectativas — e chega produtivo aos 85 anos, completados em janeiro.

“O corpo vem se deteriorando, o que é natural. Mas a cabeça está zero-quilômetro. Provavelmente porque uso e abuso dela, aprendendo coisas”, justifica. “Tenho uma vida simples: só quero o suficiente para continuar minha jornada.” Uma jornada com direito a momentos épicos, como a criação do que se transformou em uma das maiores empresas aeroespaciais do mundo — uma história ouvida com interesse por grandes plateias de jovens. Será que o Brasil começa, finalmente, a reconhecer seus heróis?

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Rotina — Faz fisioterapia pela manhã e segue para o escritório da Anima, em São Paulo. Participa de reuniões do conselho de administração, que preside, e de atividades da Unimonte, da qual é reitor. “Não exerço mais atividades administrativas nem tenho responsabilidades fiscais.” Escreve artigos para jornais e revistas e costuma almoçar em um restaurante de comida a quilo, embaixo do escritório. “Chamo de reabastecimento [risos].

Um hobby — “O que gosto de fazer na vida é trabalhar.” Na véspera da entrevista, tinha participado de reuniões para ajudar a “desenrolar” a construção de um prédio novo para uma escola do grupo.

Um orgulho — Ter ajudado na educação das sete netas, agora adultas. “Eu e minha mulher nunca ligamos para coisas materiais e usamos o dinheiro para melhorar as condições dos nossos descendentes. Resultado: as sete são muito bem-sucedidas, ganham mais do que eu ganhava quando tinha a idade delas. Agora é a vez dos bisnetos [já são quatro].” Desde que a esposa Therezinha, namorada dos tempos de colégio, morreu, há dois anos, ele deixou a residência em São José dos Campos para morar com um dos filhos em São Paulo.

Relação público-privado — “Na educação, o governo tem atrapalhado o setor privado. Faz as regras, muda as regras, nos faz de joguetes. Num mundo competitivo como o nosso, os setores público e privado deveriam trabalhar juntos.”

Livros na cabeceira — Está lendo A razão armada, de Candido Mendes, sobre o regime militar no Brasil, e recentemente acabou de ler Os inovadores, de Walter Isaacson, autor da biografia de Steve Jobs. “É um livro fantástico sobre inovação. Mas precisa ser lido nas entrelinhas, comparando com a realidade pessoal. Fui conversar com uma pessoa sobre o livro, e ela disse que não tinha visto nada do que vi [risos].”

Religião — “Já disse que era católico, por influência da minha mãe. Mas não sou. A natureza é complexa demais para ter sido feita por uma pessoa só. Esse é um pensamento humano.”

Como se atualiza — “Não tenho preconceito com o novo. Acompanho tudo o que acontece no mundo, embora esteja mais atento ao campo da aviação.”

Uma decepção — corrupção. “O comportamento do brasileiro piorou. Quando fui presidente da Petrobras, era inimaginável alguém oferecer uma propina. Não havia ambiente para isso. O que mudou nesse período? Tenho falhado em encontrar uma resposta, mas talvez tenha relação com o fato de o dinheiro ter se transformado em prioridade para a sociedade.”

Um sonho — Que o Brasil alcance uma dimensão cultural e econômica condizente com suas dimensões geográficas. “Não é impossível.”

Conselho para quem está começando — Não se subestimar. “Você é mais capaz do que imagina.”




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