Disciplina e resistência

Alexandre Barreto, sócio-fundador do escritório Souza, Cescon, Barrieu & Flesch Advogados: “Nossas maiores lutas na vida são com nós mesmos.”

Retrato/Edição 135 / 1 de novembro de 2014
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retratoTer resistência e dominar o medo. Quando entrou no tatame para conquistar sua faixa preta, há cinco anos, o carateca Alexandre Barreto lembrou-se dos pilares do treinamento iniciado ainda na adolescência e interrompido durante os primeiros anos da carreira de advogado. À sua frente estavam enfileirados 15 lutadores com faixas marrons e pretas, que ele deveria combater ininterruptamente por pelo menos um minuto cada um. “Pode parecer pouco tempo, mas 15 minutos são uma eternidade quando estão batendo em você”, brinca o sócio-fundador do escritório Souza, Cescon, Barrieu & Flesch Advogados. Quando usa o verbo “bater”, Barreto não exagera: no chamado caratê de combate, entra-se para nocautear ou ser nocauteado; não raro, a conquista da faixa é precedida por uma visita ao hospital.

Mas por que Barreto, carreira consolidada e escritório conceituado no mercado de capitais, foi se meter naquela situação? Justamente, explica ele, porque os pilares do caratê nunca o abandonaram em seus anos de dedicação exclusiva ao direito. Foi exercitando a resistência e o domínio sobre o medo, na busca constante por autossuperação, que ele não só fundou o escritório de advocacia com outros sócios como obteve a impressionante média de 40 operações financeiras por ano, desde sua primeira venda de American depositary receipts (ADRs) da Petrobras, em 1997.

O outro motivo para a volta aos treinamentos e a decisão de conquistar a faixa preta foi o nascimento dos dois filhos, Antonio e João Pedro, hoje com 8 e 12 anos: “Além de trazer tranquilidade e confiança, a arte marcial embute valores como disciplina, hierarquia, respeito e vida em comunidade”, enumera. “Queria levar para eles esses valores. Por isso coloquei os dois no caratê, um aos 3 anos de idade e o outro aos 4.” Para o orgulho do pai, o mais velho já é faixa marrom; o mais novo, verde.

No escritório, o segredo da resistência física e mental de Barreto, aos 45 anos, já é conhecido por todos. Nas inevitáveis “viradas”, em que as equipes trabalham sem descanso para dar conta de fusões e aquisições, Barreto assegura manter sua capacidade de raciocínio intacta mesmo depois de duas noites sem dormir. “Na terceira noite, porém, durmo duas ou três horas”, ressalta. O caratê, segundo ele, tem tudo a ver com essa performance: “Estive recentemente em eventos na Universidade de Harvard e no MIT [Massachusetts Institute of Technology]. O pessoal lá só fala em ‘mindfulness’, que nada mais é do que esvaziar a mente e relaxar. Lutas como o caratê exigem respostas rápidas, que não são pensadas. É como se você entrasse num estado alfa”.

Isso só é possível, claro, com muita disciplina e treinamento. E foi o que ele encontrou, aos 19 anos, na rotina adotada depois de sair de São José dos Campos, onde nasceu e cresceu, para morar em São Paulo e cursar a Faculdade de Direito da USP. No ano anterior, ele havia passado no vestibular para economia na Unicamp; desistiu, contudo, de seguir os caminhos do pai economista, pensando em se concentrar no direito financeiro e empresarial. “Comecei a trabalhar no primeiro dia da faculdade, com um advogado especializado em capital estrangeiro. Logo que me formei, fui fazer o LL.M. [mestrado] em direito financeiro na Universidade de Boston”.

retrato2Em São Paulo, a rotina de estudo e trabalho se completava com um intenso treino de caratê numa pequena academia que descobriu no bairro da Liberdade, próximo à faculdade. A arte marcial já acompanhava o jovem Alexandre desde os 14 anos, sugerida pelo pai para acalmar o menino esportista porém agitado, que se envolvia com frequência em brigas (“comuns entre garotos no interior”, lembra). Na salinha da Liberdade, o objetivo ia além de controlar a agitação ou o estresse: “Ali o caratê era muito rígido. Havia aquele espírito de superação dos samurais”, conta. “Conseguir suplantar a dor, o cansaço e o próprio instinto de parar e se preservar nos ensina que nossas maiores lutas na vida são com nós mesmos.” O professor de Barreto, na época, era ninguém menos que Francisco Filho, o primeiro não japonês a ser campeão mundial de caratê de contato. “Ele é um ícone da luta em pé brasileira. Hoje, no entanto, a prática tem um objetivo maior de equilíbrio e saúde, com aulas mais leves.”

Se não exige dos outros a resiliência e a coragem de samurai que perseguiu no passado, o mesmo não se pode afirmar em relação ao nível de comprometimento — um valor que ele ensina aos filhos (que passaram a desligar o chuveiro para se ensaboar por causa da crise de água em São Paulo) e também aos novos pupilos. Fundado em 2001 com 29 funcionários, seu escritório tem hoje quase 400 profissionais, dos quais 200 são advogados. “A conversa com quem está chegando precisa ser franca”, diz ele. “A área dos mercados de capitais e financeiro é intensa e exige respostas rápidas. Se, por um lado, trabalha-se sob pressão e perdem-se noites de sono, por outro existe a satisfação pessoal de lidar com coisas sofisticadas intelectualmente.”

Se o compromisso não for devidamente selado nesta conversa franca, sempre haverá a mais poderosa das armas de persuasão de um treinamento: o exemplo. Afinal, com tantas lutas no currículo, Barreto só foi parar no hospital uma única vez, e, assim mesmo, dias depois de sair do tatame. “Era só uma costela quebrada.”

Foto: Régis Filho




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