De casa em casa

Edemir Pinto

Retrato/Edição 119 / 1 de julho de 2013
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Dez mil pessoas. Edemir Pinto recebe o bilhetinho das mãos da secretária com a estimativa de manifestantes a poucos metros do prédio da BM&FBovespa, em mais um protesto contra a elevação das tarifas de transportes na capital paulista. O presidente da maior bolsa de valores da América Latina não parece preocupado. O fim do expediente foi antecipado, o prédio está vazio e alguns poucos assessores monitoram a situação nos arredores; embora tenha transformado sua imagem nos últimos anos, a Bolsa sempre pode ser alvo de manifestações desse tipo.
No fim da entrevista, saberemos que o número de pessoas quintuplicou, um carro foi incendiado a 500 metros, mas o prédio da BM&FBovespa seguiu incólume: a fúria era direcionada à prefeitura. “Não temos tédio aqui. Um dia nunca é igual ao outro. É muita emoção”, diz Edemir, referindo-se não a protestos contra a entidade — raros —, mas à sua própria agenda. Naquele dia 18 de junho, véspera da reunião do Federal Reserve (Fed), o Ibovespa havia caído 3,18%, para 47.893 pontos, e a Votorantim Cimentos acabara de cancelar aquela que seria a segunda maior oferta inicial de ações do País este ano.
A manifestação pega fogo, mas Edemir não tem pressa. Sempre trabalha até tarde e ainda enfrenta uma hora e meia de estrada até Campinas, onde mora. Só no fim de semana consegue aproveitar o conforto da casa construída com capela (é muito religioso) e sala de cinema (para rever O poderoso chefão, de Francis Ford Coppola). Casa muito diferente de sua primeira moradia em São Paulo: uma quitinete na Rua Eça de Queiroz, 58. “Pra mim era um apartamento pequenininho, que cabia no meu salário e ficava na Vila Mariana, bairro que disseram ser muito bom. Só depois descobri que era uma quitinete na divisa com o Paraíso”, conta, entre risos.
Se foi um difícil começo, como na música de Caetano Veloso, o jovem de São José do Rio Preto, situada a 447 quilômetros de São Paulo, não reclamava. Trabalhava duro, como hoje, e como fazia no emprego anterior, ainda em Rio Preto: um escritório de contabilidade em que entrou aos 13 anos como office boy e chegou a sócio. Nos primeiros anos de “serviço”, entregava o salário inteiro para os pais, um “casal da roça”, seguindo o exemplo dos três irmãos mais velhos. Dos quatro garotos, três conseguiram cursar faculdade, e Edemir escolheu economia por já estar trabalhando com números. Quando percebeu as limitações do escritório e de sua cidade natal, pegou os classificados do Estadão e enviou currículos para a Editora Abril e a 3M. Selecionado, assumiu a vaga de supervisor de controladoria da editora, alugou o apartamento de um cômodo e trouxe para a cidade grande a esposa e a filha de dois anos.
“Só tive três empregadores na vida”, recorda Edemir, casado com a mesma esposa há 35 anos, e agora com uma segunda filha adolescente. Sorri do comentário sobre a estabilidade nos empregos e ressalta que a decisão de sair da Editora Abril para começar a BM&F do zero fugiu bastante ao seu perfil conservador. “Eu já era diretor na Abril, não conhecia nada de bolsa de futuros e aquilo parecia algo incerto”, conta. Mas quando Dorival Rodrigues Alves, diretor-geral da nova instituição, apresentou-lhe o projeto, alguma coisa aconteceu em seu coração de migrante.
“Na faculdade, pegamos um [ônibus] Cometa, que considerávamos um luxo, para vir a São Paulo ver a Bolsa, tirar foto”, recorda-se. “Na Abril, como eu fazia o controle das aplicações do grupo, de vez em quando vinha olhar as ações guardadas no cofre. Hoje percebo que sempre tive um interesse meio inconsciente pela Bolsa.” E qual foi a emoção de pisar nela quando ainda era estudante? “Não havia visitação naquela época [hoje são 500 visitantes por dia]. Era só para tirar foto da fachada.” A fachada, salienta, era do prédio da rua Álvares Penteado, onde a Bolsa funcionava na época, e não onde estamos agora, ouvindo o barulho de helicópteros que filmam a manifestação.
Na BM&F, Edemir chegou como gerente de cadastro, mas logo assumiu a diretoria de clearing, que perceberia ser a mais estratégica. “O pregão é algo simbólico para uma bolsa, bonito, mas é na pós-negociação que estão as garantias e os controles. É lá que as fraudes podem acontecer.” Com o novo salário, ele saiu finalmente da rua Eça de Queiroz. Isso porque, depois da quitinete, ele e sua família haviam se mudado para dois outros endereços na mesma via: primeiro um apartamento de dois dormitórios, depois um sobrado, onde podiam fazer um “churrasquinho” como em São José do Rio Preto. “O salário aumentava e eu melhorava de casa”, brinca.
Com fama de “vender geladeira para pinguim”, Edemir chegou a convencer o proprietário do sobrado a alugar o imóvel sem fiador; com a mesma conversa envolvente, conseguiu cadastrar armazéns, fundidoras de ouro e corretoras no início da BM&F. “Tenho essa imagem de negociador, mas acho que importante mesmo é você gostar do que faz e ter bom senso”, acredita. Seja como for, o somatório de habilidades acabou alçando-o à diretoria-geral da Bolsa depois da morte de Dorival,em 1999, e a um papel estratégico no processo de fusão com a Bovespa, nove anos mais tarde.
Os helicópteros continuam rondando a região. Edemir já havia feito uma interrupção para atender um telefonema do presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Leonardo Pereira. A entrevista está chegando ao fim. Ele elogia a espontaneidade dos protestos, lamenta os vandalismos que ainda não sabe estarem acontecendo logo ao lado, e destaca sua esperança de que a mobilização se reverta em qualidade do voto. “Já que estamos indo para as ruas, quem sabe agora vamos escolher melhor.” Afinal, foi graças à democracia que o presidente da Bolsa chegou aonde chegou.




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