Consultor de vida

Renato Bernhoeft

Retrato/Edição 120 / 1 de agosto de 2013
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O fundador diz que construiu a empresa para os filhos, mas não consegue transferir o poder para eles nem profissionalizar a gestão. Já o alto executivo, aposentado, pede crachá para continuar frequentando o ambiente de trabalho e mantém conta bancária na agência interna como pretexto para as visitas. Essas e outras histórias fazem parte da coleção de “causos” do consultor Renato Bernhoeft e costumam rechear suas palestras e livros. A plateia e os leitores adoram, se identificam. Porém, poucos sabem que ele próprio, fundador de uma das primeiras consultorias voltadas para empresas familiares no mundo, se tornou também um “case”: aos 70 anos, vivenciou em sua prática pessoal as questões relacionadas a sucessão e longevidade recorrentes entre os clientes.

Como Bernhoeft está em forma, graças à disciplina germânica de exercícios diários, pergunto se os cuidados com a saúde e os avanços da medicina não postergam essas questões atualmente. “Ao contrário”, ele responde. “A vida está se alongando e as carreiras estão se tornando mais curtas. As obsolescências vêm cada vez mais rápido. Há profissões e atividades que ficam obsoletas por causa do impacto tecnológico ou da globalização, por exemplo. É preciso não se apegar, se reinventar. E quando digo ‘reinventar’, estou me referindo ao conjunto, ao todo, não só do ponto de vista profissional.”

Na conversa com os clientes, o consultor frequentemente pede que relatem a sua história. No final,
falará da importância de se apropriar da própria biografia, não confundi-la com a carreira nem com a empresa, e ter projetos. De certa forma, é o que ele faz nesta entrevista, embora sua história seja menos convencional que a da maioria dos clientes que atende (como já cuidou da própria sucessão, hoje só conversa com alguns fundadores, os “de cabelos brancos”). A biografia, aqui, se delineará também sob o impacto de uma viagem ao redor do mundo, sonho de infância que acabou de realizar.

Não que o jovem Renato, ao sair de casa com apenas 16 anos, soubesse exatamente aonde queria chegar. “Queria apenas dar no pé”, diz ele, entre risos, desconfiando de que fugia da personalidade forte do pai, imigrante alemão, pastor e diretor da escola em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul. Mais velho de cinco filhos, ele fugiu das raízes mas escolheu igualmente formar uma família grande: hoje também tem cinco filhos, além de cinco netos (mais um par de gêmeos a caminho), e a mesma esposa há 47 anos. “Não fomos feitos um para o outro”, trata de ressaltar. “Somos muito diferentes: ela é peruana, eu tenho essa origem germânica; nossa relação é um processo de construção diária.”

É assim, meio que desconstruindo qualquer tentativa de se idealizar uma biografia, que Bernhoeft vai se apropriando da sua. Sobre sua formação, por exemplo, brinca que foi uma “deformação”. Na verdade, ele é um autêntico autodidata, formado pelas leituras intensas desde a infância e pelas experiências acumuladas após ter saído da cidade natal.
De Novo Hamburgo, Bernhoeft foi para Porto Alegre, trabalhar numa livraria e prestar serviço militar, e depois para Curitiba, vender máquinas de escrever Remington. Gostar de ler e escrever, aliás, é algo que ele reconhece como fundamental em sua trajetória.

Com apenas 19 anos, se ofereceu para ser voluntário em povoados rurais no México, num projeto promovido por pacifistas americanos e apoiado pela Unesco. Ficou por lá quatro anos, convivendo com pessoas de seis nacionalidades diferentes e trabalhando no processo de melhoria da renda familiar da região. Voltou transformado pela experiência.
No Brasil, resolveu morar em Belo Horizonte e acabou trabalhando como repórter nos principais diários da cidade. Quando jornalistas começaram a ser demitidos por pressão do regime militar, aceitou um convite da mesma organização dos projetos no México. Desta vez, o trabalho seria remunerado e em comunidades urbanas no Peru. Passados três meses no país,
estava casado. “Minhas três primeiras filhas nasceram lá, cada uma numa cidade diferente”, conta.

Depois de idas e vindas entre o Peru e o Brasil, entre ONGs e o jornalismo, Bernhoeft começaria uma carreira na área de treinamento e recursos huma-nos de grandes companhias (“ficava pouco tempo em cada uma, o que era malvisto na época”), enquanto escrevia artigos para revistas sobre suas leituras e observações. “Dizem que tenho uma certa sensibilidade sociológica, psicológica ou filosófica, mas eu me considero apenas um cronista, contador de histórias. O que escrevo é sempre produto de alguma observação e da experiência de conviver com culturas diferentes”, diz o consultor, autor de 14 livros.

O primeiro livro foi sobre administração do tempo, no entanto logo ele se interessou pelas empresas familiares e percebeu a ausência de abordagens não acadêmicas sobre o tema. Dos primeiros artigos vieram os livros, depois os seminários, e então a sua própria consultoria. Mesmo incerto sobre o futuro da empresa (“chamavam de butique, eu dizia que era boteco”), ele preferiu criar os filhos para empreenderem seus próprios negócios. Quando a mais nova quis trabalhar com o pai, achou prudente contratar um executivo como gerente-geral, pensando na profissionalização da consultoria e no encaminhamento da sua sucessão. “Mas nem tudo na vida a gente controla”, afirma: a filha acabou se casando com o gerente, depois de ambos desfazerem seus respectivos casamentos.
Hoje, na Höft – Bernhoeft & Teixeira, acompanhado de uma equipe de 20 pessoas, ele ocupa a presidência do conselho de sócios. A direção-geral está nas mãos do genro, Wagner Teixeira, que estruturou o antigo “boteco”, com direito a uma sede nova. “Mas dei uma de fundador e impus três condições: que eu pudesse comprar o imóvel, que fosse perto da minha casa, e que o número de telefone não mudasse.”
Como Bernhoeft havia feito uma distinção, no início da entrevista, sobre o processo de aposentadoria de um fundador e o de um executivo (ambos precisam de projetos, mas o empresário sente falta do antigo poder), pergunto como ele lida com essa questão: “Meu poder está em ter um certo grau de visibilidade, por causa dos conteúdos que continuo produzindo, além de trabalhar com alguns clientes da América Latina. São coisas de que gosto e que me suprem, porque a empresa de fato está nas mãos deles”. Nesta casa de ferreiro, o espeto foi de ferro mesmo.


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