Consertos gerais

Claudio Pracownik, diretor do grupo financeiro Brasil Plural: “A vida inteira eu consertei coisas, fiz turnarounds”

Retrato/Edição 140 / 1 de abril de 2015
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retratoDomingo, jogo no Maracanã. Como faz desde os 10 anos de idade, Claudio Pracownik, diretor do grupo financeiro Brasil Plural, prepara-se para assistir à partida de futebol. Veste a camisa rubro-negra personalizada (às costas, no lugar do próprio nome, está o do tranquilizante Rivotril) e segue para o estádio. Em vez de se acomodar em sua cadeira cativa — o bem material cuja compra mais lhe trouxe satisfação na vida, à frente do primeiro carro ou imóvel —, Pracownik é escoltado por seguranças até o camarote, onde estará distanciado da emoção da torcida. Com sorte, se o Flamengo ganhar de goleada, não será xingado na saída.

“Vida de dirigente é assim mesmo”, conforma-se o vice-presidente administrativo do clube, que há dois anos concilia o cargo com o comando operacional do banco Brasil Plural. E acrescenta a primeira das muitas piadas e autoironias da entrevista: “Já estou acostumado a não terem muita simpatia por mim: sou judeu, advogado, banqueiro e cartola de futebol. Quer mais?”

À lista, ele poderia ter acrescentado o apelido que ganhou ao executar o maior turnaround de sua carreira, quando estava no banco Bozano, Simonsen: Vampiro. Tudo porque, durante a reestruturação e recuperação financeira do banco Meridional, que seria comprado pelo Bozano e depois revendido para o Santander, Pracownik deu para implicar com os crucifixos expostos na entrada principal de muitas agências no Rio Grande do Sul. Mandava tirar e colocar um banner no lugar, mas os empregados mais religiosos resistiam. Como o temiam — ao longo do processo, demitiu 4 mil dos 9 mil funcionários (“era um cabide de empregos”) —, logo criaram um ritual de retirar os crucifixos às pressas sempre que o Vampiro aparecesse. À época, recorda-se, o enfrentamento com o sindicato dos bancários era tão frequente que ele chegou a sair disfarçado de uma agência de bigode falso e boné, para ultrapassar o piquete. “Já liderei muitos turnarounds. Não me importo de tomar medidas duras, fazer demissões, se isso for o certo. O que não pode faltar é o respeito pelo ser humano. Demito com a mesma consideração com que contrato.”

Pracownik descobriu que gostava de lidar com gente e recursos humanos quando era adolescente e iniciou-se na obra de Sigmund Freud. Ao mesmo tempo, garoto ainda mirrado para a idade (só foi encorpar aos 17 anos, quando cresceu 18 centímetros em 12 meses), achou prudente desenvolver ferramentas de persuasão e convencimento para evitar brigas. “Aprendi a fazer as alianças corretas e acabei numa posição de liderança na vida estudantil. Daí para o direito foi um pulo.”

Quando estava no último ano de direito da Uerj, sua namorada (que viria a ser a primeira esposa) mostrou-lhe o anúncio no jornal: “Procuram-se cérebros. Envie seu currículo resumido”. “Me identifiquei, mas não gostei da história de resumir. Como ia colocar tudo o que já tinha feito até os 21 anos em meia página?” Pracownik mais uma vez brinca, porém falando a verdade. Ele já tinha estudado dez anos de piano clássico e trabalhado como monitor de teatro; em seu segundo estágio durante a faculdade, numa administradora de imóveis, conseguiu aumentar o próprio rendimento de 1 para 15 salários mínimos depois de pedir ao dono para reestruturar a empresa. “Eu era meio arrogante nessa época.”

Ao entrar no emprego anunciado pela Pactual, uma distribuidora de valores em vias de se transformar em banco, ele aceitou voltar ao salário mínimo para fazer parte do time. Na entrevista, conheceu o então diretor administrativo Eduardo Plass, que se tornaria seu guru e amigo pessoal. “Gostei da conversa dele na hora”. Da área jurídica, foi deslocado para a de projetos especiais e, mais tarde, para o setor administrativo. Aos 24 anos, já era sócio. Em dois anos, tornou-se diretor de operações (ou COO, sigla para “chief operating officer”) do banco. Foi difícil se adaptar à cultura do Pactual? Diante da pergunta, Pracownik me diz: “Você não está entendendo. A cabeça deles é a minha hoje em dia, porque eu fui reforjado lá dentro, renasci. E, de certa forma, ajudei a criar essa cultura: montei o RH e depois fiquei responsável por todas as áreas de back office”.

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Embora fazer parte do boom de bancos de investimentos nos anos 1990 tenha sido suficiente para engordar a conta bancária e coroar o currículo, ele continuou acumulando experiências diferentes, sem conseguir cumprir os planejados anos sabáticos. Por exemplo: após pedir para sair do Pactual, durante uma disputa societária, foi malhar em academia, aprender a tocar violão e até furou a orelha. Bastaram três meses para estar de volta ao batente, no Bozano, Simonsen. Quando o Meridional foi vendido, acabou assumindo a vice-presidência de meios do Santander, onde ficou por apenas um ano. Desta vez, o plano era se afastar do mercado financeiro, reestruturando empresas familiares a partir de seu próprio escritório de advocacia. Mais quatro anos e lá estava ele de volta, como diretor-executivo da Ágora Corretora.

Foi depois de outra experiência em reestruturação, como vice-presidente administrativo financeiro da Brasif, que apareceu o convite dos antigos colegas do Pactual, André Schwartz e Rodolfo Riechert, para ajudar a transformar a pequena asset Brasil Plural num grupo com banco e corretora, no ano de 2011. “A vida inteira eu consertei coisas, fiz turnarounds. Foi fantástico começar tudo do zero, do jeito certo.” Isso sem falar de outra vantagem do novo trabalho: dos oito integrantes do comitê executivo, seis são rubro-negros, incluindo os dois controladores. “Eles entenderam bem quando atendi ao chamado do Flamengo.” Quanto aos dois outros membros, foram obrigados a aceitar a situação, brinca Pracownik: “Temos uma cota minoritária de dois tricolores”. Se depender de sua habilidade de persuasão, quem sabe eles ainda “virem a casaca”.

Foto: Aline Massuca


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