Cinco vidas

Victor Eduardo Báez, fundador da Heartman House: “A medicina vai nos levar até os 140 anos. Temos que pensar seriamente em uma segunda carreira.”

Retrato / Edição 145 / 1 de setembro de 2015
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Foto: Régis Filho

Foto: Régis Filho

Em uma de suas quatro vidas, Victor Eduardo Báez começou querendo ser papa ou diplomata, e acabou como um disputado consultor de planejamento estratégico. Só esta primeira vida encheria um perfil inteiro. Mas o fundador da Heartman House ainda tem três outras trajetórias paralelas para dividir o mesmo espaço: uma história igualmente excitante com os esportes, outra com a fotografia e uma quarta como membro de uma ordem mística. No final, descobrimos que Báez ainda planeja… uma quinta vida! “Vou viver até os 140 anos”, diz. Ele não está brincando.

O menino que queria ser papa nasceu 63 anos atrás em Mendoza, na Argentina, onde o pai arrendava e administrava fazendas de gado e de cultivo de frutas. Quando vinha a geada, tudo se perdia, mas a fartura era certa sem as intempéries. Em contraponto, a mãe tinha uma profissão estável e valorizada na região, a de professora do Estado, que exerceu por 35 anos. “Tive uma formação dentro dessas duas visões: metade riscos compensados, metade conservadorismo, planejamento e pé no chão.”

Se a mãe era muito religiosa, a ponto de acreditar na improvável hipótese de um papa argentino, o pai não quis saber dos apelos de Victor para fazer o seminário, insistentes depois que o garoto leu As sandálias do pescador, de Morris West. Queria o filho fazendo agronomia. Quando voltou de um ano de intercâmbio nos Estados Unidos, pensando em ser diplomata para promover a paz mundial, novamente enfrentou a resistência paterna. “Morei com uma família americana durante a guerra do Vietnã”, conta ele. “Todas as noites rezávamos pelas tropas dos Estados Unidos e do Vietnã, para que ninguém se machucasse. Cheguei a ver um colega voltar da guerra dentro de um saco plástico.”

Depois de “perder a briga” com o pai, Báez foi cursar agronomia e enologia. Gostou. Trabalhando como enólogo numa vinícola, foi convocado para tomar conta da destilaria de conhaque quando o responsável morreu. Como os equipamentos eram antigos, de cobre, ele propôs a troca por aço inox, e fez uma encomenda a uma empresa de engenharia de Buenos Aires. Acompanhou tão de perto a fabricação dos equipamentos que a fornecedora o convidou a participar de um projeto encomendado por um parceiro brasileiro: um evaporador de suco de laranja. Veio ao Brasil temporariamente, mas quatro meses depois já buscava a mulher e o filho de dois anos para fazer carreira como gerente industrial no País.

Mas estamos ainda em 1987, e a primeira vida de Báez ainda lhe reservaria grandes oportunidades: ser contratado pela Coopers & Lybrand (atual PwC), como gerente de consultoria de manufatura, e, depois de dez anos, já como sócio, ser chamado para ajudar a montar o escritório da Galeazzi & Associados. “Aprendi muito com o Cláudio [Galeazzi], um mestre em reestruturação”, diz. Durante quatro anos, ele participou de reestruturações emblemáticas da “cultura GP” (Lojas Americanas e ALL, por exemplo) até montar a própria consultoria, a Heartman House, em 2001, com clientes indicados pela segunda geração de gestores da GP Investments, como Fersen Lambranho e Antonio Bonchristiano. “Com nossos clientes atuais reproduzimos, sim, essa cultura ganhadora”, confirma Báez. “Mas aprendi que a meritocracia tem hoje uma versão 2.0, suavizada e apropriada para boa parte das empresas.”

A segunda vida de Victor Báez começou quando ele era um jovem esgrimista desembarcando em Wisconsin, nos Estados Unidos, para fazer intercâmbio, e descobriu que o sabre e florete na mala não seriam usados naquele ano. Ninguém conhecia o esporte. “Aí pratiquei atletismo e tentei basquete, futebol americano e basebol. Mas só me dei bem com o hóquei no gelo, que jogávamos como se fosse uma pelada, nos lagos congelados. Também me destaquei no wrestling (luta livre), que estava começando.”

A busca por um esporte do coração continuaria mais tarde, quando ele já estava estabilizado na carreira em São Paulo. Aprendeu a montar, saltar e logo estava competindo na modalidade dressage, como é conhecido o adestramento no hipismo. “Um amigo foi ver a minha competição e disse: isso é muito chato; você tem que jogar polo.” Assim, finalmente, Báez apaixonou-se por um esporte, praticado com afinco nos últimos 20 anos.

Na última vez em que ele fraturou um osso, em maio, a esposa deu-lhe um ultimato: que passasse somente a “taquear” a bola, sem jogar o polo. “Já quebrei várias vezes costelas, as duas clavículas, esterno, dedos do pé, da mão. Cada vez que você cai no polo, quebra alguma coisa. Aí conserta o osso e volta a jogar, porque é viciante.” Báez cumpriu a ordem da mulher. E, dessa forma, pode se dedicar mais às suas outras duas vidas.

A terceira vida de Báez também começou na juventude, quando ele fez um curso de fotografia com o reitor de seu colégio, um padre jesuíta “magnético” — além de fotógrafo, ele era astrônomo e ufólogo. Saiu fotografando, primeiro com a câmera dos pais argentinos, e depois, no intercâmbio, com a dos “pais americanos”, até economizar e comprar a sua própria Yashica. Ganhou dois prêmios de fotografia, chegou a trabalhar numa agência de publicidade, e hoje é especialista em clicar a fauna do hemisfério norte: ursos, lobos, linces, búfalos. Mas isso não é perigoso? “Eu e minha mulher fazemos cursos antes de fotografar. Já fizemos cursos de gerenciamento de ursos e de lobos.
É preciso conhecer bem o seu objeto na fotografia.” As viagens de aventura para locais frios tornaram-se hobby do casal, que neste ano fotografou a aurora boreal no Canadá a uma temperatura de 41 graus negativos.

Se estuda para conhecer ursos e lobos, o consultor também é um aplicado “estudante Rosacruz”. Em sua quarta vida, a espiritual, Báez segue a escola de misticismo fundada pelo faraó Akhenaton há 3,3 mil anos. Começou sua iniciação em 1983 e hoje está no último dos 15 graus da ordem, frequentando a loja localizada na rua Borges Lagoa, em São Paulo. “Eu consigo ajudar mais pessoas conhecendo as leis que regem o universo”, diz ele. “Para nós da Heartman House, por exemplo, o dinheiro é consequência: queremos ajudar nossos clientes e fazer um Brasil melhor.”

Será que existe algum outro aspecto de sua vida do qual não falamos? É quando Báez surpreende e conta seus planos para o futuro: agora, que chegou aos 63 anos, pretende estudar direito e ser árbitro de conflitos internacionais. “A medicina vai nos levar até os 140 anos. Temos que pensar seriamente em uma segunda carreira.” Segunda?

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Rotina – Faz esteira pela manhã, antes de ir ao escritório. Além de atuar na Heartman House, participa de quatro conselhos de administração: Santa Bárbara (grupo Opportunity), grupo Soma (marcas Animale e Farm), Integralmédica (suplementos nutricionais) e grupo Sol Panamby. “Às 19h30 vou jantar em casa e ver televisão com a minha mulher. Sempre leio durante uma hora antes de dormir, às 22h.”

Leituras – Está lendo no Kindle, ao mesmo tempo, quatro livros: Homo sapiens, de Yuval Harari; Boards that lead, de Ram Charan; The outsiders, de William Thorndike; e Thinking, fast and slow, de Daniel Kahneman.

Livro marcante – A meta, de Eliyahu Goldratt. “Era um físico israelense que introduziu os conceitos de ciência na administração fabril. Eu fazia consultoria para manufatura na época.”

Melhor momento – Quando foi convidado para ser sócio da Coopers & Lybrand, no terceiro ano de casa, quando a tradição era esperar sete anos. “Foi um reconhecimento inesperado.”

Momento mais difícil – Quando a esposa saiu de casa com os dois filhos. “Éramos jovens, ela brigou comigo e foi embora. Foram seis meses infernais, queria me suicidar. Aí consertei minha vida e a trouxe de volta.” Estão casados há 44 anos, com um filho de 41 e uma filha de 37.

Momento mais delicado – Quando foi preso pela ditadura argentina, em 1976, porque era militante estudantil e representante sindical. “Um tio conseguiu me soltar e aí surgiu a oportunidade de morar no Brasil. Nunca mais voltei. Me considero totalmente brasileiro.”

Uma fotografia – A de uma rena sendo acossada e morta por um grupo de 15 lobos. “Estávamos a uns 40 metros de distância.”

Um arrependimento – Abrir mão de duas consultorias: para a Brahma, chamado por Marcel Telles, por achar que não havia clima organizacional (“hoje eu estaria em Ambev, Inbev, no mundo inteiro”), e para a Gafisa, chamado por Duílio Calciolari, porque não era o seu foco na ocasião.

Plano para o futuro – Ser árbitro de direito internacional. “Outra faculdade vai ser interessante.”




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