Causa sem cliente

Walfrido Warde Júnior, sócio do Lehmann, Warde & Monteiro de Castro Advogados: “Se vejo algo que posso fazer para ajudar o meu país e não faço, estou me omitindo”.

Retrato/Edição 142 / 1 de junho de 2015
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retrato1“Não seja uma figura quixotesca”, costuma aconselhar Danielle, esposa de Walfrido Warde Júnior. Mas não adianta. Quando ela se dá conta, o marido e sócio do escritório de advocacia Lehmann, Warde & Monteiro de Castro já está envolvido em alguma luta típica do personagem de Cervantes. Nos últimos meses, foi a vez de o jovem advogado ganhar destaque em meio ao vasto noticiário sobre o escândalo de corrupção na Petrobras, ao propor, em detalhes, uma “solução de mercado” para ressarcir a estatal, devidamente encaminhada a representantes do governo. Agora, ele vai transformá-la numa obra sobre o capitalismo de Estado brasileiro e seus defeitos.

Será o décimo livro. Como em outros projetos e artigos técnicos que o mobilizaram anteriormente, não há um cliente por trás da iniciativa. “O direito comercial é o posto avançado de observação do poder econômico; advogar nessa área me coloca em uma posição privilegiada”, justifica Warde, que também é filósofo de formação e pinta quadros nas raras horas vagas. “Se vejo algo que posso fazer para ajudar o meu país e não faço, estou me omitindo. Como diz Dante, na Divina comédia, o círculo mais profundo do inferno é reservado aos traidores da pátria, e quem se omite também é traidor.”

Antes da proposta de ajuda à Petrobras (em que os controladores das empreiteiras ressarciriam a estatal por meio da venda de suas ações de controle, levadas a leilão pela União), Warde já havia se notabilizado por pelo menos duas outras “causas sem cliente”. A coautoria do Projeto de Lei 4.303, em 2012, que cria um regime especial para a sociedade anônima simplificada e está em discussão no Congresso Nacional. E a publicação de um artigo sobre financiamento de campanha política que serviu de base para o voto do ministro José Antonio Dias Toffoli na Ação Direta de Inconstitucionalidade 4.650, em tramitação no Supremo Tribunal Federal. “A sociedade empresária não pode se engajar em obrigação de mero favor, só em trocas econômicas. Por isso, a doação de campanha é incompatível”, resume, ressaltando que escreveu o artigo ainda em 2007, quando fazia uma de suas incursões de estudos no Instituto Max Planck, em Hamburgo, na Alemanha.

Como Warde já havia mencionado sua preocupação com o país onde crescerá a filha de 8 meses, a repórter o induz a uma explicação para o idealismo. Tanta atividade institucional é pelo futuro de Nina? “Sim, por causa dela.” E logo corrige: “Seria mais honesto dizer que é menos por causa da minha filha e mais por causa do meu superego, meu projeto de ser humano, de não querer aos 80 anos me olhar no espelho e ver alguém que só acumulou coisas”.

Como bem sabem os amigos próximos, é difícil colocar Walfrido Warde dentro de qualquer caixinha, incluindo a de idealista. Perguntado sobre suas qualidades, ele cita uma (a lealdade aos amigos) para em seguida desfiar uma série de defeitos (“Se não me controlo, sou soberbo, arrogante, compulsivo, perco a paciência, sou perdulário”). Sempre que seu interlocutor encontra a zona de conforto de uma ideia ou rótulo conhecido, ele trata de “pensar fora da caixa” e surpreender quem está à volta. “Sou um semilouco, meio bipolar, mas não a ponto de tomar remédio”, diz, entre risos. “Às vezes pareço excêntrico, porque meu pensamento vai para todos os lados.”

Rótulos abandonados, resta à entrevistadora investigar o caminho percorrido por Warde em seus 41 anos. De uma família de comerciantes libaneses, ele cresceu vendo a mãe e a avó administrarem um negócio de tecidos deixado pelo avô. Embora longe do pai advogado, que se separou da mãe quando o filho era bebê, conservava a ideia do trabalho na advocacia. A carreira tornou-se solução para um impasse: “Eu gostava da área de humanas e queria fazer faculdade de filosofia. Mas concluí que como filósofo ia passar fome por muito tempo”, brinca. “No fim, combinei os dois lados da família: a advocacia com as relações comerciais, que sempre achei muito vibrantes.”

O gosto pelos estudos, cultivado desde quando era garoto (“gordinho, com espinhas, sem namorada, cercado de livros e escrevendo contos numa máquina Olivetti eletrônica”), permaneceu. Warde hesita em dizer com quantos anos começou a ler livros de filosofia (“parece pretensioso”). O fato é que a graduação em direito na USP, o mestrado na mesma área pela Universidade de Nova York e o doutorado em direito comercial, também na faculdade do Largo de São Francisco, não o afastaram das preferências intelectuais ampliadas. Recém-formado em direito, entrou em filosofia na USP e conciliou a faculdade com a pós-graduação. Mesmo durante o curso de direito, chegou a estudar um semestre de filosofia em Harvard. “O dinheiro acabou e precisei voltar”, conta.

Na São Francisco, descobriu-se fascinado pelo direito privado. “Depois percebi que não existe diferença entre direito privado e público no Brasil, porque o Estado está em tudo.” A influência de seu orientador no doutorado, o professor Fábio Konder Comparato, foi marcante: “A ideia de ser um comercialista e manter, ao mesmo tempo, interesse pelo País, pela política e pelas instituições certamente foi inspirada na conduta profissional dele.”

E quanto à faceta criativa, que inspirava o jovem recluso a batucar em sua Olivetti? Foi parar nas pinturas? “Eu trouxe totalmente para a advocacia. É esse meu lado que faz algumas pessoas acharem que penso diferente.” Warde prefere não falar sobre suas telas; encerra o assunto com uma última piada: “Só minha mulher gosta do que eu pinto, e, assim mesmo, às vezes!” Brincadeira ou não, a opinião de Danielle parece sempre relevante: “Sem dúvida. Ela pôs equilíbrio na minha semiloucura”.

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Foto: Régis Filho




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