Amor à diversidade

Andrea Chamma

Retrato/Edição 116 / 1 de abril de 2013
Por 


Mulheres não são boas negociadoras. Andrea Chamma faz a observação, fruto dos seus 27 anos de atuação na área financeira, para depois animar as executivas reunidas em treinamento: é possível aprender isso; existe técnica. Uma das mulheres do grupo resiste. “Ah, eu sou assim, é o meu jeito.” Prontamente, a managing director da área de equity sales do Bank of America Merrill Lynch reage: “Se você não é Gabriela cravo e canela, não existe essa história de ‘eu nasci assim e sou mesmo assim’. Tem que aprender. Ou, então, voltar para Ilhéus”.

Com cabelos avermelhados e fogo no nome, a administradora Andrea Chamma é conhecida pelo estilo direto e pelos almoços que promove há 15 anos com mulheres da área de equity research. Se a assertividade não é considerada característica típica feminina, Andrea está no mercado para provar que “Gabrielas” só existem na ficção — ou, por opção. “Ao longo da minha carreira, fui aprendendo com as dificuldades e queria que outras mulheres não repetissem os mesmos erros. Muitas vezes elas precisam adotar uma forma de comunicação e uma conduta diferentes do que acreditam ser a sua natureza. Na verdade, tudo isso tem menos relação com a natureza e mais com a forma como foram educadas.”

Um exemplo é a crença comum entre as mulheres de que serão “resgatadas”: se ela trabalhar duro, alguém vai perceber e promovê-la. “É como no conto de fadas, em que surge um caçador ou príncipe quando ela está numa situação difícil. Enquanto isso, a mulher continua lá, com a mesma atitude”, indigna-se a executiva. Seja no treinamento dos comitês de diversidade montados por ela no banco, nos almoços informais com mulheres do mercado ou numa palestra em Moscou para executivas, Andrea não as deixa esquecer: “A questão não é ser boa ou má menina; a questão é o business: a mulher precisa buscar o caminho do meio, do equilíbrio, mas gerando valor para a empresa”.

Antes de ser escolhida como responsável pela área de diversidade do Merrill Lynch em 13 países emergentes, há dois anos, Andrea aprendeu a dosar os momentos em que bateria o pé com aqueles em que seria preciso negociar — sem esperar ser resgatada por príncipes. Seu percurso se fez a partir de muita observação e de um aprendizado precoce sobre diferenças culturais. Quando criança, ela mudava de cidade para acompanhar o pai engenheiro nas grandes obras dos anos 1970, se adaptando aos costumes de lugares tão diversos como Sobradinho (BA), onde era construída a barragem de uma hidrelétrica, Carajás (PA), ou Rio de Janeiro, na época em que a ponte Rio – Niterói foi erguida. Na juventude, decidiu ser voluntária no Children International Summer Village (CISV), um programa social americano filiado à Unesco que se dedica a promover a paz pelo mundo.

Entre as muitas experiências na entidade, foi monitora em acampamentos na Noruega e na Austrália que reuniam 40 crianças de dez países durante um mês. “As coreanas comiam uns chips de peixe e todos reclamavam do cheiro. Fui fazendo amigos e percebendo que os preconceitos estavam relacionados à história e à origem de cada um. O diferente não era melhor nem pior, era apenas diferente.” Contratada como trainee do Citibank, depois da graduação na Fundação Getulio Vargas (FGV), ela faria parte de uma minoria feminina de analistas no ambiente predominantemente masculino do banco. Conviveu com os gritos e telefones batidos da tesouraria (“era assim nos anos 1980”) até ser atraída para a área de mercado de capitais, em que havia mais mulheres. “Percebi que precisava copiar as mulheres, não os homens”, conta.

“Copiei muito na minha vida”, acrescenta Andrea, divertida, demorando-se na palavra “muito”. Mais adiante, ela novamente quebra as expectativas de uma entrevista sobre carreira, como faz em palestras e treinamentos: “Fui uma das pessoas mais despedidas que você já conheceu”, exagera, referindo-se às três ocasiões em que a estrutura na qual trabalhava, em bancos internacionais, foi afetada por crises e pacotes econômicos. “Vivi várias vezes a situação de chamarem todo mundo numa sala para dizer que estavam fechando a área. Havia uma crise, o governo aumentava os juros, o mercado de ações despencava, as estruturas não se pagavam.”

Depois de estudar sobre diversidade e questões femininas, ela acredita que seu interesse inicial por mercado de capitais possa ter relação com o fato de a mulher ter um cérebro mais multidirecional que o homem. “É preciso considerar muitas variáveis quando se está projetando o preço de uma ação”, explica. Mas talvez uma história da infância também tenha influenciado sua escolha: Andrea comprou as suas primeiras ações, do Banco do Brasil, aos dez anos de idade. O pai havia presenteado cada uma das três filhas com uma quantia em dinheiro. A irmã mais velha torrou sua parte com roupas e joias, a do meio doou tudo para a caridade, e a caçula Andrea, depois de comprar um Snoopy, pediu ao pai uma indicação de investimento para o restante. “Quando ele me explicou sobre os dividendos, eu adorei aquilo!”

Aos 47 anos, 11 deles no Merrill Lynch, ela se dedica a dividir os lucros de seu aprendizado com mulheres e outros públicos que os comitês de diversidade do banco ainda vão abraçar. “Comecei pelas mulheres porque eu já organizava almoços e eventos com elas aqui no Brasil.” Oficialmente, trata-se de um trabalho voluntário, sem relação com a atribulada rotina de executiva que tem sua primeira reunião diária às 7h40. Vale a pena se ocupar tanto? “A melhor coisa é ver as pessoas se inspirando na sua experiência e evoluindo. Sem falar que eu adoro uma conversa de mulher. Porque mulher não quer falar só de trabalho, mas também de bolsa, cabelo, filho, viagem, saúde, estudo…” A entrevista, claro, foi uma das mais longas da coluna Retrato.


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