Revisão de teto de gastos ameaça bull market no Brasil

Se prosseguirem, austeridade fiscal e reformas tendem a manter mercado em alta

Bolsas e conjuntura/Reportagens / 14 de agosto de 2020
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Revisão de teto de gastos ameaça bull market no Brasil

Imagem: starline | Freepik

“A ideia de furar o teto [de gastos públicos] existe. Qual o problema?”, questionou o presidente Jair Bolsonaro em live na noite da última quinta-feira, 13 de agosto, dias depois de uma debandada no Ministério da Economia. Paulo Guedes recebeu pedidos de demissão dos secretários Salim Mattar e Paulo Uebel, responsáveis pela agenda de privatizações do governo. A preocupação do mercado com a manutenção da agenda fiscal e das promessas de reformas atingiu o ápice na quinta-feira, quando o Ibovespa registrou queda de 1,62%, fechando a 100.460 pontos. No mesmo dia, o presidente pediu compreensão e “patriotismo” do mercado caso o limite de gastos públicos seja superado em razão da pandemia.

A mudança de direção em favor do incremento nos gastos públicos pode impactar a taxa básica de juros, cuja baixa estrutural é a principal causa da recente alta na bolsa brasileira. Ao operar nas mínimas históricas, a Selic, atualmente em 2% ao ano, permitiu que o mercado de capitais caminhasse desconectado da economia, experimentando um período de bull market em meio à crise causada pelo novo coronavírus. “Pode parecer inusitado o mercado estar em alta durante uma pandemia, mas a bolsa está olhando para o futuro. É a precificação de uma recuperação mais acelerada do que prevíamos há alguns meses”, argumenta Guilherme Loureiro, sócio cofundador e economista-chefe da Trafalgar Investimentos.

Nada indica, no entanto, que a crise será branda. O mercado financeiro estima uma contração de 5,62% no PIB brasileiro em 2020, segundo as últimas expectativas medidas pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Já o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) têm projeções ainda mais pessimistas, e preveem, respectivamente, quedas de 8% e 9,1% do PIB do Brasil neste ano. Mesmo assim parece que a tormenta já passou para o mercado de capitais. O pior resultado do Ibovespa no ano foi em 23 de março, quando o índice marcou 63.570 pontos — de lá para cá o índice não só recuperou a marca dos 100 mil pontos como já teve quatro meses consecutivos de fechamento em alta.

A recente queda do Ibovespa demonstra, todavia, que o otimismo do mercado pode ser contaminado por uma mudança de conjuntura que favoreça gastos em detrimento da austeridade. “O Brasil entrou nessa crise já fragilizado, e precisa reforçar o compromisso fiscal para sustentar os juros baixos aliados a uma perspectiva de crescimento estrutural melhor”, defende Loureiro. A opinião é corroborada por Evandro Buccini, diretor de gestão de fundos líquidos da Rio Bravo Investimentos e colunista da CAPITAL ABERTO. “O teto de gastos públicos é a principal medida que sustenta a confiança no País. Sem esse recurso, estaríamos em um ambiente de receio muito grande com a solvência fiscal. Existe ainda a preocupação de que as necessárias medidas anticíclicas tomadas neste ano se tornem permanentes”, acrescenta.

Somadas todas as preocupações, a Rio Bravo se mantém cautelosa e espera um tombo em torno de 7% para o PIB neste ano, uma contração ainda maior que as médias das estimativas do mercado. Já a Trafalgar trabalha com um cenário mais promissor que o apresentado pelo Copom, em que a queda para a produção de 2020 fica em torno de 4,5% a 5%. Durante o encontro “Bull market, razões para se preocupar?”, realizado na última semana na Conexão Capital, Loureiro e Buccini apresentaram suas perspectivas para a economia e discutiram a tendência de alta da bolsa em meio à ameaça de recessão.

Desconexão entre bull market e economia

Quais são os motivos para a alta na bolsa se as perspectivas para a economia são tão duras? Como vocês avaliam o bull market em plena crise?

Evandro Buccini: O atual cenário para a economia é muito ruim, são quedas que não se costuma observar em tempos de paz. Mesmo os indicadores que já mostram uma certa recuperação ainda apresentam baixas relevantes em relação a igual período de 2019. Mas o mercado financeiro não vive do presente, e sim do futuro. Hoje as expectativas são de uma recuperação mais rápida do que esperávamos no início da crise. Esse fator, aliado a uma taxa de juros extremamente baixa, gera um grande fluxo de investimento para a bolsa. Ainda assim, na Rio Bravo temos uma visão cautelosa desse movimento. A economia está deteriorada e não acreditamos em uma recuperação rápida.

Guilherme Loureiro: Já na Trafalgar temos uma visão mais otimista. Esta é uma recessão extremamente aguda, mas a queda pode ser menos abrupta e a recuperação mais rápida do que esperávamos. Pode parecer estranho observar o mercado caminhando muito bem em meio a uma recessão, mas geralmente a bolsa funciona como um indicador antecedente. Em casos de crise, o mercado costuma apresentar queda antes dos indicadores econômicos e, quando a incerteza diminui, já apresenta sinais de melhora.

Ameaça de bolha

Os investidores estão otimistas demais? Estamos vivendo uma bolha na bolsa?

Loureiro: Não acreditamos que seja um cenário de bolha, existe um fundamento no bull market porque o mercado está observando um cenário de retomada mais adiante. O verdadeiro risco ocorre na hora de montar posições, porque o cenário precificado já está bastante positivo. Nesse caso, as expectativas de ganho já não são tão interessantes quanto eram quatro meses atrás.

Buccini: Concordo que não temos sinais de bolha, não parece haver um problema de alavancagem no Brasil. Mas, existem sim algumas empresas que estão com o valuation exagerado, principalmente no setor de consumo que representa em torno de um terço das companhias listadas. Alguns desses negócios registram múltiplos parecidos com os de grandes empresas americanas de tecnologia, como a Amazon, que tem operações globais, com um market share enorme em um mercado dinâmico como é o americano. Já no Brasil, essas varejistas estão competindo em um mercado que não tem espaço para muitas concorrentes.

Como vocês avaliam a influência das redes sociais no bull market? Qual o papel dos influenciadores digitais do mercado financeiro para esse otimismo?

Buccini: Não existe uma prova irrefutável de que as redes sociais estejam influenciando diretamente a alta na bolsa, mas há alguns sinais. Precisamos, de qualquer forma, considerar novamente que a taxa de juros está muito baixa. Sem retorno, as pessoas se propõem a correr maior risco e então migram para a bolsa, influenciando na geração do bull market.

Loureiro: Mais da metade do fluxo para a bolsa que vimos neste ano veio de investimentos de investidores individuais. É uma mudança na composição de investidores em que a pessoa física está cada vez mais ativa. Nesse sentido, minha impressão em relação à atuação das redes sociais é mais ampla. Acredito que elas têm um papel importante na educação financeira das pessoas físicas, que já está demonstrando sua maturidade. Uma das maiores preocupações do mercado era, por exemplo, como esses investidores reagiriam à perdas. Imaginava-se que isso levaria a resgates, e o que se observa é exatamente o contrário: houve um incremento das alocações, em que as pessoas físicas aproveitaram a queda de preço para incrementar seus investimentos


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