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O protagonista da nova mobilidade urbana
Carros elétricos prometem se consolidar nos próximos anos, mas estrada que leva ao seu sucesso não está livre de bloqueios
Carros elétricos enfrentam escassez de semicondutores, queda das Spacs e problemas de infraestrutura
Montadoras globais pretendem direcionar mais de 500 bilhões de dólares para o desenvolvimento e a fabricação de veículos elétricos (EVs) e baterias elétricas até 2030 — Imagem: freepik

Os carros movidos à eletricidade (EVs) são peça fundamental no quebra-cabeça da tão almejada economia de baixo carbono. De acordo com estudo publicado pelo Conselho Internacional de Transporte Limpo, um veículo elétrico com bateria de tamanho médio emite, ao longo da sua vida útil, entre 60% e 68% menos carbono na comparação com um motor de combustão interna. A redução enche de entusiasmo os consumidores e investidores preocupados com a descarbonização da economia. Para eles, não há dúvidas de que a eletrificação será o futuro dos veículos — e os EVs os protagonistas da nova era da mobilidade urbana. A estrada que leva até esse porvir, contudo, não está livre de bloqueios.

Em 1997, a japonesa Toyota foi pioneira no setor ao lançar o modelo híbrido do Prius. Foi só em 2006, no entanto, com a divulgação de que a recém-criada Tesla Motors iria produzir carros elétricos que os EVs começaram a chamar atenção. O design moderno dos veículos fabricados pela empresa de Elon Musk, aliado à “pegada” ecológica, transformaram os carros elétricos em objeto de desejo. Na bolsa de valores, a cobiça dos investidores por um naco da companhia do arrojado empresário fez as ações da Tesla acumularem altas impressionantes. Apenas entre janeiro de 2020 e dezembro de 2021, os papéis se valorizaram 1.128,09%.

Influenciadas pelo sucesso da Tesla, concorrentes vêm se estabelecendo no setor. Merecem destaque as startups americanas Rivian Automotive e Lucid Group. Mesmo atuando no segmento há pouco tempo, já excederam o valor de mercado de empresas centenárias como a Ford e a General Motors (GM). “De repente, esse mercado se aqueceu, e as montadoras tradicionais têm sido lentas para entrar nele. Mas é bom elas se apressarem, pois a janela de oportunidade é estreita e está se fechando rapidamente”, afirmou Sam Abuelsamid, analista da agência de research Guidehouse Insights, à Scientific American.

Ainda que estejam longe de suplantar a Tesla, GM, Ford, Hyundai e Volkswagen têm empreendido esforços consideráveis para aumentar a sua participação no mercado de veículos elétricos. O movimento é imprescindível para que cumpram o compromisso de extinguir os veículos movidos a combustíveis fósseis (gasolina e diesel) até 2035. O prazo não é aleatório. Alguns países já anunciaram que a partir desta data não planejam mais aceitar a venda de carros que não sejam movidos a bateria elétrica.

Para se prepararem para essa nova realidade, montadoras globais pretendem direcionar mais de 500 bilhões de dólares para o desenvolvimento e a fabricação de EVs e baterias elétricas até 2030. Em 2019, o investimento nessas frentes foi de 300 bilhões de dólares. Somente na última semana, a GM anunciou que investiria 7 bilhões de dólares em sua fábrica em Michigan para acelerar a produção de picapes elétricas e atingir a marca de 1 milhão de unidades produzidas anualmente até 2025. A intensificação, na visão de especialistas, visa colocar a companhia numa posição de vantagem na batalha contra a rival Ford pela supremacia de EVs na América do Norte. Neste mês, a Ford anunciou que até 2024 planeja produzir 600 mil veículos elétricos, com o objetivo de se tornar a segunda maior fabricante dos Estados Unidos, atrás apenas da Tesla.

Sem semicondutores, sem carros elétricos

Mas esses prazos podem se tornar inviáveis a depender da conjuntura mundial. Uma ameaça ao avanço da indústria de EVs é a falta de semicondutores para distribuição no mercado. Esses componentes são essenciais para a fabricação tanto de veículos tradicionais quanto elétricos e estão presentes, por exemplo, em freios de emergência, sistemas eletrônicos e câmeras veiculares. Ao longo de 2021, a escassez de semicondutores interrompeu as atividades das montadoras, e a perspectiva de analistas é que essa crise não cessará tão cedo.

“Se tivermos uma escassez de chips por um longo período de tempo, isso significa que os veículos elétricos não poderão ser fabricados e vendidos. Logo, carros mais antigos permanecerão na estrada por mais tempo, o que definitivamente é um problema”, afirma Abuelsamid. Uma das novidades que pode ser postergada pela falta de chips é a introdução de EVs embutidos com baterias 4680. Por terem capacidade superior de armazenamento de energia, elas prometem reduzir o preço ainda salgado dos carros elétricos — um fator que diminui o seu potencial de expansão.

Sob o apagão dos chips, a Tesla foi uma das poucas montadoras a trafegar com tranquilidade e entregar bons resultados aos acionistas em 2021. Especialistas atribuem o sucesso a duas razões principais: a enxuta cadeia de fornecedores da companhia e a localização das fábricas. Atualmente, a Tesla tem apenas duas unidades de produção — uma na Califórnia e outra na China. “A escassez de semicondutores não está mais afetando as fabricantes chinesas de EVs tão gravemente como no início de 2021. Como a Tesla tem uma cadeia menor de fornecedores, sendo que um deles está baseado na China [onde ela tem uma fábrica], é mais fácil obter os chips”, explica Dan Ives, analista da gestora de wealth management Wedbush Securities Inc, em entrevista para a Barron’s.

Cadê a tomada?

A escassez de semicondutores tampouco é o único obstáculo que o setor precisa superar. Outro entrave ao seu desenvolvimento é a ausência da infraestrutura necessária para que esses veículos sejam recarregados com facilidade. Um problema que aflige inclusive países ricos, como os Estados Unidos. Ao reforçar, em discurso feito no ano passado, a importância de a indústria automobilística se alinhar aos princípios de sustentabilidade, o presidente Joe Biden anunciou uma verba polpuda, de 7,5 bilhões de dólares, para expansão do número de postos de abastecimento para carros elétricos. Com esses recursos, eles devem passar de cerca de 100 mil para 500 mil em 2030 — ano em que Biden espera ver a comercialização de EVs no país corresponder à metade das vendas de automóveis. A bolada, no entanto, pode ser insuficiente. Segundo a consultoria AlixPartners, os EUA precisariam investir, no mínimo, 50 bilhões de dólares em infraestrutura para atender ao crescimento esperado de EVs daqui a oito anos.

No mundo, pelo menos 300 bilhões de dólares devem ser desembolsados pelos países em postos de carregamento até 2030, ainda de acordo com dados da AlixPartners. Construí-los não é nada barato, dado o alto preço do dispositivo utilizado pelos carros elétricos para recarregar suas baterias em menos de 10 minutos: cada um deles custa entre 120 mil e 260 mil dólares. Não à toa, investidores já vislumbram as oportunidades existentes nesse nicho, que, embora promissor, não conta com um player de destaque. “Todos estão falando sobre as fabricantes de carros elétricos e baterias, mas nos próximos dois anos a perspectiva é que haja um crescimento de cinco vezes nos postos de recarga”, ressalta Dan Pipitone, CEO da TradeZero.

Promessas irreais

Tanto a escassez de semicondutores quanto a falta de postos de recarga são riscos que os investidores da indústria de EVs devem monitorar de perto. Mas é bom que fiquem atentos também às promessas boas demais para serem reais. Muitos investidores aportaram recursos em companhias do setor por meio de Spacs (special purpose acquisition companies). Lucid Group, Nikola Corp. e Lordstown Motors são algumas fabricantes de veículos elétricos que estrearam na bolsa por meio da fusão com Spacs nos últimos dois anos. O problema é que, aproveitando o menor escrutínio da Securities and Exchange Commission (SEC) sobre essas ofertas, as novatas do setor apresentaram informações inverídicas para atrair os investidores.

A Nikola foi a primeira a ser desmascarada. Em setembro de 2020, a Hidenburg Research, empresa de pesquisa de investimentos com foco em vendas a descoberto, divulgou um relatório no qual afirmava que a Nikola exibira aos investidores um caminhão com célula de combustível de hidrogênio que não funcionava. Um sinal de que a companhia — diferentemente do que havia declarado — ainda não contava com tecnologia própria para produção. A denúncia disparou a desconfiança de que a empresa teria mentido sobre seus produtos, sua capacidade técnica e projeções, o que acabou se confirmando após investigações. Como consequência, o fundador da Nikola, Trevor Milton, deixou a montadora e foi processado pelo Departamento de Justiça americano por fraude.

Na Lordstown Motors, o fundador Steve Burns também foi afastado, depois de ser acusado de ter feito declarações exageradas a respeito de encomendas da picape elétrica Endurance. A Lucid igualmente está sob o escrutínio da SEC devido à divulgação de projeções possivelmente inverídicas. Os episódios servem de alerta para os investidores, principalmente os obstinados em encontrar a próxima Tesla. Num setor complexo como o de carros elétricos — em que são necessários vários anos para colocar um novo veículo no mercado — qualquer promessa deve ser analisada com extrema cautela.

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