Novos jeitos de ensinar impulsionam edtechs 

Pandemia acelerou adoção de tecnologias aplicadas à pedagogia e deu impulso às startups da área de educação 



Novos jeitos de ensinar formam ativos para edtechs

Passada a fase de digitalização de aulas, instituições educacionais se unem às edtechs para criar soluções disruptivas que transformam o processo de ensino e de aprendizagem | Imagem: Freepik

Os acontecimentos de 2020 colocaram grandes e inesperados obstáculos para boa parte dos setores da economia, mas também abriram oportunidades valiosas para alguns — entre eles, sem dúvida, o segmento das edtechsas startups de educaçãoA repentina transformação provocada pela exigência do ensino online fez os investimentos de fundos de venture capital nessas empresas alcançarem globalmente 4,5 bilhões de dólares apenas no primeiro semestre de 2020, de acordo com a HolonIQ. No Brasil, as edtechs também se beneficiaram desse movimento, e nomes como Descomplica e Hotmart receberam aportes recordes em 2021, de 450 milhões de reais e 750 milhões de reais, respectivamenteAinda não está claro como será a educação do futuro, mas já existe um consenso em torno da ideia de que a tecnologia aplicada à pedagogia é uma tendência sem retorno, mesmo depois de superada a pandemia. 

“A crise da covid-19 acelerou, de 5 a 10 anos, a curva de adoção de tecnologias no setor de educação. Isso aconteceu em todos os segmentos educacionais, principalmente no ensino básico, tradicionalmente mais resistente às novas tecnologias”, afirma Alexandre Leão, sócio de venture capital na gestora Crescera Capital. 

De acordo com levantamento do Banco Mundial, cerca de 1,7 bilhão de alunos ainda estão afastados das escolas neste ano, o que representa 90% de todos os estudantes do mundo. Não por acaso o negócio das edtechs ganhou importância, à medida que pais, instituições de ensino, empresas e governos procuram novas maneiras de conectar, envolver e apoiar alunos em isolamento — e essa dinâmica abarca da primeira infância à requalificação de profissionais, de crianças em alfabetização a alunos de pós-graduação. “A pandemia mostrou que até mesmo as escolas que se diziam digitalizadas estavam, na realidade, totalmente despreparadas para operar nesse sentidoTodas precisaram se transformar da noite para o dia”, complementa Leão. 

Personalização e individualização 

O fechamento de escolas e o movimento em direção às edtechs esbarrou em uma questão mais profunda, que envolve a própria estrutura do ensino. Vera Lúcia Cabral Costa, diretora de educação da Microsoft, menciona os três “Rs utilizados pela gigante de tecnologia: respondrecover, reimagine. “Em um primeiro momento, vimos que as escolas apenas responderam ao desafio imposto pela pandemia, começando a fazer o mesmo que faziam no ensino presencial — ou seja, aulas gravadas”, observa Costa. Mas houve aquelas que logo perceberam que poderiam fazer melhor: passaram a buscar soluções diferenciadas ou a refletir sobre formas de reestruturar todo o processo de ensino. Essas escolas querem se afastar da questão pontual do presencial versus online para pensar em um sistema que permita à instituição usar a tecnologia para fazer o que é melhor para cada aluno”, destaca. 


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A individualização do ensino, por sinal, é exatamente o foco das edtechs criadas nos últimos anos. Um desafio enorme. É preciso desenvolver uma tecnologia capaz de mostrar como cada aluno aprende e inserir esses dados em um sistema que crie programas específicoscustomizados. Além disso, é essencial encontrar maneiras de engajar as novas gerações no ambiente digital de ensino. “Os alunos podem facilmente passar oito horas navegando na internet, mas não conseguem prestar atenção em duas horas de aula online. Há um claro descompasso entre o formato do conteúdo entregue pelas escolas e os interesses dos estudantes”, ressalta Marcos Boscolo, sócio de auditoria e líder do setor de educação da KPMG. Para ele, as edtechs que criam soluções que se assemelham a games e que promovem o aprendizado por meio da prática mostram o caminho a ser seguido.  

Uma delas é a BYJUS, que desenvolve programas personalizados para estudantes do ensino fundamental nos Estados Unidos. Em setembro, a startup captou 500 milhões de dólares, um dos maiores aportes do ano passado em uma empresa do setor, durante uma rodada de private equity liderada por Silver Lake, Tiger Global, General Atlantic e Owl Ventures. 

Mas não basta implementar novas soluções: é preciso entender como utilizá-las para obter os melhores resultados. De acordo com Boscolo, o treinamento de professores é um dos maiores desafios identificados por executivos do setor de educação, até mesmo em países desenvolvidos. No Reino Unido, a pesquisa The EdTech Report mostrou que muitos professores não conseguem se adaptar a essa nova forma de aprendizagem por causa da falta de treinamento, o que significa que as escolas correm o risco de investir milhões em tecnologias que não serão utilizadas apropriadamente. Isso é evidente nas escolas públicas britânicas — 54% dos professores afirmam não receber o treinamento adequado. 

Fusões e aquisições no setor 

Em pesquisa da KPMG sobre fusões e aquisições (M&A) no setor de educação, Boscolo identificou uma nova tendência. O mercado saiu dos M&As tradicionais, voltados para ganho de market sharepara adquirir negócios mais selecionados, que envolvem um valor agregado diferente”, comenta. Em março, edtechs consolidadas durante a pandemia comprovaram seu interesse em operações inovadoras. A plataforma de jogos educacionais Kahoot, que deve entrar na Oslo Stock Exchange neste ano, adquiriu três negócios nos últimos 12 meses. Já a plataforma de estudos Quizlet, que se tornou um unicórnio em 2020, escolheu a Slader como primeira empresa de sua carteira de aquisições.

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