Mercado americano deixa covid de lado para se preocupar com inflação 

Sucesso na vacinação e expectativa de retomada vigorosa da economia alteram cenário no país



Imagem: freepik

Muito provavelmente por causa do sucesso da vacinação nos Estados Unidos e, em menor escala, pelo natural pragmatismo de Wall Street, a crise da pandemia hoje mais parece página virada na agenda dos mercados financeiros globalmente relevantes — em especial o americano. Nas palavras de um gestor de recursos, o desenvolvimento de vacinas eficientes no combate à covid-19 colocou um teto no problema sanitário. Algo muito diferente do que se percebia em meados do ano passado, quando ainda ninguém sabia se haveria um imunizante que ajudasse os sistemas imunológicos a enfrentar as infecções e, com isso, permitisse uma folga nos sistemas de saúde e a retomada das atividades econômicas. 

Pois 2021 começou, nos Estados Unidos, com a posse de Joe Biden e a promessa de vacinação em massa — 100 milhões de vacinados nos 100 primeiros dias de governo foi compromisso, que está sendo cumprido a contento, já que o país aplica o imunizante a 2 milhões de pessoas por dia. Não demorou, no entanto, até os mercados encontrarem outro foco de preocupação: a possibilidade de escalada da inflação, cenário que obrigaria, pelo menos em tese, o Federal Reserve (Fed, o banco central do país) a elevar as taxas de juros, mantidas no intervalo de zero a 0,25% anuais na reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) da última quarta-feira, dia 17 de março. 

De acordo com pesquisa feita pelo Bank of America com 220 investidores (grupo com ativos de 630 bilhões de dólares), 37% dos entrevistados disseram que a alta da inflação é o principal risco atualmente; outros 35% citaram a volatilidade do mercado de treasuries na hipótese de o Fed inesperadamente decidir “segurar” a política de compra mensal de títulos. A pandemia ficou no topo das preocupações de 15%, metade do percentual registrado na pesquisa anterior, de fevereiro — dado que sugere a importância do efeito da vacina sobre a percepção dos mercados quanto à recuperação da economia (Biden assumiu a presidência no dia 20 de janeiro).  

Implicações da alta dos juros 

Alterações nos juros dos Estados Unidos têm implicações gigantescas sobre os mercados mundiais, à medida que mexem com a dinâmica dos rendimentos dos treasuries, os títulos emitidos pelo Tesouro do país e que ainda são considerados o que há de mais seguro pelos investidores em momentos de crise. Qualquer variação dessas taxas básicas pode influenciar os ganhos dos investidores de renda fixa e também bagunçar os preços de ações — afinal, quando os juros sobem em determinada medida os bonds podem ficar mais atrativos que as ações, ativos que tradicionalmente carregam mais riscos. Pode ser uma bomba atômica sobre os — dizem alguns — excessivamente valorizados papéis de empresas nas bolsas americanas. 

Ajuda financeira astronômica 

A emergência sanitária foi o fator preponderante para a alta de preços voltar à pauta, já que exigiu dos governos uma injeção de recursos nas economias jamais vista. O pacote que Biden conseguiu aprovar no Congresso envolve a astronômica quantia de 9 trilhões de dólares. Além disso, escaldados pelas dificuldades enfrentadas durante o pior período da pandemia no país, muitos americanos engordaram suas reservas financeiras — dinheiro que, em algum momento, tende a retornar para a economia sob a forma de consumo e pressionar os preços. 

Num cenário como esse, afirmam os investidores preocupados com a inflação, o Fed poderia antecipar de 2023 para 2022 a elevação dos juros, mudando radicalmente as forças dos mercados de renda fixa e variável. Isso num momento em que índices em bolsa de valores relacionados às empresas listadas estão em patamares apenas ligeiramente menores que aqueles registrados na época da bolha das pontocom no início dos anos 2000. Cabe ressaltar que o otimismo com a possibilidade de recuperação em “V” da economia dos Estados Unidos (aposta de 48% dos entrevistados na pesquisa do Bank of America) é justamente um dos fatores que impulsionam os preços das ações, em especial das empresas de setores fortemente afetados pela pandemia. 

A expectativa do Fed é de que a inflação, nesse processo de retomada, chegue a 2,4%, acima da meta de 2%. O percentual pode sobressaltar alguns, mas há quem veja normalidade nesse patamar. Reportagem publicada pela Bloomberg cita um cálculo interessante feito pelo economista e prêmio Nobel Robert Schiller, professor de Yale: a média de inflação no país desde 1871 — 150 anos, portanto — é de 2,2% ao ano. Pontos fora da curva são os picos de 1974 (12,2%) e 1980 (14,6%). Assim, mesmo que a recuperação pós-covid seja excepcional (o próprio Fed prevê crescimento de 6,5% do PIB neste ano), o medo da inflação pode ser uma ameaça maior que a própria inflação. 

 

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