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Investidores observam tendência de desglobalização sinalizada por conflito Rússia-Ucrânia
Investidores observam tendência de desglobalização sinalizada por conflito Rússia-Ucrânia
CEO da BlackRock afirma que a invasão da Ucrânia pela Rússia colocou um fim na globalização que conhecemos nas últimas três décadas. | Imagem: freepik

A derrocada do bloco socialista no pós-Guerra Fria, em 1989, deu início a uma nova era nas relações comerciais entre os países. Nela, o capitalismo atingiu o seu ápice e impulsionou o processo de globalização. A maior interligação, aliada ao avanço da internet, diminuiu fronteiras e aproximou nações opostas em termos culturais e econômicos. As rachaduras nessa dinâmica, entretanto, têm se intensificado a cada dia. Elas ganharam profundidade com o isolamento social imposto pela pandemia e agora beiram a ruptura com as sanções econômicas impostas à Rússia como retaliação à guerra na Ucrânia. Não à toa, especialistas acreditam que o conflito terá como consequências a intensificação da desglobalização e a consolidação de uma nova ordem mundial — mudanças, que pela sua magnitude e impactos, têm sido acompanhadas com atenção pelos investidores.

CEO da BlackRock, Larry Fink, abordou o tema na sua mais recente carta a investidores, publicada na última quinta-feira, 24. Ele afirma que a invasão da Ucrânia pela Rússia colocou um fim na globalização que conhecemos nas últimas três décadas. “[Como consequência do conflito], companhias e governos terão que reavaliar sua dependência [de outros países] e reanalisar a manufatura e as plantas de fabricação — algo que a Covid já estava levando muitos a fazerem”, observa.

Na opinião de Fink, as sanções impostas por autoridades americanas e europeias à Rússia — a 11ª maior economia do mundo — com o intuito de isolar o país do comércio mundial irão reverberar por décadas e marcar uma virada na ordem geopolítica. Essa situação, inclusive, já vem se delineando. “O que vemos claramente hoje é a fragmentação da economia do mundo em dois blocos: o do Ocidente, liderado pelos EUA, e o da Europa Oriental-Ásia, encabeçado por Rússia e China”, explica Vitor Pieri, pesquisador do Grupo de Estudos em Geografia das Relações Internacionais da Unicamp. Ele participou, ao lado de Evandro Buccini, sócio da Rio Bravo Investimentos, e de Nohad Harati, especialista em direito no mercado financeiro, de encontro na Conexão Capital.

Até agora, o apoio chinês à causa russa é informal, graças às ameaças do presidente americano Joe Biden. No último dia 18, o democrata advertiu Pequim sobre possíveis consequências econômicas de ajudar militarmente a Rússia. Em declarações públicas, Biden tem enfatizado que existe hoje “um debate fundamental sobre a futura direção do mundo”, entre aqueles que defendem a autocracia e os que acreditam na democracia. E um dos objetivos centrais desse discurso é incentivar que empresas sediadas em países democráticos excluam a China de suas principais cadeias de abastecimento e manufatura.

A rixa entre Estados Unidos e China não é recente. Ela vem desde o governo Barack Obama e se intensificou com a gestão de Donald Trump, que conduziu uma dura guerra comercial contra a nação liderada por Xi Jinping. Como consequência dessa rivalidade, um número crescente de empresas chinesas tem passado a integrar a Entity List, relação de corporações consideradas perigosas para a segurança nacional e barradas no mercado americano. Também têm se tornado mais frequentes os casos de empresas de tecnologia americanas que deixam de operar no mercado chinês.

Mas se Biden e outros líderes de potências ocidentais desejam isolar Moscou e, possivelmente, Pequim, o mesmo pode ser dito sobre os planos de Xi Jinping e do presidente russo. Nos últimos anos, Vladmir Putin tem buscado fortalecer parcerias com economias euroasiáticas — e a China é, claro, a principal delas. No plano financeiro, os países reforçaram a integração entre os seus sistemas bancários e discutem a criação de uma nova moeda internacional capaz de destronar o dólar. Moscou também é parceira da China na criação da nova rota da seda, chamada de “one belt, one road”. O megaprojeto de infraestrutura, anunciado em 2013 por Xi Jinping, consiste em centenas de obras terrestres e marítimas para conectar Oriente Médio, Europa, África e Ásia. O custo previsto da obra é de 5 trilhões de dólares, e o principal objetivo é favorecer as exportações nesse eixo — excluindo os Estados Unidos do jogo.

“Seria ingênuo pensar que o declínio das relações entre China e Estados Unidos seja um processo reversível. Governos e empresas de todo o planeta precisam se preparar para um cenário que tende a piorar bastante e que incluirá escolhas difíceis o tempo inteiro”, afirmou Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV em São Paulo, em artigo publicado na Piauí. Segundo ele, a dupla pressão que o governo Bolsonaro sofreu de Washington e de Pequim, em 2021, em relação à participação da empresa chinesa Huawei no leilão do 5G é “um aperitivo do que está por vir”.

Consequências da desglobalização

Para além dos riscos que o desenho de uma nova ordem mundial pode trazer, os investidores se debruçam sobre os efeitos da desglobalização para as companhias. Se quiserem se ver livres de choques na cadeia global de suprimentos — que só tendem a piorar com o conflito na Ucrânia —, as empresas precisarão verticalizar rapidamente suas operações dentro de seus países ou regiões próximas. Mas se por um lado essa independência mitiga as chances de desabastecimento, por outro deve elevar os custos de produção e pressionar as margens das empresas.

Para os países, esse cenário deve gerar mais pressão inflacionária, o que também é uma preocupação para os investidores. “Os bancos centrais precisam escolher se vamos viver com uma inflação mais alta ou se é melhor desacelerar a atividade econômica e a criação de emprego para derrubar a inflação rapidamente”, observou Fink, em sua carta.

Em mensagem enviada a investidores recentemente, Howard Marks, CEO da gestora Oaktree Capital, também chamou a atenção para a desglobalização e suas consequências. Segundo ele, o reconhecimento dos aspectos negativos da globalização fará com que os investimentos no mercado doméstico voltem ao radar. “Em vez da solução fácil e barata, provavelmente haverá mais prêmio para alternativas seguras”, prevê Marks.

A opinião é compartilhada por Harati. “Acredito que aumentarão os investimentos domésticos e em ativos reais, para diminuir o risco sobre o capital. Com isso, serão privilegiados mercados e setores mais fáceis de acompanhar.”

A boa notícia é que esse cenário pode gerar oportunidades excelentes para algumas regiões, entre elas o Brasil. “Acredito que México, Estados Unidos e ‘hubs’ manufatureiros no sudeste da Ásia também possam se beneficiar”, afirma Fink. É um alento saber que, nesse novo desenho geopolítico, o Brasil não passará apenas apuros. Dada a sua relação estreita com EUA e China, é pouco provável que o País escape de pressões.

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