Cultura ética para além dos formalismos

Em entrevista, Alexandre Di Miceli comenta principais pontos do Ranking Virtuous Company relacionado ao tema

Governança Corporativa/Reportagens / 2 de outubro de 2020
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Cultura ética para além dos formalismos

Imagem: Freepik

Como analisar a cultura ética de uma empresa? Observando a diferença entre o discurso e a prática. Essa foi a premissa utilizada pela consultoria Virtuous Company para criação do Ranking Virtuous Company de Cultura Ética 2020, um mapa da cultura ética de 1.871 organizações brasileiras. O estudo analisou o conteúdo de precisamente 376.765 avaliações postadas entre janeiro de 2015 e dezembro de 2019 no site Glassdoor, em que os atuais e ex-funcionários analisam, anonimamente, as organizações.

O objetivo do trabalho é demonstrar a necessidade de as organizações repensarem a governança corporativa para além do formalismo da documentação oficial. E, para isso, nada melhor do que recorrerem a quem observa a companhia de dentro. “Nem sempre a documentação é fiel à verdadeira cultura da empresa. A Odebrecht, por exemplo, tinha documentos muito interessantes de governança, considerados até mesmo vanguardistas. Ao longo do tempo, com a sucessão de escândalos de corrupção, todo esse discurso virou letra morta”, argumenta Alexandre Di Miceli, fundador da Virtuous Company Consultoria e colunista da CAPITAL ABERTO.

Para avaliar a real cultura ética dessas companhias, o estudo se baseou em diretrizes da Ethical Systems, rede de colaboração global que reúne alguns dos principais pensadores do tema. O modelo criado pela organização separa os comportamentos éticos em cinco áreas-chave: contrato social, comportamento das lideranças, caráter organizacional, sensibilidade individual e resposta a desvios de conduta. Cada uma é avaliada sob duas dimensões, qualificadora ou desqualificadora. Ao final, é o peso dado a cada aspecto positivo ou negativo que estabelece a posição da organização no ranking.

Área

Contrato
social

Comportamento das lideranças

Caráter organizacional

Sensibilidade individual

Resposta
a desvios
de conduta

O que é?

Representa a relação do funcionário/ colaborador com a empresa e indica se ele se sente valorizado e respeitado.

Que tipo de exemplo a alta cúpula está passando para os demais membros da organização?

Que tipo de exemplo a alta cúpula está passando para os demais membros da organização?

Aponta que tipo de relacionamento é mantido pelas pessoas dentro da organização: se orientado para cooperação ou competição.

Quando ocorrem problemas, como a instituição atua para solucioná-los? Há liberdade para manifestação?

Dimensão qualificadora

Confiança organizacional

Liderança ética

Orientação para o bem comum

Empatia

Liberdade para falar

Dimensão desqualificadora

Injustiça organizacional

Liderança abusiva

Orientação egoísta

Falta de consciência

Medo de retaliação

A divulgação dos resultados começou setorialmente, com a publicação de um ranking por semana para cada um dos 17 setores analisados pela consultoria. O ranking agregador, contendo todas as instituições avaliadas, será divulgado em dezembro deste ano.

Em entrevista veiculada na plataforma Conexão Capital, Di Miceli fez um balanço dos resultados do estudo, indicou possíveis mudanças na metodologia e discutiu os conceitos que embasam o ranking. Confira a seguir os principais pontos da conversa.

O que é cultura ética?

Cultura é o conjunto de valores, crenças e atitudes que são compartilhadas por pessoas de um grupo com base principalmente em informações trocadas por interações sociais — e não por aspectos formais, como documentos. Já a cultura ética é uma parcela da cultura geral. É o resultado da interação entre dois sistemas de valores: o formal (aquele descrito em códigos de conduta, em missão, visão e valores da empresa) e o informal, que é o que realmente importa. O sistema informal é representado pelas normas sociais da empresa, que não estão escritas mas são aplicadas. Só quem está dentro da organização entende esses mecanismos. E, quando há um desalinhamento entre o formalismo e a prática diária, o que prevalece é o sistema informal de valores.

Qual a importância do ranking para se repensar a cultura corporativa ética no Brasil?

O ranking é uma contribuição para o mercado, um instrumento para fomentar reflexões e ações coletivas. Espero que essa divulgação estimule as organizações a melhorar sua cultura ética e que também chame a atenção de outros agentes de mercado — em particular investidores — para a importância dessa informação. Um investidor responsável, com o olhar a longo prazo, e realmente interessado em ESG [aspectos ambientais, sociais e de governança] não pode deixar de observar a cultura ética da empresa em que está colocando seu dinheiro.

Quais são os efeitos da cultura tóxica nas empresas?

Existem numerosas evidências que mostram que culturas tóxicas estão associadas a um risco muito maior de escândalos de governança. E nós vimos isso no País ao longo dos últimos anos. Muitas das empresas que passaram por escândalos de corrupção, ambientais e tributários tinham graves problemas culturais. Existem ainda perdas em inovação e engajamento. Há uma maior rotatividade de funcionários e um aumento dos problemas de saúde mental para os que ficam. Em suma, não há como uma organização alcançar excelência no século 21 se nela houver uma cultura tóxica. O ranking é um belo ponto de partida para podermos enxergar isso de maneira concreta.

Quais são as limitações do estudo?

Em primeiro lugar, as avaliações dos funcionários e colaboradores não são perfeitas porque o ser humano tem seu viés. Mas como analisamos em média 200 avaliações para cada empresa, as perspectivas individuais se anulam. Ao final, temos uma visão relativamente precisa do que importa naquela organização, de como ela funciona, da sua cultura. Uma limitação muito clara é o fato de que ouvimos apenas os funcionários e colaboradores, sem inserir na conta os demais stakeholders da organização. É algo que pretendemos corrigir nos próximos rankings.

Existem outros pontos que já planejam alterar para as próximas edições?

Atualmente o ranking trabalha com uma divisão das organizações em 17 setores, com base na divisão original dos sites agregadores de avaliações. No entanto, o ideal seria um trabalho ainda mais granular, subdividindo algumas frentes, já que existem organizações muito diferentes hoje agrupadas no mesmo setor. No ramo farmacêutico e de saúde, por exemplo, estão farmacêuticas, hospitais e planos de saúde. Além disso, pretendemos aplicar algum tipo de filtro para identificar como a organização faz negócios na alta gestão. Assim diminui o risco de se misturar joio com trigo.

Existe ainda algum risco quanto à veracidade das avaliações compiladas?

Sim, já existem empresas que perceberam essas plataformas como uma fonte importante de informação e, infelizmente, têm procurado aumentar suas boas avaliações artificialmente. Os funcionários podem ser pressionados a dar notas boas ou às vezes criam-se contas falsas apenas com esse objetivo, como mostra reportagem do The Wall Street Journal. É uma limitação. Pretendemos, para os próprios anos, criar um mecanismo para descobrir essas fraudes, identificando, por exemplo, se uma empresa recebe uma sequência muito grande de avaliações positivas de uma só vez, algo que fuja do padrão.

Existe algum impacto se uma instituição recebe um volume maior de avaliações? As empresas com mais avaliações costumam ficar em posições medianas?

A metodologia relaciona a frequência com a qual pessoas falam palavras ou expressões referentes a certos conceitos e o número total de avaliações. Logo, o tamanho da empresa não influencia nesse percentual. A rede Magazine Luiza é um caso de organização que foi muito bem avaliada: ficou em quinto lugar no ranking geral das varejistas, mesmo com 1.033 avaliações.

O que acontece é que existe uma tendência de que a empresa, ao crescer, se torne mais burocratizada, perdendo o espírito humano do negócio. Os resultados médios das grandes empresas estão mais relacionados a esse fator do que à quantidade de avaliações. Claro que empresas menores, com espírito de startup, tendem a ter mais facilidade nesses aspectos. Mas já existem algumas fintechs que cresceram em tamanho e continuam bem posicionadas. É um recado para os grandes players.

Que reflexo a pandemia de covid-19 teve sobre a cultura ética das organizações?

A pandemia sem dúvida tem um impacto na cultura. O isolamento social deixou as pessoas mais distantes, e a cultura se faz muito nos intervalos, entre as reuniões, nos corredores. Isso foi perdido, substituído.

Mas já é possível observar como as organizações têm mostrado seu comportamento ético na crise, começando com a questão dos desligamentos. Algumas foram extremamente frias, chegaram a não querer pagar direitos rescisórios. Outras estão fazendo das tripas coração para manter seus quadros.

Em outra vertente, é possível perceber que a crise aproximou as pessoas dentro das organizações. Existe uma sensação de que estão todos no mesmo barco, na mesma tela. Ainda é cedo, porém, para cravar qual a magnitude desse fenômeno. Não se sabe quanto tempo a pandemia vai durar e qual será o formato da volta.


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