A terceira via dos novos modelos de trabalho

Formato híbrido é a tendência na transição para o pós-pandemia



formato híbrido deve se tornar a principal opção das empresas para a transição no pós-pandemia
Maior parte das empresas identificou um aumento de produtividade dos colaboradores, principalmente pelo fato de o home office eliminar perda de tempo com deslocamentos | Imagem: freepik

Após um ano e meio do início da pandemia, já parece ser um consenso a avaliação de que as relações de trabalho e os ambientes corporativos nunca mais serão mais os mesmos. Nesse período, as adaptações exigidas pelo distanciamento físico foram completadas e a incorporação de tecnologias de trabalho remoto que estavam prontas, mas ainda sem o devido test drive, se consolidou. Configurou-se, assim, o cenário perfeito para a disseminação do home office. Mas diante do avanço na vacinação e da queda dos números de infecção e de mortes por covid-19 no País — na cidade de São Paulo, que concentra a maior parte dos escritórios e sedes de grandes empresas, 60% da população já recebeu duas doses ou a dose única da vacina —, será que esse modelo continuará predominante? Ou as organizações já planejam retomar suas rotinas de trabalho presencial? 

Mais do que preparar espaços conforme protocolos sanitários, as empresas neste momento precisam refletir e avaliar qual será o melhor modelo para esse novo tempo: trabalho exclusivamente presencial, 100% online ou uma combinação das duas possibilidades. É provável que o caminho do meio seja a escolha de boa parte das organizações, mas nesse caso também é necessário encontrar a proporção certa. Dada a diversidade da natureza das operações das empresas, é impossível haver uma receita que seja boa para todas. 

Como observa Denize Costa, coordenadora do MBA em Economia e Gestão de RH da Fundação Getulio Vargas (FGV), passado o susto inicial, período em que trabalho, casa e estudo precisaram de uma adaptação relâmpago, a inquietação agora está na busca pelas melhores soluções depois da curva de aprendizado sobre o modelo de home office. “Esse ponto é particularmente relevante no caso brasileiro, em que existe um apreço muito grande pela copa, pelo cafezinho, espaços e momentos em que até decisões podem ser tomadas”, comenta. Assim, se existe a possibilidade de se promover encontros profissionais presenciais, ela deve estar na mesa.  



E a produtividade? 

Há alguns meses, imaginar como seria a saída do home office era um exercício de futurologia, mas pelo menos uma expectativa se confirmou agora que as restrições oficiais foram flexibilizadas. E uma coisa é certa: o mundo pós-pandemia não será como era antes. “Ainda em 2020 uma pesquisa da Brunswick com clientes e colaboradores mostrava que ninguém esperava um ‘normal’ parecido com o pré-pandemia”, destaca Tereza Kaneta, sócia da consultoria. Uma das questões atuais gira em torno da avaliação do que aconteceu com a produtividade. Não há dados consolidados sobre esse tema, mas Kaneta diz observar que a maior parte das empresas identificou um aumento de produtividade dos colaboradores, principalmente pelo fato de o home office eliminar perda de tempo com deslocamentos. Essa avaliação tira pontos do trabalho 100% presencial. A face oposta da moeda é o cansaço das pessoas, que naturalmente sentem falta do convívio com os colegas de trabalho. É por essa razão que os especialistas não estão apostando na manutenção do home office integral. 


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Nessa dinâmica, a expectativa é de que a “terceira via” do modelo combinado será preponderante. Não se pode ignorar, por exemplo, que o trabalho remoto dificulta (ou talvez até inviabilize) a consolidação da cultura da empresa — afinal, não é simples reforçar o DNA da organização por meio das telas de conferências remotas. “O escritório físico será importante para o reforço dos laços de pertencimento. É provável que ele não exista necessariamente para o trabalho, mas que se transforme em espaço para troca de ideias. Processos criativos e projetos que precisam de brainstorming, por exemplo, poderiam ter lugar nos escritórios”, analisa Kaneta. 

Papel dos líderes 

Nesse aspecto, é crucial o papel dos líderes. As empresas que perceberam queda de produtividade com o formato remoto precisam avaliar se essa redução foi decorrente do home office ou se tem mais a ver com problemas estruturais de postura dos líderes e questões herdadas de outros tempos. A liderança precisa estar preparada para lidar com esse novo momento — já não cabem, por exemplo, líderes ancorados em conceitos antigos como comando e controle e que valorizam em excesso o “presenteísmo”. As palavras de ordem, nessa transição para um mundo pós-pandemia, são autonomia, delegação e, principalmente, confiança. 

Alguns números citados por Patrícia Feliciano, diretora de Talento e Organização da Accenture na América Latina, dão uma ideia da percepção do mundo corporativo quanto a essa transição. Pesquisa feita com colaboradores e executivos mostra que 80% preferem o modelo híbrido e que 90% das empresas pretendem voltar nesse modelo combinado. Ainda segundo Feliciano, 70% dos trabalhadores relataram produtividade igual ou melhor nos sistemas híbrido e 100% remoto. Um ponto interessante envolve a possibilidade de as empresas permitirem o trabalho a distância que não seja feito de casa: é a cultura do “trabalho em qualquer lugar”. “Essa volta é híbrida. As empresas que tiveram a oportunidade de experimentar comprovaram que é o modelo que mais favorece a produtividade”, destaca. 

Saúde mental 

Mais uma aresta a ser aparada está relacionada à saúde mental dos colaboradores. Se o home office permite uma folga do estresse do trânsito e dos trabalhosos trâmites para viagens aéreas, por outro lado invade a vida pessoal (no seu espaço por excelência, a casa) e pode dar a sensação de que a pessoa está disponível para o trabalho durante as 24 horas do dia. É por isso que neste momento estão na agenda a conciliação das necessidades das empresas e dos funcionários e a ideia do cuidado com os colaboradores. A hora é de dar um novo significado ao escritório, que pode ser em um espaço da empresa, em casa, num coworking ou até fora da cidade do funcionário. As companhias precisam avaliar, conforme as suas atividades, quais ambientes de trabalho vão passar a oferecer. 

Um dos legados da experiência da pandemia é a ampliação da escuta do colaborador. Não era comum, antes da crise sanitária, que as empresas consultassem os funcionários sobre questões relacionadas à estrutura do trabalho. Pois foram numerosos os casos de organizações que diretamente perguntaram para as pessoas qual modelo preferiam e como se sentiam diante da possibilidade de voltar ao escritório. “Essa dinâmica reflete um novo formato de relacionamento entre empregador e colaborador. A situação inédita da pandemia provocou essa mudança”, ressalta Kaneta. 

As empresas cujos negócios acomodem o trabalho remoto nesse processo de retomada podem até se inspirar no que já têm feito as varejistas em relação às possibilidades que oferecem aos consumidores: o modelo omnichannel, de convivência de várias modalidades de venda e entrega de mercadorias. É assim, “multicanal” — com possibilidade de trabalho em casa, nos escritórios, nos coworking e afins —, que provavelmente serão as empresas a partir de agora. E se a ideia for reter talentos e contar com colaboradores motivados e saudáveis, a lista de possibilidades sem dúvida terá que crescer. Assim como será preciso ampliar e lapidar o olhar das companhias para as necessidades dos funcionários, de forma que se sintam confortáveis para fazer bem seu trabalho — seja em que modelo for.  

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