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Na contramão do capitalismo de stakeholders
Descontente com resultados da Unilever, gestora britânica chama atenção para iniciativas “tolas” de sustentabilidade às custas dos negócios
Unilever uso excessivo de "propósito" em propaganda de maionese Hellmans
Na visão do britânico Terry Smith, a gigante Unilever estaria exagerando na abordagem “sustentável” dos negócios, colocando em risco a geração de retorno para os acionistas — Imagem: freepik

A estátua simbólica de Milton Friedman sofreu muitas rachaduras nos últimos anos, diante do avanço da ideia de que as empresas devem atentar aos impactos que provocam no seu entorno. Esse capitalismo de stakeholders, cuja expressão prática aparece principalmente no recorte ESG, se contrapõe ao atendimento primordial (muitas vezes exclusivo) dos interesses dos acionistas (shareholders), consolidado por um artigo do economista americano publicado há cerca de 60 anos. Friedman defendia que o objetivo central das empresas é maximizar lucros, um discurso que parece a cada dia mais distante com a onipresença do ESG. Ocorre que iniciativas esparsas de acionistas já tentam colar alguns cacos dessa antiga narrativa, reivindicando uma retomada da atenção prioritária ao lucro em detrimento de apelos como os de propósito social e sustentabilidade.

Tendo a voz amplificada por uma montanha de 29 bilhões de libras sob gestão, o britânico Terry Smith recentemente questionou, em sua carta anual aos investidores, a postura da gigante Unilever que, segundo ele, estaria exagerando na abordagem “sustentável” dos negócios, colocando em risco a geração de retorno para os acionistas. O texto do presidente do Fundsmith Equity Fund, asset que figura entre os dez mais relevantes acionistas da Unilever, ironiza a insistência na reafirmação da sustentabilidade em tudo o que a empresa faz — incluindo até a prosaica e tradicional maionese Hellmman’s. “Uma empresa que sente que precisa definir o propósito da maionese Hellmann’s em nossa visão claramente perdeu o contexto. A marca Hellmann’s existe desde 1913, então dá para imaginar que os consumidores já tenham entendido qual é o seu propósito (alerta de spoiler — saladas e sanduíches)”, escreveu, ferino. Smith afirma que a gestão da companhia prioriza credenciais de sustentabilidade à custa do negócio e que tem sido “tola” em suas decisões.

Retornos em baixa

A queixa surge em meio a um momento de baixa tanto para as ações da empresa quanto para a própria gestora (nesse caso, avanço aquém do mercado). Em 12 meses, os papéis da Unilever acumulam queda de 9%, o que os coloca entre os cinco piores investimentos do Fundsmith Equity Fund no ano passado — ele próprio teve ganho de 22,1% abaixo do MSCI World Index (22,9%). As ações da Unilever — dona de marcas amplamente conhecidas como Hellmann’s, Dove e sorvete Magnum —, vale destacar, têm hoje valor próximo do patamar em que estavam quando a companhia conseguiu se defender de uma tentativa de aquisição feita pela Kraft Heinz em 2017. Ou seja, numa espécie de zona de perigo que parece ter incomodado acionistas como Smith.

Na interpretação desses investidores, o atendimento às demandas de sustentabilidade e ao apelo social estaria sendo usado pelos executivos da companhia para camuflar uma baixa performance. Em outras palavras, a reiterada e propagandeada sustentabilidade nos negócios como prioridade justificaria retornos menores, como se fosse um preço de curto prazo a se pagar pela escolha desse caminho. E, engrossando a reclamação de Smith, já se comenta no mercado no Reino Unido a articulação de acionistas para uma troca de comando na Unilever.

Ativismo na Danone

Se isso acontecer, não será fato inédito. No ano passado, acionistas da francesa Danone conseguiram tirar Emmanuel Faber dos cargos de CEO e presidente do conselho de administração da companhia mais ou menos sob a mesma lógica de Smith. Nessa leitura, Faber — entusiasta do capitalismo de stakeholders (não por acaso, no Linkedin ele se identifica como “promotor de mudanças”) — estaria também incentivando a sustentabilidade e o propósito (palavra que merece uma análise à parte) sacrificando os retornos. Ele ficou 24 anos na empresa, sendo CEO e chairman de dezembro de 2017 até abril de 2021. Foi durante sua gestão que a Danone alterou o estatuto para estabelecer sua missão social, tornando-se a primeira entre as grandes companhias francesas listadas a se intitular “empresa direcionada por propósito”. Na prática, passou a reportar ganhos por ação ajustados por fatores climáticos e a adotar uma política drástica de redução de uso de plástico. Mas Faber não está mais lá para defender essas bandeiras, e desde então os acionistas oponentes do ex-executivo parecem apaziguados.

Propósito social

Os episódios, embora ainda sejam minoritários e localizados, evidenciam a existência de um debate — entre os investidores e também na academia — sobre o que de fato significa a expressão “propósito social” quando aplicada à dinâmica corporativa. Trata-se de um tema ainda bastante difuso, à semelhança do que acontece com as questões relacionadas a reportes, métricas e comparações ESG. Está todo mundo atrás de uma definição menos nebulosa desse quadro, inclusive pra diferenciar propósito de ESG. O colunista da Bloomberg Adrian Wooldridge, por exemplo, considera o termo “propósito social” candidato ao prêmio de “mais perigosa ideia para os negócios no momento”. Na opinião dele, os defensores desse alinhamento querem reprogramar as empresas para que elas resolvam problemas sociais que “governos e organizações voluntárias se mostraram incapazes de solucionar”, numa virada que pretenderia anular conceitos disseminados desde meados do século 19.

À parte essas posturas que vão na direção contrária do crescente capitalismo de stakeholders, fato é que estudiosos tentam orientar empresas e investidores quanto ao assunto. Como observam os professores Robert Eccles, Colin Mayer e Judith Stroehle, da Universidade de Oxford, em artigo para o fórum sobre governança corporativa da escola de Direito de Harvard, “propósito corporativo e sustentabilidade (frequentemente identificados pelo acrônimo ESG) já formam o léxico dominante nas comunidades de empresas e investidores”. “Os dois termos são comumente encarados como sinônimos, mas isso é incorreto. Propósito e sustentabilidade são ideias relacionadas, mas diferentes. O propósito vem antes. A sustentabilidade tanto pode contribuir para que seja atingido ou para torná-lo mais distante”. Mayer, especificamente, já escreveu que o propósito de uma companhia é “produzir soluções rentáveis para os problemas das pessoas e do planeta”, ao mesmo tempo em que “não lucram com a geração de problemas”.

Um ponto pacífico do debate — com o qual tanto Smith e os que se alinham à sua queixa quanto os defensores do capitalismo de stakeholders concordam — é que, para a definição do propósito de uma companhia, primeiro é preciso saber por que ela existe, como pontuam os executivos da consultoria McKinksey Robin Nutall e Sean Brown. O problema é que, a depender da perspectiva, a resposta nunca será a mesma.

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