Um olhar para 2035

Em comemoração ao aniversário da CAPITAL ABERTO, nos arriscamos a vislumbrar o ambiente de negócios daqui a 16 anos

Tecnologia e Inovação/Reportagem / 30 de agosto de 2019
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Ilustração: Beto Nejme

O teste é simples, mas o resultado é eloquente. Um pesquisador mostra a um grupo de pessoas um vídeo curto, com dois pequenos times (um com camisetas brancas e o outro de preto) trocando duas bolas de basquete. Pede, então, que elas contem quantos passes faz a equipe de branco. A maior parte da plateia, supostamente atenta, acerta a resposta — pouquíssimos, no entanto, comentam ter visto um homem vestido de urso fazendo moonwalking no meio da cena. Moral da história: imersos nas obrigações e demandas triviais, os seres humanos tendem a deixar de notar coisas inusitadas, que saiam do padrão. Pois é exatamente sobre a identificação do bizarro disperso entre obviedades que se fundamenta o desenho de cenários futuros neste final da segunda década do século 21. Atenção plena é a expressão-chave, e com essa ferramenta especialistas das mais variadas áreas já conseguem antever como será a economia em 2035.

Eles foram ouvidos para compor esta reportagem, comemorativa dos 16 anos da CAPITAL ABERTO. Nela, nos arriscamos em apresentar o que se tem vislumbrado para a economia e as atividades pessoais e empresariais nos próximos 16 anos. Como comenta Sergio Alexandre Simões, sócio da área digital da PwC, na aparência física o mundo de 2035 será muito semelhante ao que se vê hoje — não haverá carros voando, como se fantasiava nos anos 1960 com o desenho “Os Jetsons”. Mas as engrenagens que farão a estrutura funcionar serão absurdamente diferentes.

Lentes calibradas

O que os futuristas de hoje fazem é rastrear, com lentes devidamente calibradas, necessidades, desejos e ineficiências de processos (ou seja, os “ursos fazendo moonwalking”) que possam ser atendidos ou corrigidos por meio de soluções engenhosas que atinjam o maior número de pessoas possível. Embora estejam concentrados no presente, não ignoram movimentos que têm se consolidado ao longo do tempo — 2019, 2020, na verdade, são apenas pontos de passagem nessa jornada. Numa perspectiva mais macro, desde o início do século ocorre uma reordenação de forças políticas e econômicas que a partir de agora vai de fato deslanchar, sublinha Simões.

Nessa dinâmica, países que hoje formam os pilares da economia global perderão espaço para emergentes — e não só para alguns tradicionais países dos Brics, mas para nações com populações numerosas e jovens como Indonésia, Nigéria e Vietnã. “O Mundo em 2050”, estudo da PwC que em 2015 se debruçou sobre o tema, é claro sobre isso. Considerando como indicador para comparação o poder de compra das populações (PPP, purchasing power parity), observa-se uma mudança radical no top 5 mundial: em 2014, China, Estados Unidos, Índia, Japão e Alemanha; em 2050, China, Índia, Estados Unidos, Indonésia e Brasil.

Desafios das megalópoles

A prevalência nesse ranking de países bastante populosos deixa evidentes algumas necessidades a serem atendidas por governos em geral e empresas em particular nos próximos anos. Um dos mais importantes desafios é de ordem urbanística. As populações devem, em 2035, estar ainda mais concentradas em centros urbanos de extensões gigantescas, o que torna imperativas as soluções para melhora da qualidade de vida nas megalópoles.

O avanço dos negócios ligados a mobilidade está nesse contexto. Já se vislumbra, para essa próxima década e meia, o amadurecimento das operações de compartilhamento de veículos (a consolidação de ubers e afins) para vários tipos de meios de transporte de curta distância (bicicletas e patinetes, principalmente) e o desenvolvimento do polêmico projeto do veículo autônomo. O caminho do “driverless” é inescapável, e já se tem uma estimativa do impacto que deve causar na economia. De acordo com o executivo da área de dados e inteligência artificial da IBM, Djalma Filho, a concretização de iniciativas nessa área vai provocar mudanças significativas em um total de 33 setores, tão díspares quanto logística aeroportuária, planejamento urbano (toda a infraestrutura de sinalização, por exemplo), produção de petróleo, imobiliário e serviços de resgate. Todos obrigatoriamente terão de se adaptar à nova realidade.

Energia e produção de alimentos são pontos igualmente nevrálgicos desse futuro próximo. O primeiro, inclusive, tem clara intersecção com o urbanismo, à medida que a substituição do petróleo como combustível de veículos por fontes como a energia elétrica ajuda a melhorar a qualidade do ar. E, nesse caso, já é possível dizer que o futuro está aqui mesmo em 2019. A cidade chinesa de Shenzen, metrópole com o tamanho de São Paulo (cerca de 12 milhões de habitantes), conseguiu converter 100% de sua frota de aproximadamente 17 mil ônibus para ser abastecida por energia elétrica (a capital paulista tem cerca de 15 mil veículos, com uma ínfima porcentagem de elétricos). Resultado: Shenzen hoje tem um ar mais limpo, e os moradores vivem em um ambiente muito mais agradável em termos de poluição sonora. Uma transformação dessa magnitude será também necessária em outras das muitas metrópoles do século 21 — amplo espaço para o surgimento de novas empresas e novos negócios.


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Mais bocas para alimentar

No que se refere a comida, nem é preciso reforçar a ladainha de que a humanidade terá de encontrar formas de alimentar (e relativamente bem) os quase 10 bilhões de indivíduos que estarão no planeta daqui a algumas poucas décadas. Crescem, portanto, as apostas na criação de alternativas inusitadas, como a produção em grande escala de proteína de insetos (diga-se de passagem, já comum na dieta de alguns países do oriente), e outras mais ordinárias, como o desenvolvimento de mecanismos logísticos para redução de desperdícios e de produtos de origem vegetal que simulam o gosto da proteína animal.

Emblemático nesse particular é o recente movimento de empresas processadoras de carnes. Em agosto deste ano, a Marfrig anunciou parceria com a americana do setor agrícola ADM para criar um “hambúrguer” de proteína vegetal com gosto e textura de carne bovina. Também já atuam nesse segmento empresas americanas como Impossible Foods e Beyond Meat. Seus produtos visam agradar consumidores e influenciadores digitais que disseminam o apreço por alimentação saudável. Esse cenário revela o ímpeto de grandes indústrias e foodtechs — startups que atuam na área de alimentação — em oferecer opções que passem longe das facilidades hoje execradas dos alimentos ultraprocessados. Um caminho assim, apesar de alinhado com o futuro, pode na verdade representar uma volta às soluções do pós-guerra.

A era do intangível

A imaterialidade é o grande ativo corporativo — e também pessoal — do século 21. E essa afirmação estará ainda mais consolidada em 2035. O mundo físico, dominante na estrutura da economia até há algum tempo, tem claros limites, o que torna imprescindível a migração para um modelo em que valham mais os ativos que não se esgotam. Quando se corta uma árvore para a produção de papel ela deixa de existir como tal — é um ativo que se perde (economia linear); quando se compartilha um conhecimento, ao contrário, ele se dissemina e cresce (economia exponencial). “Antes, o poder estava nas mãos de quem tinha o capex (investimento em bens de capital). Hoje está — e amanhã também estará — com quem tem o usuário”, aposta Rodrigo Baer, sócio da Redpoint eventures, firma de venture capital com foco em internet.

É com base na premissa de que as organizações devem passar a funcionar em um novo modus operandi que surgem mecanismos como a fluxonomia 4D, desenvolvida pela consultora em economia criativa e futurista Lala Deheinzelin. “Esse modelo sugere que as organizações, independentemente de seu porte, passem a funcionar levando em consideração as novas quatro economias: criativa, compartilhada, colaborativa e multimoedas”, explica. Segundo ela, quando um líder ou uma organização enxerga essas quatro dimensões, aumentam suas chances de identificar os novos padrões que se consolidarão no futuro. E eles deverão atender, afirma, o desejo do maior número de pessoas possível — e nisso ela converge com as avaliações de Simões, da PwC, e de Baer, da Redpoint eventures.

Entre as empresas que já notaram que seu principal ativo não está no concreto, mesmo que se trate de uma indústria, está a Natura. Em vez de se conformar em ser fabricante de cosméticos, a empresa virou o foco para o que hoje considera seu ativo mais relevante: a rede (ativo intangível) formada pelo batalhão de consultoras advindas do tradicional modelo de venda porta a porta. “A Natura é uma especialista em relações”, ressaltou Fernando Lemos, vice-presidente e CIO da companhia, em evento de inauguração do laboratório de big data e inteligência artificial da Fundação Instituto de Administração (FIA).

Segundo o executivo, os projetos da empresa são dedicados principalmente a ajudar sua rede de consultoras a reforçar laços com os clientes. Para isso não faltam investimentos em tecnologias em plena expansão, como gestão de informações por meio de big data e ferramentas de inteligência artificial e machine learning. Sustentada no mote “bem estar bem” e com uma capilaridade invejável, a Natura consegue oferecer o que seu ecossistema quer — de produtos bem desenvolvidos do ponto de vista da sustentabilidade (a empresa é notória patrocinadora de ações que contribuem para uma exploração ecologicamente correta de recursos da Amazônia) a aplicativos de meditação. De acordo com Lemos, é nessa toada que a Natura inicia seus próximos 50 anos. Um exemplo para outras companhias que não queiram ser atropeladas pelo futuro.


Bolsa sofre com baixa diversidade de setores

É regra fundamental dos mercados: não se pode projetar o futuro com base no passado. Mas uma avaliação do que já aconteceu quando se tenta montar cenários futuros pode ser bastante proveitosa. No caso específico do mercado de capitais brasileiro, tomando como base a bolsa de valores, é possível dizer que desde 2003, quando estreou esta capital aberto, ela passou por uma revolução sem precedentes.

Como instituição, foi desmutualizada e se fundiu duas vezes: primeiro com a BM&F e depois com a Cetip, para formar a atual B3. Já como segmento de negociação foi palco de uma significativa expansão em termos de volume diário de negociação. De acordo com dados da Economatica, o montante saltou de uma média irrisória de 220 milhões de dólares por dia em 2003 para 3,7 bilhões de dólares neste ano. A quantidade de empresas listadas no período, entretanto, pouco mudou: passou de cerca de 200 para 350; isso apesar da explosão de liquidez entre os anos de 2004 e 2007.

A baixa quantidade de empresas negociadas, por óbvio, é resultado de uma série de fatores econômicos conjunturais. Mas não dá para ignorar o fato de que a bolsa sofre com uma crônica falta de diversificação de setores. Diferentemente do que acontece em mercados maduros, o investidor nacional não tem muitas opções de atividades econômicas na bolsa, principalmente quando se trata de investimento em empresas de menor porte ou atuantes em setores que se mostram tendência no século 21. Um exemplo: a americana The RealReal, uma espécie de brechó online de artigos de luxo, está em processo de abertura de capital na Nasdaq. Impensável, mesmo em 2019, um IPO dessa natureza na B3. Até companhias brasileiras de setores mais tradicionais — como soluções de pagamento — têm escolhido pregões no exterior para captar recursos (vide PagSeguro e Stone).

Não sem motivo as rodadas de captação de recursos de startups que estão moldando a economia do novo século no Brasil se concentram nos ambientes de venture capital e private equity. “O mercado brasileiro de bolsa ainda é muito dependente de métricas que não se aplicam aos modelos das startups”, afirma Rodrigo Baer, sócio da firma de venture capital Redpoint eventures. “O investidor de bolsa aqui ainda não está preparado para comprar a ‘história’ dessas empresas”, acrescenta.

Uma mudança nesse cenário, entretanto, será crucial para o desenvolvimento do mercado acionário brasileiro nos próximos anos. Segundo a Economatica, a bolsa de valores hoje é menor do que outros segmentos do mercado de capitais do País: no fim de junho passado, a soma do valor de mercado das empresas listadas atingiu um recorde de 4 trilhões de reais — ficando atrás da indústria brasileira de fundos (4,7 trilhões de reais). (R.A.)


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