Robotização chega à área fiscal das companhias

Discussão gira agora em torno do relacionamento entre empresas e fisco nessa nova realidade e da fronteira aberta pela inteligência artificial

Tecnologia e Inovação/Reportagem / 12 de abril de 2019
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Robotização chega à área fiscal das companhias

Ilustração: Rodrigo Auada

O ambiente tributário brasileiro não ficou imune aos desafios impostos pelo avanço das tecnologias. De um lado, empresas querem aumentar eficiência e reduzir custos; de outro, o fisco apresenta-se cada vez mais digitalizado e atento às novas ferramentas, mas por vezes ainda apegado a antigas práticas. Nesse contexto, surge como opção a automação de processos por meio de robôs, o que promete agilizar e padronizar resultados. Quais seriam os impactos dessa novidade sobre as carreiras dos profissionais da área fiscal? Que tendências despontam? De que forma as tecnologias de automação e inteligência artificial atingem a Receita Federal e seu relacionamento com os agentes econômicos?

Essas questões e outras relacionadas foram abordadas no Grupo de Discussão “A ascensão dos robôs”, promovido pela CAPITAL ABERTO com o patrocínio da Pwc. Ao lado de Manuel Marinho, sócio da PwC, participaram do painel Ana Bela Gomes, indirect tax manager da Unilever; Diogo do Valle, gerente de planejamento tributário da Phillip Morris Brasil; Jonathan Formiga, auditor fiscal da Secretaria da Receita Federal; Jerson Prochnow, CEO da Systax; e Leonardo Nogueira, diretor de engenharia da Avalara Brasil. Confira a seguir os destaques da discussão.

CAPITAL ABERTO: Como surgiu a necessidade da robotização no ambiente tributário?

Manuel Marinho: As organizações funcionam com base em processos, que, com o tempo, se tornam cada vez extensos e complexos, e é daí que surge o espaço para as tecnologias capazes de abreviar o esforço envolvido. A robótica veio como uma resposta a essa necessidade. Estamos acostumados a pensar em robôs como máquinas numa linha de produção, mas essa é a robótica do mundo mecânico. Agora, estamos num nível em que as máquinas começam a se comunicar entre si e entender qual é o padrão do comportamento humano, interagindo de acordo com as necessidades humanas.

CAPITAL ABERTO: Poderia nos dar exemplos de situações nas quais seria possível envolver a robotização dentro da área fiscal?

Marinho: Já existem robôs que executam atividades humanas em plataformas digitais, e eles se tornaram muito mais acessíveis. Funções repetitivas, de baixo valor agregado, que envolvem movimentação massiva de dados, formatação de planilhas ou extração de dados de relatórios são atividades candidatas à robotização. Já se encontram no mercado tecnologias que ajudam a interpretar uma massa de dados de maneira mais eficiente, com o uso de algoritmos matemáticos. É o chamado machine learning, espécie de automação a cada dia mais acessível. A inteligência artificial é a próxima fronteira no campo da competitividade.

CAPITAL ABERTO: E em que níveis a automação vai impactar ritmo e rotina no trabalho relacionado a questões fiscais?

Marinho: Com a automatização dos processos, acabamos com as horas extras, humanizando o trabalho do analista na função fiscal, fazendo com que ele execute seu job description. Assim, finalmente o analista começa a ter condição de fazer análise. Vamos testemunhar uma grande evolução no âmbito profissional, principalmente com a ciência de dados. A robótica vai nos impulsionar para jornadas de trabalho mais curtas e ganharemos mais tempo para cuidar das nossas famílias, dos nossos interesses e da nossa saúde. O limite dessa automação sempre vai depender do julgamento humano. Afinal, por mais que se consiga desenvolver a inteligência artificial para ser capaz de tomar certas decisões, existem campos de decisão tão sensíveis que a máquina não vai perceber.

CAPITAL ABERTO: Agora vamos abordar os limites dessa automação. Como funciona na prática? Como identificar onde essa automação pode ser aplicada, respeitando o tamanho da empresa e a complexidade do negócio?

Ana Bela Gomes: É um jogo, porque é preciso que alinhar tudo: as pessoas, os processos, a tributação e a entrega da obrigação. Mas dá para fechar a equação. O RPA [robotic process automation] faz uma função repetitiva, mas evita erros muitas vezes bobos. E, consequentemente, um profissional que não fica digitando está liberado para se dedicar a uma análise. Aí começamos a falar do deslocamento de um profissional para um campo no qual utilizaria melhor todo aquele conhecimento que acumulou ao longo do tempo. Com o machine learning, depois de algumas atualizações a máquina se retroalimenta com determinadas informações e isso facilita o deslocamento de um profissional dentro da própria organização, já que ele pode aprender novas matérias e se tornar mais competitivo.

CAPITAL ABERTO: Vamos pensar em uma empresa que se vê diante de todas essas novidades. De que forma pode identificar a melhor tecnologia para melhorar os processos e, ao mesmo tempo, ir além disso?

Diogo do Valle: Eu trato essa transição sob a forma de três grandes pilares: as mudanças dos processos, dos produtos e das pessoas por trás desses processos. Assim podemos garantir qualidade com uma maior eficiência, e também preparar os nossos colaboradores para a robotização e para novos desafios. Na Phillip Morris, estamos saindo hoje de um produto que é praticamente uma commodity, o cigarro, para produtos digitais [no ano passado, a companhia lançou novos cigarros eletrônicos, por exemplo] o que muda completamente a nossa classificação.

A robotização chega para facilitar as transformações internas, nos processos e no produto. Como toda multinacional, passamos por uma série de controles. Para aprovar um RPA há um trâmite longo envolvido. Precisamos começar com os pequenos processos. Ao mapeá-los, identificando pequenos riscos, começamos a construir essa necessidade de mudança, para passar a pensar em curto prazo num futuro com robôs, RPAs e automatização. Isso tudo pensando em um desenho que seja replicável, pois assim conseguiremos atingir a inteligência artificial, nível em que passamos a ser estratégicos.

CAPITAL ABERTO: O fisco está acompanhando essas transformações?

Jonathan Formiga: Sim, fazendo uma abordagem temporal e também cultural, já que o fisco e o poder público no Brasil mantêm um certo componente de natureza impositiva. Então, temos uma visão ainda imperialista, em que o fisco não se preocupa em observar o ambiente tecnológico de compliance das empresas. Mas essa visão precisa ser superada. O fisco se preocupa em como verificar descompassos e, às vezes, a questão tecnológica da empresa não é observada, infelizmente. Mas a partir do momento em que o processo de robotização adentrar no fisco, a Receita Federal terá que se comunicar de forma mais intensa com os agentes econômicos, para permitir que a informação já venha estruturada.

CAPITAL ABERTO: A questão envolve também o lado de quem está desenvolvendo essas tecnologias. A complexidade do sistema tributário brasileiro é um desafio? De que magnitude?

Jerson Prochnow: Do nosso lado, o desafio é apoiar as empresas nesse ambiente complexo e em constante mutação, especialmente pela questão de competências normativas distribuídas. Se antes as empresas registravam as suas transações em papel, hoje isso já é online, instantâneo, automático, e todos os dados e transações estão expostos ao fisco. Nossa função é transformar tudo isso em informação estruturada, de forma a apoiar nossos clientes em atualizações dos seus sistemas. Afinal, eles devem sempre operar em conformidade e minimizando riscos. Cada vez mais deixamos de ter interfaces humanas e os sistemas conversam entre si, como já acontece, parcialmente, em alguns processos.


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CAPITAL ABERTO: Para a implementação das tecnologias sempre é necessária a participação da área de TI? Além disso, qual é a melhor forma de se implementar essas mudanças?

Marinho: Processos que demandam conhecimento mais detalhado devem ser feitos com a administração da área de TI, por causa da manutenção que deve ser executada posteriormente. Em relação a como introduzir a automação, a melhor maneira é com um trabalho inicial de diagnóstico dos processos, avaliando em que pontos há oportunidades de automação e com qual tecnologia. Depois, isso é idealmente implementado em ondas. Primeiro você automatiza a área de dados; na segunda camada, os processos; na terceira, relatórios; e, ao final, análises.

Infelizmente, não funciona assim em todos os lugares, seja por questões de orçamento, por concorrência com outros projetos internos ou por incompatibilidade de cenários de atuação.

Valle: Além da área de TI, temos que pensar nas áreas financeiras, pois nenhum projeto de TI pode sair sem verba. As companhias têm como objetivo gerar o melhor retorno para os acionistas, para os processos e para o compliance. Então, sempre temos que pensar em como melhorar e reduzir o risco da exposição e, da mesma forma, aumentar a eficiência gerando bons resultados. O time de finanças está diretamente relacionado nesse controle e fazemos um trabalho conjunto, para determinar quais são os principais projetos e processos que serão implementados.

CAPITAL ABERTO: O monitoramento das mudanças que podem afetar a forma como é feita a tributação tem sido feito de que maneira? É de se imaginar que velocidade seja fundamental nessa dinâmica.

Valle: Hoje eu tenho três pessoas que ficam só acompanhando as edições do Diário Oficial — nos âmbitos federal, estadual e municipal —, para que não percamos nenhum processo legislativo, o que poderia nos prejudicar depois com alguma infração. É um custo elevado que temos em função da burocracia, infelizmente, e do processo legislativo extremamente complexo que existe na área fiscal.

Gomes: Estamos apertados pelos dois lados: o lado do governo, em que é preciso fazer tudo corretamente para não haver exposição; e o lado dos negócios, que precisa de resposta rápida.

CAPITAL ABERTO: Como avaliar o trabalho da Receita Federal na produção de novos sistemas automatizados, considerando o que já foi desenvolvido?

Formiga: Percebo que, na última década, esse foi um processo muito dinâmico, que criou para os agentes econômicos um rol de atividades antes inexistentes. O poder público tinha uma visão imperativa, no qual impunha obrigações sem avaliar seus reflexos. Por exemplo: as grandes corporações participaram de todo o processo de construção do Sped [sistema público de escrituração digital], mas o exército de cerca de 5 milhões de microempresas não participou e ainda sofre com isso. Na elaboração da EFD Contribuições [escrituração digital destinada ao PIS/Pasep], ouvimos diversos segmentos econômicos porque eu estava preocupado com essa automação de processos. Tive reuniões técnicas para alinhar a nossa exigência ao ambiente de negócios de quem vai prestar informação. O fisco está estudando como fazer futuras alterações no Sped, por causa de alterações na tributação que devem acontecer num futuro próximo.

CAPITAL ABERTO: Os provedores de softwares têm como sobreviver diante dessa simplificação de processos e dos avanços tecnológicos?

Leonardo Nogueira: Deveríamos investir cada vez mais na automação dos nossos próprios processos. Com o desk automation, você pode utilizar melhor a sua capacidade cognitiva para se dedicar àquela análise mais apurada e àquela decisão que realmente precisa ser tomada. Nós entendemos que as empresas que não investirem em automação de seus processos tendem a quebrar ou a sofrer o impacto da chegada de outros players. Só a tecnologia vai permitir que se saia desse patamar para um próximo nível de geração de valor muito maior.

CAPITAL ABERTO: Qual é o impacto social da robotização, principalmente dentro do mercado de trabalho? Seria possível inserir um profissional com mais tempo de carreira e que não pegou o processo de digitalização?

Gomes: No começo a implementação choca, mas as pessoas acabam se acostumando. É um trabalho de muita conversa, pois é preciso deixar claras as novas oportunidades que aparecem. E com o funcionário se deslocando dentro da empresa ou do departamento, o próprio mercado se aquece.

Valle: Observamos que as características do nosso profissional do futuro não estão na parte técnica, e sim nas soft skills. É claro que vamos precisar ter conhecimento técnico, mas isso não é mais o diferencial, é o mínimo que se exige para os cargos. A questão que vai nos diferenciar é como tratamos as pessoas, como gerenciamos as equipes e como conseguimos replicar isso e alavancar os resultados para a companhia como um todo.

Nogueira: Qualquer que seja a tecnologia, ela opera sob um contexto, que é dado pelo profissional. Sem ele, a tecnologia não vai fazer milagres. Nós percebemos um apagão: faltam profissionais capacitados no mercado que dialoguem com a linguagem do negócio e da tecnologia. Um dos maiores desafios que nós, provedores de tecnologia, encontramos é identificar profissionais que tenham essa capacitação e que consigam falar esse novo idioma da tecnologia, combinando metodologias ágeis com entrega de valor mais acelerado para os nossos clientes.

Gomes: Antigamente, um profissional de TI aprendia a área tributária; hoje, vemos a migração inversa — um profissional de tax aprendendo a linguagem da tecnologia. O profissional que não estiver atento às mudanças do mercado está cometendo um grande erro, assim como a empresa que não se lançar para a automação. Já sobre os profissionais que têm mais senioridade: costumamos falar que eles são um ativo. Formam um cérebro para a empresa e, no Brasil, contamos muito com experiência vivida no passado. Os conhecimentos e a riqueza em detalhes de operações e de legislação não se joga fora da noite para o dia.

CAPITAL ABERTO: O processo de automação influencia a arrecadação?

Formiga: O processo de automação agregou uma nova área: a financeira. A robotização dos processos de cobrança tem como um dos principais insumos exatamente a disponibilidade financeira da empresa para honrar aquela obrigação que não está sendo satisfeita.

O fisco pode se fazer presente de diversas formas, estabelecendo obrigações acessórias em que se terceiriza as rotinas de verificação do contribuinte, por exemplo. A grande revolução não vai ser uma mudança na tributação, mas ocorrerá quando a Receita Federal se robotizar na verificação da consistência e da harmonia das informações inseridas. Então, há um mundo enorme à frente de desafios para o fisco e para os agentes econômicos nessa área de automação.


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Tags:  Receita Federal inteligência artificial Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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