Muito além das criptos

Por que a blockchain é vista como a segunda era da internet

Tecnologia e Inovação / Reportagem / 11 de Maio de 2018
Por 


Ilustração: Rodrigo Auada

Plataforma de registro da moeda virtual bitcoin e de outras criptomoedas, a blockchain revela-se uma inovação promissora para os mercados financeiros e de capitais. De acordo com relatório divulgado pela Accenture em janeiro de 2017, essa tecnologia pode reduzir em média 30% dos custos de infraestrutura de oito dos dez maiores bancos de investimento do mundo, o equivalente a uma economia anual entre 8 e 12 bilhões de dólares. Dado esse potencial, alguns já chamam a blockchain de “internet do dinheiro”. “A blockchain é a segunda era da internet e vai muito além das criptomoedas”, explica Suzi Hong Tiba, sócia do BSH Law. “É uma tecnologia que vai permitir a democratização da troca de ativos, sem a necessidade de uma agência ou de um órgão para fazer essa intermediação.”

Dois grandes atrativos da blockchain são sua segurança e confiabilidade. Ela é um tipo de livro-razão que permite a diversas partes compartilhar o acesso aos mesmos dados. Assim, se um dado é falseado em um ponto, ele logo será reconhecido como “alterado” por algum dos integrantes da rede. Como esse controle é feito pelos próprios usuários, não há a existência de uma entidade controladora. “A internet apenas nos deu acesso. O próximo passo é sair da centralização e entregar às pessoas a sua responsabilidade”, resume Yoshimiti Matsusaki, presidente da Finnet, empresa de TI voltada à área financeira, e membro da comissão internacional que discute a padronização internacional da blockchain.

Atentos às virtudes da tecnologia, os bancos estudam como usar a blockchain na criação de soluções disruptivas. “Estamos no momento de pequenas aplicações, mas o potencial de transformação é gigante, como aconteceu com o internet banking anos atrás”, acredita Igor Freitas, superintendente de TI do Itaú-Unibanco. Cientista da computação que atua como pesquisador no laboratório da IBM Brasil, Percival Lucena diz que a demanda do setor financeiro por soluções que adotem a blockchain é crescente, uma vez que há inúmeras lacunas operacionais que podem ser preenchidas com o uso dessa tecnologia.

Enquanto os bancos nacionais testam os limites da blockchain com parcimônia, devido à ausência de uma regulação sobre a tecnologia no Brasil, as startups desbravam com voracidade esse território. A Latoex, por exemplo, tem uma plataforma de negociação de tokens (ativos financeiros, como cotas de fundos e títulos de governo, que passam por um processo de registro digital) que opera com tecnologia blockchain. “Em breve, ativos securitizados serão ‘tokenizados’. Não faz sentido, uma empresa pagar um custo elevado em um processo de securitização quando se pode ter um evento muito mais barato, que gera maior rentabilidade para todo o mercado”, ressalta Fabio Silva, fundador da Latoex. Hoje, a empresa tem residência virtual em países amigáveis ao manuseio das criptomoedas, como a Estônia. “O empreendedor precisa ser criativo e buscar alternativas para tocar um empreendimento inovador. Se não há condições regulatórias de se fazer isso no Brasil, certamente vamos encontrá-las em outros lugares”, ressalta.

Co-fundador da Fisher Venture Builder, uma espécie de clube de investimentos em startups do setor financeiro, Carlos Gamboa vê com cautela a “corrida do ouro” provocada pela blockchain. “Veremos muitos casos darem errado, como vimos com a internet”, prevê. Para escapar das ciladas, portanto, o segredo pode estar em não “se apaixonar” pela blockchain, afirma Freitas, do Itaú. “É preciso estar com o radar ligado. Novas tecnologias surgem a todo tempo. O grande desafio é usa-las da forma correta”, adverte.

 



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