Fundos se dividem entre boicotar e pressionar empresas por questões ESG

Não há consenso entre gestoras sobre qual seria a melhor estratégia para alcançar o desenvolvimento sustentável

Gestão de Recursos/Reportagem / 22 de novembro de 2019
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Ilustração: Rodrigo Auada

Existe uma percepção, já praticamente consolidada no mercado de capitais, de que adotar posturas sustentáveis significa algo bastante pragmático: dinheiro no bolso. Um bom exemplo vem da Noruega. No início deste ano, o fundo soberano do país anunciou que passaria a gradativamente excluir de sua carteira de investimentos papéis de companhias exploradoras de energia fóssil. Seria mais uma entre tantas decisões de alocação, não fosse por um detalhe. A economia norueguesa está assentada primordialmente sobre a produção de petróleo. O governo do país, sabe, no entanto, que suas reservas da commodity não durarão para sempre e que, com o desenvolvimento de energias mais limpas, os preços do barril tendem a cair; logo, trata antecipadamente de encontrar alternativas de receitas.

Se há consenso em torno da necessidade de os investidores atentarem para essas questões, os caminhos adotados na hora de tomar decisões de alocação ainda causam divergências. A pergunta é: se o objetivo é contribuir para a preservação do ambiente e dos lucros seria mais eficiente apelar, como o fundo soberano da Noruega, para o boicote das empresas ambientalmente incorretas, ou manter as posições nessas companhias, usando a participação acionária para pressionar por mudanças na administração? O assunto é novo e, como tal, suscita abordagens variadas.

Boicote predomina

Por ora, a estratégia mais utilizada globalmente é a triagem negativa ou excludente. Nesse caso, são tirados de carteiras de investimento setores ou empresas que infrinjam critérios ESG, sigla em inglês para investimentos voltados ao desenvolvimento ambiental, social e de governança. Gestores que seguem essa linha de atuação movimentam 19,8 trilhões de dólares e estão em sua maioria na Europa (55%), segundo levantamento de 2018 da Global Sustainable Investment Alliance (GSIA), organização independente que congrega entidades de promoção de investimentos sustentáveis de vários países. São alvos comuns dessa tática companhias de segmentos malvistos socialmente, como as indústrias de tabaco e de armas.

Não faltam, no entanto, críticas a esse antigo e disseminado modelo. Para Marcelo Seraphim, chefe da organização Principles for Responsible Investment (PRI) no Brasil, excluir a empresa do portfólio é um desserviço. E a razão é simples: se um fundo interessado em sustentabilidade vende um ativo que não atende ao propósito, algum outro investidor vai comprá-lo e a companhia não terá razões para mudar de comportamento. “Mais indicada é uma atuação junto à empresa, de forma que o investidor possa contribuir para o endereçamento das questões”, defende. Hiromichi Mizuno, diretor do maior fundo de pensão do mundo, o japonês fundo de investimento em previdência do governo (GPIF) — 1,5 trilhão em ativos sob gestão —, disse ao jornal Financial Times ser visceralmente contra as exclusões. Na avaliação dele, a única certeza que se pode ter sobre o novo investidor é que ele será menos preocupado com o ambiente do que o primeiro, que excluiu a companhia da carteira.

No Japão, por sinal, os ativos de investimento sustentável quadruplicaram de 2016 para 2018, passando de apenas 3% para 18%, segundo medições do GSIA. Hoje o país concentra o terceiro maior estoque dessa classe de ativos, atrás de Europa e Estados Unidos. Diferentemente dos europeus, entretanto, a principal estratégia de investimento sustentável no Japão é o engajamento corporativo, com pressão dos acionistas. Os japoneses preferem usar o poder do investidor para influenciar o comportamento corporativo com votos por procuração, propostas entre acionistas e até atuação direta em conselhos de administração.

Critérios dispersos

Seja para excluir ou pressionar companhias, os investidores enfrentam um obstáculo: a falta de padrões amplamente disseminados para comparação dos ativos, afinal, muitas empresas não tornam públicos os dados que deveriam. A Europa, pelo menos, contornou essa questão criando um modelo para elaboração de relatórios ESG. Além de facilitar o cotejo, o padrão ajuda os investidores a escapar da armadilha de empresas que fazem o chamado “greenwashing”, em que aparentam ter preocupação com o ambiente enquanto insistem em práticas inadequadas na sua operação.

Na ausência de uma diretriz como a europeia, investidores de outros mercados recorrem a algumas iniciativas isoladas. Entre elas, as da própria PRI, que estabelece valores para mensuração do investimento responsável, e as do Carbon Disclosure Project (CDP), que apoia empresas, cidades, estados e regiões na divulgação e gerenciamento de seus impactos ambientais. “Existem muitas ferramentas e padrões de relatório para os dados ESG, mas ainda falta conscientização e visão de longo prazo para que se leve em consideração a visão de um investimento ou negócio daqui a 10 ou 15 anos”, destaca o diretor do CDP para a América Latina, Lauro Marins.

Embrião

No Brasil, como em geral acontece em muitas outras áreas, essa prática está em fase embrionária. Em 2016, mais da metade (54,8%) das gestoras brasileiras tinha até 20% seus patrimônios sob gestão ancorados em ativos ESG, de acordo com o primeiro relatório de sustentabilidade da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Dois anos depois, na segunda pesquisa, o percentual das que investem menos de um quinto em ativos sustentáveis caiu para 24,69%. Mas a melhora provavelmente foi aparente, já que 40,74% dos entrevistados se negaram a divulgar a informação em 2018.

Luzia Hirata, membro do Grupo Técnico de Sustentabilidade da Anbima, diz acreditar que a negativa de algumas gestoras em divulgar esses dados sugere que ainda não investem conforme parâmetros ESG. “Infelizmente nosso mercado de capitais não é tão abrangente quanto o externo. Gestoras internacionais investem globalmente e, assim, conseguem ter uma gama maior de opções. Aqui o investidor muitas vezes não tem alternativa e por isso não prioriza esses critérios”, analisa.


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